ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA

(Tradução da versão estenográfica - Conselho de Estado)

Patricia Villegas.— Do Palácio da Revolução na cidade de Havana, em Cuba, saudamos o presidente deste país.

Muito obrigada, presidente Miguel Díaz-Canel, por aceitar este convite da Telesur. Estamos simultaneamente na Telesur em espanhol e na Telesur em inglês.

O senhor está no governo há quatro meses. Como você avaliaria esses meses? O que eles significaram para você?

Miguel M. Díaz-Canel.— Patricia, em primeiro lugar uma saudação para a Telesur, para a audiência da Telesur, um canal que desempenha um papel tão importante na geração do conteúdos encorajadores que precisa Nossa América. Acho que estes foram meses de muita experiência e meses que também causam muita reflexão.

Após o término da Assembleia de Constituição da 9ª Legislatura da Assembleia Nacional do Poder Popular, em que houve um discurso que, em minha opinião, é um discurso programático, proferido pelo general-de-exército Raúl Castro Ruz, primeiro secretário do Comitê Central do Partido, começamos a estudar, a refletir sobre as diretrizes contidas nesse discurso, e fizemos um exercício coletivo no Comitê Executivo do Conselho de Ministros e, em seguida, com todo o Conselho de Ministros, para ver a forma em que nós tínhamos que trabalhar no governo e tiramos várias conclusões que são as que estamos tentando implementar:

Em primeiro lugar, responder a este conceito de que seja um governo do povo, para o povo, o que é o mesmo que ser um governo para a Revolução, e depois estabelecemos quatro pilares principais nos líderes e diretivos e os temos compartilhado com esses líderes: um, que além do exemplo, os líderes e diretivos têm que ser capazes e em atitude de prestar contas de sua gestão em diferentes instâncias do governo e, acima de tudo, perante o povo.

Um segundo elemento tem a ver com a conexão, o debate e o diálogo permanente com a população e que estamos onde estão as questões mais complexas, nos locais onde também há maiores complicações.

Um terceiro pilar é que os diretivos, os líderes em Cuba sejam capazes de usar a comunicação social como uma arma fundamental, como um instrumento de trabalho.

Patricia Villegas.— Haverá uma mudança transcendental na Revolução?

Miguel M. Díaz-Canel.— Agora estamos em meio da implementação da política de comunicação social aprovada, e acho que ela vai atualizar nosso sistema da mídia inteira, mas também, mais do que a mídia e somente o jornalismo, a cultura comunitária que o país está precisando.

Patricia Villegas.— A oferta de comunicação em geral?

Miguel M. Díaz-Canel.— A oferta de comunicação na interatividade entre o povo e o governo através da mídia, das redes sociais.

Estamos aspirando a poder ser capazes de declarar uma primeira etapa de presença no governo eletrônico do país, que tem muito de sua base em todas as plataformas digitais que, a partir do governo, permitem a interatividade com a população e, portanto, a participação da população através dessas plataformas na tomada de decisões.

Patricia Villegas.— A população, em muitos momentos, tem sido hipercrítica com a Revolução, na sua maneira de se comunicar, isso vai mudar, isso vai se transformar?

Miguel M. Diaz-Canel.— Eu acho que, em primeiro lugar, a imprensa cubana, sob as condições em que teve que enfrentar os desafios de comunicação da Revolução, foi uma imprensa que tem defendido a Revolução muito profissionalmente e eu diria com eficiência, Mas também tivemos, às vezes, manifestações, talvez, de louvor; às vezes também não conseguimos refletir alguns assuntos da agenda pública. Em outras palavras, acho que ainda temos que fazer coincidir mais a agenda pública com a agenda da mídia.

Mas todo o papel é importante em termos de geração de conteúdos. Hoje, no mundo, prevalecem os conteúdos desmobilizadores e perversos das plataformas coloniais de restauração que nos tentam impor. E eu sempre digo: Se temos um público fundamentalmente jovem, cujos códigos de comunicação não são os dos meios de comunicação tradicionais, mas são os das redes sociais e as redes sociais estão cheias de conteúdo que distorcem a realidade de nossos povos, que também perturbam a identidade e a cultura de nossos povos, é necessário que sejamos capazes, a partir de nossas plataformas de comunicação, de enchê-las de conteúdos enaltecedores de nosso povo.

Patricia Villegas.— É sua preocupação do senhor se comunicar com os setores mais jovens da sociedade cubana? Sente que de alguma forma eles não estão...?

Miguel M. Díaz-Canel.— Eu acho que é uma necessidade da Revolução. Fidel era um defensor disso, Fidel frequentava as universidades quando queria discutir algum problema. As reuniões na Praça Cadenas, da Universidade de Havana, nos primeiros anos da Revolução, são famosas.

Para mim, tem sido uma necessidade desde que eu era líder da juventude, quando eu me desenvolvi como secretário do Partido em duas províncias e quando exerci como ministro do Ensino Superior, essa questão de me aproximar dos jovens que sempre contribuem com tanto, que atualizam muito, para saber suas aspirações e também de sua vontade de participar e propor.

Portanto, esta comunicação é um terceiro pilar que deve estar no exercício dos líderes e diretivos.

O quarto pilar é que aqueles que estamos na liderança devemos ter em conta que as soluções para os problemas que temos são muito complexas; portanto, não se pode falar de uma alternativa, sempre será preciso enfrentar cada complexidade com várias alternativas. Fidel postulou esse conceito, e a única maneira de torná-lo mais eficaz é lançando mão de pesquisa científica, procurando a partir da pesquisa, da inovação, porque muitas vezes nós pesquisamos e não concretizamos. E é que a pesquisa científica transformada em inovação e a informatização da sociedade, utilizadas como ferramentas para a solução dos problemas, seja também um dos pilares que defenda cada líder em sua forma de agir, em sua maneira de fazer.

Patricia Villegas.— Nestes quatro pilares alicerça sua decisão de ir para as províncias, de se encontrar com as pessoas nas ruas? Eu vi imagens, nas últimas horas, de sua passagem por uma das províncias cubanas, as pessoas cumprimentam-no, entregam cartas, pedem solução a alguns problemas e até mesmo, presidente, eu ouvi algo que não é muito usual ouvir dizer aos líderes, àquelas pessoas que estão liderando governos, quanto a que «existem problemas que não poderemos resolver», que é uma expressão de sinceridade absoluta, o reconhecimento de que existem problemas que nos oprimem. Como explicar isso?

Miguel M. Díaz-Canel.— Tudo isto tem muito a ver com aquela análise que fizemos do discurso proferido pelo general-de-exército. Nós acabamos percebendo que tínhamos um elo que precisávamos fortalecer na governança, que era a interrelação, como buscar maior interação do governo central com os governos dos territórios, com os governos locais, com os governos provinciais.

Patricia Villegas.— Tem a ver com o fato de você vir da província.

Miguel M. Díaz-Canel.— Acho muito bom que qualquer líder cubano que chegue a escalões de liderança nacional tenha tido a experiência das províncias, a experiência dos territórios. Porque em um território são defendidos, ao mesmo tempo, os programas nacionais, os programas fundamentais para a Revolução, mas é preciso defender e desenvolver e criar em função dos problemas das comunidades, dos problemas das localidades, e isso é um elemento que tem muito peso agora, a autonomia que queremos dar aos governos locais no texto do Projeto de Constituição que está sendo debatido.

Então eu lhe disse: Nós refletimos sobre a questão de fortalecer a relação entre o governo central e os governos territoriais e locais. Demos poderes ao primeiro vice-presidente dos Conselhos de Estado e Ministros para ter uma estrutura formal que aborde diretamente a relação do governo central com os territórios. Portanto, já os governos desses territórios sabem que podem ir diretamente ao escritório do primeiro vice-presidente ou ao meu escritório para encontrar a solução ou para nos informar sobre problemas que vão além do âmbito do que eles podem alcançar.

E para complementar essa relação, estabelecemos, entre outros mecanismos, este sistema de visitas. Estamos tentando chegar com visitas do Conselho de Ministros, na composição do Conselho de Ministros, pelo menos duas visitas mensais a províncias, de maneira tal que em um ano possamos, pelo menos, visitar a província duas vezes.

A isso se acrescenta que a Assembleia Nacional do Poder Popular, com suas comissões de trabalho, visita sistematicamente os territórios. Tudo isso nos dá uma bagagem, um dossiê de problemas para resolver, dá-nos uma visão também do espectro de como está o pensamento, a disposição, o humor e nos permite conversar com as pessoas sobre tudo isso.

E quando se trata de resolver problemas eu sempre digo: em primeiro lugar, a construção desse diálogo tem que ser honesta e tem que ser baseada na verdade, baseada no argumento.

Patricia Villegas.— Mudou sua percepção de quais eram os problemas do país depois dessas viagens pelas províncias ou o senhor confirma, digamos, os problemas centrais de Cuba?

Miguel M. Díaz-Canel.— Acredito que os problemas centrais estão confirmados, podemos atender às particularidades, mas, acima de tudo, podemos desbloquear, podemos tornar a solução mais dinâmica.

Eu digo, existem problemas tão grandes que eles não têm uma solução imediata, como um todo, mas a cada dia, se olharmos bem, podemos resolver um pouco desse problema e, portanto, o problema não cresce, mas que estamos rasgando partes dele e essa ação constante está gerando uma sinergia de confronto e solução e não faz ninguém parar, vai avançando.

Existem outros problemas que podem ser resolvidos imediatamente, porque estão bloqueados por uma decisão burocrática, estão bloqueados pela desatenção ou por nenhuma sensibilidade diante do problema, questões que as pessoas nos comunicam mediante os diálogos nos encontros, e há problemas que com muita honestidade, temos que explicar às pessoas que superam as possibilidades do país neste momento.

Patricia Villegas.— Por que, por que superam as possibilidades do país?

Miguel M. Díaz-Canel.— Acredito que o principal obstáculo para o desenvolvimento do país, o que mais atinge o cotidiano dos cubanos e também a vida econômica e social é o bloqueio. O bloqueio imposto pelos Estados Unidos, que é uma prática brutal, eu diria que é um crime contra a humanidade, atenta contra um povo. É um povo condenado a morrer de fome, a morrer de necessidades; viola, mesmo territorialmente, impõe regras sobre a relação do mundo com Cuba que são totalmente extraterritoriais e têm se intensificado muito no momento e em que também prevalece uma enorme perseguição financeira. Então, o fluxo de investimento, os fluxos de capital para Cuba custam muito trabalho, para aqueles que têm o maior desejo, porque há muitas pressões por parte do governo dos Estados Unidos para com isso, e é um bloqueio que já arrastamos durante 60 anos.

A gente diz, bem, minha geração, os que nascemos nos primeiros anos da Revolução, só por termos nascido em Cuba, é uma geração bloqueada. Nossos filhos, nossos netos são gerações que nasceram em condições de bloqueio, que implicam condições de resistência.

Eu acho que há também um reconhecimento do heroísmo, do fato que um povo pequeno, não bloqueado por qualquer um, mas bloqueado pela nação mais poderosa da Terra, tem sido capaz de resistir e tem sido capaz de construir sua própria plataforma emancipatória, que exalta muito, e acredito que nisso há uma expressão não apenas de resistência, mas de vitória.

Patricia Villegas.— Quanto percentual, em sua opinião, tem esta construção, digamos, de soluções para os problemas que as pessoas estão levantando nas províncias e na capital, agora antes, o bloqueio e aquilo que o comandante Raul Castro chamava de «liberar os nós»? Quanto há de nós próprios, internos?

Miguel M. Díaz-Canel.— Eu acho que o bloqueio afeta muito porque, olha, sempre que você está examinando uma relação ou um aspecto da vida económica e social do país e começa a tentar demarcar quais são os obstáculos, muitos dos obstáculos estão diretamente associados ao bloqueio; mas outros obstáculos que são subjetivos, que podem ser de comportamento, o modo de ação, têm sido muitas vezes condicionado pela desconfiança criada pelo bloqueio e a insistência em que o bloqueio obriga a agir, como se defendendo constantemente e analisando muito o passo que você vai dar, para que eles não possam te destruir.

Então, isso gera, às vezes, uma desaceleração na tomada das decisões, na maneira de enfrentar as coisas. As pessoas assumem muito o compromisso de que aquilo que vão fazer não afete o país, que não o enfraqueça e, no final, há uma explicação em tudo sobre o bloqueio. Portanto, alguém pode dizer: eles estão obcecados com o bloqueio. Não, acredito que aqueles que estão obcecados em nos bloquear são os governos norte-americanos. Nós queremos viver nas condições normais de um país. Nós não somos uma ameaça para ninguém. O que temos é vontade e vocação de justiça social, construir um mundo melhor, construir um país melhor. E mesmo, essa vocação de justiça social que sempre tivemos, agora sob as condições atuais, queremos acompanhá-la com uma sociedade que tenha prosperidade, e o principal obstáculo para isso é o bloqueio.

Patricia Villegas.— Vamos falar sobre o projeto de reforma constitucional. Se uma ação fundamental que impede ter essa prosperidade à que o povo cubano aspira e o senhor a expressa tanto nas províncias quanto na capital, é o bloqueio, para que, então, estão discutindo uma nova Constituição? Por que vocês estão fazendo um exame para dentro se um fator fundamental vem de fora?

Miguel M. Díaz-Canel.— A pergunta é interessante e relaciona muitos elementos da nossa realidade.

Bem, levantar o bloqueio não depende de nós, depende do governo dos Estados Unidos. Portanto, não podemos subordinar nosso desejo por conquistas, nosso desejo por justiça social, por prosperidade ao que um governo estrangeiro possa exercer como política. Estamos cientes de que dependemos de nossa própria força, nosso compromisso, nossa vontade e nosso esforço.

Nos últimos anos, tivemos um debate muito intenso, a partir do 6º Congresso do Partido, depois reforçado no 7º Congresso do Partido, sobre as questões da economia e da sociedade, e chegamos a conclusões importantes de que precisamos atualizar nosso Modelo Econômico e Social, levando em conta o cenário do bloqueio. Tudo seria mais favorável sem o bloqueio, portanto, preparamo-nos e tentamos fazer melhor as coisas no pior cenário, que é no palco do bloqueio, e adotamos um conjunto de decisões que atualizam o Modelo Econômico e Social: um setor não-estatal da economia foi concebido e reconhecido...

Patricia Villegas.— Que vai crescendo muito.

Miguel M. Díaz-Canel.— Que cresce, que é um complemento da economia estatal, e não é o setor, digamos, privado, do neoliberalismo, é um setor não-estatal, um setor privado que complementa o que é feito a partir do empresa estatal, que se relaciona com a empresa estatal ou com o Estado, que aparece incluído no Plano da Economia e em nosso planejamento, com quanto contribui para o Produto Interno Bruto este setor, quanto será preciso investir neste setor para que tenha facilidades para produzir ou para fornecer serviços e quanto representa a porcentagem da força de trabalho no país. Portanto, ele está implícito em nossa programação econômica, em todas as nossas projeções, e é um setor que eu diria que, majoritariamente, está comprometido com a Revolução.

Temos ido a mais, nós não só reconhecemos a propriedade privada e a existência do setor privado, mas fizemos progressos em permitir a gestão de alguns setores da propriedade estatal por parte das formas não estatais de propriedade; ou seja, há propriedade estatal que é dada, sem transferência de propriedade, para que possa ser gerenciada por agentes não estatais, bem seja por trabalhadores privados ou por cooperativas.

Nestes tempos, expandimos nossa visão sobre os direitos civis, os direitos humanos. Estamos cumprindo, porque nós assinamos, e estamos comprometidos, com diferentes acordos em nível internacional que não foram verdadeiramente expressos em nossa Constituição, e também o modo de pensar dos cubanos em questões que antes eram tabus ou eram questões que foram assumidas a partir de outra posição, hoje têm outra abordagem, especialmente na população jovem. E isso já nos levava, e inclusive já tínhamos começado a entrar não em uma total contradição, mas em uma limitação...

Patricia Villegas.— Em uma encruzilhada?

Miguel M. Díaz-Canel.— Em uma encruzilhada, a partir do que é o âmbito institucional, com as coisas que estamos tentando experimentar, nas que estamos tentando avançar. Portanto, a reforma constitucional revelou-se necessária. E esta emenda constitucional, em primeiro lugar, reforça um grupo de nossos princípios, nossas crenças, que a propriedade estatal continua sendo a propriedade fundamental, embora combine outras formas de propriedade. Todo um grupo de direitos é ampliado e, é claro, continua sendo reconhecido o papel do Partido como força principal em nossa sociedade.

E, além disso, procuramos atingir mais autonomia dos governos municipais para resolver estes problemas de funcionamento do governo central, com uma estrutura mais coerente nas formas de governo.

Patricia Villegas.— É um olhar mais pragmático do país, sobre sua realidade?

Miguel M. Díaz-Canel.— Eu acho que é um olhar responsável, é um olhar objetivo, é um olhar realista. Eu acho que é um dos elementos mais inovadores, que já estão expressos nas Diretrizes que foram adotadas no 6º Congresso e ratificadas de forma mais ampla no 7º Congresso, que é bem delineado na Conceituação do Modelo Econômico e Social Cubano e que agora tem um apoio, digamos, legal, do Projeto de Constituição, que é a autonomia dos municípios. Se quisermos dar autonomia aos municípios é necessário que não haja uma estrutura provincial representante que limite o que alguém pode fazer como exercício no desenvolvimento local, a representatividade municipal, e por isso estamos propondo mudar e deixar em nível de província uma estrutura de coordenação do governo, uma coordenação administrativa, e que o representativo esteja no município.

Patricia Villegas.— Isto é, digamos, uma visão da administração do Estado, mas não necessariamente são as questões, digamos, que estão gerando mais debate na população cubana no novo projeto de Constituição.

Miguel M. Díaz-Canel.— Acho que as pessoas vão entendendo, tomando-o como uma necessidade, não veem isso como um retrocesso, pelo contrário. E, mais bem, o debate sobre estas questões em algum momento anda em torno de se a palavra governador ou prefeito é adequada ou não, tem a ver com razões históricas.

Patricia Villegas.— E em outra palavra, se o país vai continuar sendo comunista ou não continuará sendo comunista. A sociedade cubana renunciou a ser uma sociedade comunista?

Miguel M. Díaz-Canel.— Aqui acho que é necessário ligar elementos de convicção, elementos da filosofia e da ciência, elementos da teoria, não podemos negar, e elementos objetivos. Eu não quero entrar nisso, eu não sou um especialista nisso, mas naquilo que a gente estudou e no que a gente tenta argumentar, se atendemos ao marxismo clássico, o modo de produção ao que aspiramos é o do comunismo, portanto, o comunismo e o socialismo estão intimamente relacionados. Se você quer construir o socialismo é porque você quer alcançar o comunismo, e se você falar sobre a construção comunista está entendendo que tem que avançar rumo ao socialismo.

Patricia Villegas.— O senhor não entende isso como um abandono.

Miguel M. Díaz-Canel.— Eu não entendo isso como o fato de abandonar. Eu entendo que quaisquer uns dos dois termos implica o outro. Agora, se nós vamos ver isso no sentido de procurar uma Constituição que esteja mais perto do que é objetivamente possível hoje, estamos mais perto hoje e é o propósito imediato da construção socialista, que continua sendo uma construção complexa e ampla. Para aspirar ao comunismo teríamos que aspirar a uma construção que não depende de um único país, que depende de uma construção internacional, a construção de um mundo.

Mas olha — e, de fato, eu tenho a experiência de ter participado de várias reuniões de debate popular, quando fizemos as últimas visitas aos territórios — há muita sabedoria em nosso povo, há muita responsabilidade na forma como as pessoas têm tomado este debate, que para mim vem ratificar algo que um poeta amigo me confirmou: ‘Nenhum de nós sabe mais do que todos nós juntos’. E uma vez, em uma ocasião, ele me disse: ‘Não pode haver tantas pessoas erradas’.

Eu acho que o texto, que hoje é um bom texto, que as pessoas reconhecem que é uma boa Constituição, será reforçada quando sejam incluídos aspectos que já está fornecendo este debate popular, e a última palavra vai ser considerada, a partir de do que o povo proponha.

Patricia Villegas.— Na votação no mês de fevereiro. Mas também a gente pergunta: presidente, porque se a Revolução é ainda capaz de se verificar, em sua aspiração de construir a sociedade comunista ou socialista, não são examinadas outras questões também controversas, como por exemplo; a reitoria de um único Partido, neste caso o Partido Comunista. Por que isso não entra no debate? Ou é que entrou e nós não sabemos?

Miguel M. Díaz-Canel.— Patricia, aqui está uma coisa interessante, às vezes um pouco de brincadeira, que provoca o riso. Aqueles que estão mais preocupados em ver se vai ser socialismo ou comunismo não é o povo cubano, mas são aqueles que nos criticam e constrangem do exterior. Agora, existem pessoas que têm mais aspirações do comunismo ou do socialismo do que nós mesmos, quando toda a vida nos atacaram com isso, e isso demonstra os padrões duplos, a dupla moral que há, também, em certos momentos, quando se trata de se debruçar sobre a realidade cubana e não se levam em conta essas particularidades históricas.

Eu acho que todos os assuntos da Constituição estão em debate, alguns com maioria mais aceita; outros em que há uma minoria que não concorda, e outros em que o consenso é construído porque há uma diversidade de opiniões.

A questão do protagonismo do Partido Comunista em nossa sociedade, ao que não renunciamos e que é apoiado pela maioria do povo, tem a ver com fundamentos históricos e, às vezes, essa realidade cubana não é entendida, porque sempre se trata de ver a posição do Partido Comunista de Cuba na nossa sociedade como um partido eleitoral, e acontece que sob as condições de Cuba, o Partido não é eleitoral, tem a ver com raízes históricas. José Martí fundou o Partido Revolucionário Cubano, que é a base do que hoje é o Partido Comunista de Cuba, do ponto de vista histórico, não buscando um partido para as eleições. Martí procura um partido para enfrentar e desenvolver a revolução que vai dar independência e soberania ao país, com base na unidade; um partido que fosse totalmente aberto e democrático, para incluir os interesses da maioria em função da independência e da soberania e que não permitisse possibilidades de rupturas, que não permitisse possibilidades para a desunião.

O tema da unidade, a unidade necessária, é muito marcante em nossa história. Quando alguém examina nossa história, quando tivemos lacunas na unidade, quando a unidade foi quebrada, tivemos os contratempos, sofremos os contratempos. A Primeira Guerra da Independência, que foi a Guerra dos Dez anos, uma longa guerra, da qual vamos comemorar seu início em outubro, o 150º aniversário do seu início. No centenário do início daquela guerra, Fidel definiu algo que é extremamente importante: a Revolução em Cuba foi uma só. É por isso que o elemento de continuidade é bem conceituado, e essa guerra não só marcou o início das guerras de independência, mas marcou o início das lutas do povo cubano, e tem sido uma luta única em todos esses anos.

Essa luta, essa Guerra dos Dez Anos, que foi uma guerra longa e heróica, não terminou com uma vitória precisamente por causa da desunião que existiu no fim e terminou com um pacto com a Espanha.

Então, foi necessário fazer mais uma campanha pela independência, e uma guerra que foi chamada de Guerra Pequena, que não se tornou uma grande guerra também por causa da desunião.

Depois de um movimento de independência como o de 1895, onde já estava o conceito do pensamento político de José Martí, com a participação do Partido Revolucionário Cubano como o eixo, como o guia dessa guerra, terminou com a intervenção dos EUA, com uma pseudo-república, precisamente pela falta de unidade. Em meio à pseudo-república gerou-se um movimento revolucionário, progressista, com profundas convicções, que reuniu o melhor da intelectualidade e da juventude cubana, na década de 30, que ficou conhecida como a Revolução de 33, e existe um provérbio popular daqueles tempos que diz: A Revolução de 33 foi por água abaixo! Bem, ela foi por água abaixo porque a unidade também faltou.

A Revolução triunfou com a convergência de forças diferentes, Fidel unificou essas forças, conduziu-as durante um processo longo, nos primeiros anos da revolução, até chegar à unidade dentro do Partido Comunista de Cuba e o Partido Comunista de Cuba, então, não é um partido de eleições, é um partido da Revolução, é um partido do povo, é um partido para alcançar a unidade.

Estou convencido de que o inimigo da Revolução Cubana sabe que sua principal aposta em derrotar a Revolução tem que ser fragmentar nossa unidade e nesse sentido direciona suas principais propostas de subversão. E para onde elas estão indo, em direção a qual setor da população, fundamentalmente? Para os jovens Por quê? Porque hoje temos uma geração em que há uma diferença temporária de mais de 60 anos já com o momento histórico em que a Revolução triunfa. Portanto, é uma geração que já assumiu as conquistas da Revolução como direitos.

Patricia Villegas.— Percebe esses direitos como algo natural.

Miguel M. Díaz-Canel.— Ela os vê como muito naturais, essa geração não viveu os primeiros anos da Revolução; isto é, a minha geração é uma geração que viveu os primeiros anos da Revolução, viu a dureza daqueles anos, viu como o país progrediu com a política da Revolução, como tivemos, digamos, uma etapa muito estável nos anos 80, e então, após o colapso do socialismo, caímos no ‘período especial’. Mas a atual geração de jovens, nossos filhos, nossos netos nasceram em um ‘período especial’ e viveram o ‘período especial’. Nós temos que fazer com que essa separação...

Patricia Villegas.— E essa geração, presidente, não está apenas aspirando a uma maior diversidade, a outros partidos políticos, a outras mídias, a outras ofertas eleitorais, a se comunicar e a se ligar à globalidade?

Miguel M. Díaz-Canel.— Essa geração tem muitas aspirações, tem muitas aspirações, com especial incidência em que o país se desenvolva mais rápido, porque é uma geração que foi educada pela Revolução, que teve o benefício da educação geral e formação universitária, que tem sido capaz de assumir a cultura; isto é, é uma geração, eu digo, culta, educada e, portanto, tem aspirações, é uma geração ativa, é uma geração que participa. Acho que a principal aspiração de esta geração não é ser contra o Partido e contra a Revolução, e uma parte importante, a maior parte dessa geração é capaz de se identificar com a Revolução e o Partido, e essa não é sua emissão; seu tema é que haja mais progresso, que os processos de progresso sejam acelerados; seu tema é assumir e levar em conta como participar, como contribuir mais. Ela também tem aspirações de desenvolvimento tecnológico, tem aspirações sobre o desenvolvimento da informatização. É uma geração muito aguda para a comunicação social e para a maneira como nós...

Patricia Villegas.— Você não aspiraria a mais? Eu disse isso nesse sentido, presidente.

Miguel M. Díaz-Canel.— É uma geração que também tem elementos de diversidade, mas é uma geração que está ciente de que pode perder todo o benefício que lhe deu a Revolução caso perdêssemos a unidade. Portanto, é uma geração que tem força, é uma geração que não quer divisões, é uma geração que não dá proteção a quem queira romper com a Revolução e é uma geração que não é anexionista, é uma geração que defende a independência, que defende a soberania e quer consolidá-la, e acredito que é uma geração que dará continuidade à Revolução.

Patricia Villegas.— Entre as muitas questões que traria a nova Constituição cubana, há duas que também geram contradições, controvérsias, sobre o qual se fala muito do lado de fora, há muitas manchetes e uma delas tem a ver com o limite da propriedade e o limite da riqueza. Qual é a posição do senhor perante isso?

Miguel M. Díaz-Canel.— Eu não quero prejudicar o debate que estamos fazendo em nível das bases com uma visão particular; ainda mais porque eu sou parte da Comissão, chefiada pelo general-de-exército, que foi responsabilizado pela Assembleia Nacional para elaborar o Projeto de Constituição; portanto, eu concordo com tudo o que está naquele Projeto, como eu também digo que concordo, estou aberto a tudo o que pudermos melhorar nesse Projeto de Constituição, assim que incorporarmos o que que o povo está contribuindo.

Agora, por exemplo — e isto está intimamente relacionado com as coisas que falei anteriormente — na juventude e também no resto do povo há uma pressão muito importante para defender os conceitos de justiça social e igualdade que a Revolução construiu. Portanto, às pessoas, legitimamente — acho que é uma posição legítima — estão muito preocupadas que haja concentração da propriedade e que haja concentração da riqueza.

Patricia Villegas.— Existe alguma em Cuba? Isso aconteceu com a implementação do Modelo Econômico?

Miguel M. Díaz-Canel.— Aqui acredito que não há um espaço favorável para que haja concentração da propriedade e da riqueza, a partir das coisas que temos normalizadas e estabelecidas e da maneira em que nós funcionamos. Acontece é que, em meio da situação econômica que temos, onde o salário perdeu um pouco seu papel, onde temos relações salários-preços que são complexas — e tudo isso também os faz retornar ao assunto, entre outras coisas, do bloqueio — onde há pessoas que recebem renda certa, não necessariamente associada com o trabalho, que para nós é um aspecto enobrecedor e é a principal via pela qual os indivíduos diferem, dependendo da contribuição e dependendo da quantidade então seja o que eles recebem, então o povo, com toda aquela vocação, com toda aquela legítima aspiração, está defendendo que não haja concentração de propriedade e que não haja concentração da riqueza.

O que acontece? Que, em um artigo, é explicitamente declarado que a concentração de propriedade não será permitida, e quando este artigo foi escrito, sempre concebemos que, não deixando concentrar a propriedade, não concentramos a riqueza. Ou seja, tínhamos os mecanismos para que na lei que mais tarde apoiaria a Constituição nesse aspecto ter o controle da propriedade e da riqueza.

No debate popular as pessoas não estão dizendo para removermos o artigo, as pessoas estão dizendo que devemos enfatizar que não haja concentração da propriedade e que seja acrescentado, explicitamente, que não haja concentração da riqueza.

Eu sempre digo que no debate da Constituição não só as pessoas estão contribuindo com elementos para o texto, mas as pessoas estão nos dando elementos que devemos levar em conta mais tarde sobre como vamos implementar a Constituição com as leis. Teremos que fazer um amplo exercício legislativo — para o qual já estamos nos preparando — para redigir e apresentar para aprovação as leis que devem apoiar a Constituição, de forma que não haja lacunas legais.

Então, aqui estamos no debate, e entendendo o que as pessoas estão dizendo, o que é aquilo que tem que estar em um texto constitucional, que é uma lei, digamos, do mínimo, ou seja, são as mais altas aspirações, mas expressas no mínimo, para que as outras coisas estejam mais amplas nas leis e nos procedimentos que apoiam as leis.

Eu acho que no final, onde a discussão está indo... Claro, a discussão na qual estamos há um mês mais ou menos, ainda está faltando a contribuição de setores muito importantes, como o setor estudantil, o setor juvenil, o setor acadêmico, o setor científico, porque agora já começou o ano letivo; mas acredito que isso, sem dúvida, é um artigo em que teremos que parar e encontrar as formulações.

Porque, olha, este não é um artigo no qual temos contradição no conteúdo, ou seja, todos concordam, ou a maioria concorda que é preciso limitar a concentração da propriedade e da riqueza; a discussão está no nível do que deveria estar na Constituição e o que deveria estar nas leis e nos procedimentos. E lá, como em tudo, eu acho que o debate e a sabedoria popular são aqueles que dirão a última palavra.

Patricia Villegas.— Presidente, acaso o senhor imaginou a reação dos setores conservadores em Cuba, sobre o assunto de que apareça na nova Constituição o reconhecimento com direitos civis os casamentos ou uniões civis de pessoas do mesmo sexo?

Miguel M. Díaz-Canel.— Este é um debate que foi se estabelecendo muito nos últimos anos, porque o país tem vindo a mudar; as concepções também estão mudando, o país evolui, nós não estamos em uma bolha de cristal e, além disso, estamos vivendo realidades. A própria vontade de emancipação da Revolução também abre perspectivas de pensamento. Há uma vocação humanista no sentido do desempenho da Revolução e, portanto, eu diria que houve uma tremenda evolução no pensamento, ao longo dos anos, quebraram-se muitos tabus que foram previamente coisas muito estabelecidas, e eu acho que há uma massa jovem que empurra muito isso, porque percebe de uma maneira diferente certos problemas sociais.

Olha, eu disse a você um pouco antes que com estes critérios que eu estou dando em itens específicos não quero que o debate esteja marcado por preconceitos, porque, além do mais...

Patricia Villegas.— Não, mas as igrejas deram a sua opinião publicamente sobre esse artigo. É válido saber o que o presidente pensa.

Miguel M. Díaz-Canel.— A gente tem suas ideias, a gente tem suas convicções, mas também estou aberto à contribuição que possa fazer o diálogo popular, porque nós não estamos fazendo isto com um exercício artístico de construir um palco teatral de ficção; fizemos isso por convicção, porque na história da Revolução, cada vez que submetemos alguma coisa ao debate popular, temos fortalecido a ação revolucionária.

Patricia Villegas.— O senhor concorda?

Miguel M. Díaz-Canel.— Eu concordo. Eu acho que, acima de tudo, a abordagem de reconhecer o casamento entre pessoas, sem limitações, responde a um problema de eliminar todas as formas de discriminação na sociedade, não deixar espaço para qualquer tipo de discriminação na sociedade.

O que acontece? Que com essa decisão algumas pessoas veem outros itens em torno a reconhecer essa tal união: algumas, em primeiro lugar, defendem a questão de um ponto de vista semântico, do ponto de vista original; que se a palavra casamento vem de matriz e se matriz vem de mãe, e é um conceito que para algumas pessoas é muito válido e é respeitado; outros, então, vêem preocupações acerca de elementos que seriam associados depois a adoção de filhos, responsabilidade desse casal, responsabilidade familiar.

Patricia Villegas.— E direitos civis.

Miguel M. Díaz-Canel.— E direitos civis.

Há outras posições que marcam alguns elementos da cultura às pessoas, o pensamento das pessoas, típico da tradição. E, eu diria, com essa honestidade, então as diferentes posições estão vindo à tona.

Na última hipótese, eu sou a favor de que não haja nenhum tipo de discriminação que,às vezes, é um dos tipos de discriminação que, por vezes foram não estabelecidos por lei ou qualquer coisa, mas têm estado na conduta da nossa sociedade, embora se avançasse muito nestes tempos e haja pessoas e instituições que tenham desempenhado um papel fundamental em que se abrissem estes horizontes, em relação à compreensão destes problemas sociais, que são problemas no mundo da concepção humanista.

Mas eu lhes digo que a última palavra será dada pelo debate popular e pela sabedoria com a qual nosso povo construa o consenso adequado sobre esse aspecto.

Patricia Villegas.— A contrarrevolução convoca para votar contra o projeto constitucional.

Miguel M. Díaz-Canel.— Sim! E eu faço um apelo no sentido de que a opinião em um exercício cidadão tão responsável como este, a opinião que alguém possa ter mais favorável em um artigo ou outro, não possa tirar-nos a responsabilidade que como um todo da Constituição devemos assumir, porque se você convocar ao diálogo, o diálogo é entre várias, pelo menos duas pessoas, portanto é preciso dizer: tenho minhas ideias, mas há outras que podem dar outras ideias; mas no final eu me subordino ao que o país esteja precisando, ao que se queira construir no país, e não por uma imposição, teimosia ou arrogância dizer: Não, caso não incluírem isto, que é um elemento que nem é o mais importante, eu não votarei a favor da Constituição, ou condenarei a aprovação da Constituição a apenas uma posição. Penso que nós todos temos de rever os erros que nos cabem, como cidadãos responsáveis, além disso, quando tivemos a possibilidade de dar toda a nossa opinião.

Patricia Villegas.— O senhor está confiante de que a nova Constituição será votada positivamente no mês de fevereiro?

Miguel M. Díaz-Canel.— Eu acho que a maioria vai aprová-la, porque o debate não é uma convicção imposta, o debate está levando a isso.

Você me falava da contrarrevolução. Lembrem que a contrarrevolução cubana, essa minoria que é contra a Revolução em Cuba, não responde a um projeto nacional, não responde ao desejo de melhorar o país, a partir de uma posição de soberania e independência; essa contrarrevolução é, antes de tudo, anexionista, é um enxame anexionista; essa contrarrevolução é paga e financiada pelo governo dos EUA, sob formas mais encobertas ou mais descobertas e tem muito pouco..., mas pode participar, pode estar lá nas assembleias, são moradores como todos os outros, embora muitos prefiram estar fora de Cuba e não são reconhecidos, não têm apoio social. Geralmente, quando expressam uma ideia ofensiva contra o povo, contra a Revolução, as pessoas dão opiniões contrárias a essas posições.

Eu participei de seis reuniões de discussão. Uma parte da imprensa estrangeira, que sempre é muito incisiva para a realidade cubana, quando informamos do projeto constitucional começou a espalhar a idéia de que, em Cuba, especialmente em pessoas jovens, existia apatia pela Constituição, que as pessoas não estavam interessadas.

Agora o que você vê? Fizemos três edições do tabloide da reforma constitucional e está esgotado. Inclusive, fomos a lugares que estão mais longe, talvez em comunidades e montanhas e as pessoas pedem para que se façam mais tabloides.

Você participa dessas assembleias e todo mundo tem o tabloide, as pessoas com rabiscos, no melhor sentido, isto é, os símbolos ou sinais que alguém faz.

Patricia Villegas.— Com o texto estudado.

Miguel M. Díaz-Canel.— O texto estudado, sublinhado; há outros, como eu tive que fazer, que com um pensamento de engenharia, cada coisa para procurar interrelações faz diagramas de blocos. E as pessoas participam de maneira muito agradável, muito séria, muito comprometida nesse debate.

Eu digo: se alguém não se importa com isso, se alguém é apático a isso, para que quer o tabloide, para que a maioria das pessoas...?

Patricia Villegas.— O senhor acha que na verdade é um debate estrutural hoje na sociedade cubana.

Miguel M. Díaz-Canel.— Sim!

Outro elemento do debate: muitas pessoas, especialmente os mais velhos, pensam que a Constituição é importante não só para hoje no país, mas para o futuro e também estão muito preocupados com a forma como a Constituição dá o espaço que precisa a juventude cubana, e que mostra que há um compromisso com a continuidade; e, por outro lado, como os jovens participam. Os jovens trazem ideias interessantes, mas também, em muitas assembléias, vimos que uma das primeiras intervenções é um jovem que expressa mais do que está dizendo o texto da Constituição, expressa seu apoio à Constituição, a partir da posição da juventude.

Patricia Villegas.— Vamos ver o que acontece com isso, presidente, no mês de fevereiro, que é quando as pessoas irão votar, certo?

Miguel M. Díaz-Canel.— É claro.

Patricia, eu trago uma anedota, porque eu fiz isso com um elemento de atuação sincera, sem tentar impor nada em nenhuma assembleia e isso teve logo certo impacto, digamos positivo, nas pessoas. Estou em um local de trabalho, há um companheiro que propõe uma inclusão, ele queria expandir um artigo e no final eu, para que não houvesse confusão porque, aliás, foi respeitado seu critério, é claro, eu lhe disse: "Olha, a única coisa peço que você observe que há um outro artigo posterior onde se fala disso, que eu acho que está incluído o que você estava propondo, ele tem todo o direito, para que tenha em conta, se for deixado em outro artigo, se você acha que deveria era incluído neste, ou se você mantiver ambos, como você acredite; mas digo só para alertar, isto é, para que você perceba ou observe que está de alguma forma incluído”. Ele reviu o tabloide e de repente disse: «Com o que o presidente disse, eu concordo e retiro minha declaração». Eu disse: «Não, não a retire»; mas eu fiz isso por convicção, porque é assim que estamos construindo esse debate. «Proponha-o, porque o fato de ter uma dúvida ou fazer-nos alertar sobre uma coisa levará a também pensar se as coisas têm de estarem presentes em mais de um artigo, se é preciso ponderá-los aqui ou ali».

Então no dia seguinte — eu sempre verifico, de manhã, o site Cubadebate, especialmente, além de outros meios, mas clico no Cubadebate, especialmente os comentários — uma operária desse local de trabalho tinha escrito: «Que grande exercício de democracia está vivendo meu país, quando um trabalhador propõe uma coisa, um presidente dá uma resposta, o trabalhador quer retirar a proposta e o presidente diz não». Olha, eu não estou fazendo isso como um elemento pessoal, porque eu não sou aquele que age assim, é assim que todo o nosso pessoal age; mas é criada uma atmosfera de discussão honesta, franca, respeitosa e eu acho que também isso nos leva a este consenso que, por vezes, alguém que não conhece a realidade cubana não explica por que a Revolução, em meio a muitas dificuldades, mantém o apoio da maioria e mantém esse consenso político, que continua sendo um desafio do futuro.

Patricia Villegas.— Presidente, em grande parte do nosso diálogo parei para falar da realidade interior e os debates internos, porque tanto dentro como fora de Cuba há uma enorme expectativa, intriga, preocupação com o destino da Revolução; mas, claro, o destino da Revolução tem muito a ver com suas relações internacionais.

Há também muita expectativa com sua participação na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas neste mês, que você pise o território dos EUA. As relações tão estruturais entre Cuba e os Estados Unidos haviam mudado, estavam se transformando com o governo Obama; mas a chegada de Trump modificou a situação, o relacionamento. Quanto modificou isso? Qual é o estado atual desses relacionamentos?

Miguel M. Díaz-Canel.— O próprio Fidel dizia que na história estavam contidas as respostas aos nossos desafios, a nossa realidade.

Olha, eu acho que desde o início da Revolução cubana foi aberta uma possibilidade de diálogo com o governo dos Estados Unidos, e nós temos sempre definimos muito bem ou foi estabelecido pelo próprio Fidel e o povo assumiu isso, que nosso problema não é com o povo norte-americano. Nós respeitamos, admiramos e queremos o povo norte-americano, tal como amamos os povos latino-americanos. Nosso conflito, as nossas diferenças não são com o povo norte-americano, são precisamente com os governos norte-americanos pela forma como eles agiram em relação à Revolução.

Em 1959, no primeiro ano da revolução, quando Fidel fez sua primeira visita aos Estados Unidos, já depois do triunfo da Revolução, foi com uma vontade de diálogo com o governo dos Estados Unidos; mas o governo dos Estados Unidos imediatamente após o triunfo da Revolução negou esse diálogo e o negou das formas mais nefastas, negou-o inclusive aprovando uma invasão a Cuba, que foi um fracasso e que logo foi definida pela história como a primeira grande derrota do imperialismo na América Latina.

O que acontece é que o diálogo é construído entre dois ou mais, portanto, o diálogo também tem suas regras. Não se pode aspirar a um diálogo entre desiguais; não se pode aspirar a um diálogo onde por um lado haja prepotência, hegemonismo, pressões; não se pode aspirar a um diálogo em que uma parte imponha condições à outra, que tenha que abrir mão da sua soberania, que você tenha que desistir de sua independência; não se pode estabelecer um diálogo quando uma das partes exige que você se submeta aos seus desejos.

Patricia Villegas.— E essas são as exigências de Trump?

Miguel M. Díaz-Canel.— E estas são as exigências que ao longo dos anos têm estado presentes na prática da política norte-americana.

Quando foi aberto um espaço diferente? Bem, na última etapa do governo do presidente Obama e através de um longo processo de negociações e diálogos, eu diria que foi um diálogo respeitoso, abriu-se um espaço para restaurar as relações. Um processo que sempre achamos que devia ser longo, porque a forma em que se agiu criou muita desconfiança.

Além disso, fomos a um processo de iniciação de restabelecer as relações ainda com o bloqueio presente; o bloqueio existe apesar de que as relações tenham sido restauradas.

Patricia Villegas.— Mas Cuba teve expectativas de maior investimento dos EUA na Ilha.

Miguel M. Díaz-Canel.— Eu te direi. Naquele momento restauramos as relações e começamos a avançar em direção a um processo, que sabíamos que seria a etapa mais longa desta restauração das relações, de normalização e essa normalização, portanto, tinha que conduzir, em primeiro lugar, a outras coisas, à eliminação do bloqueio.

Nessa primeira etapa da restauração das relações houve avanços e conseguimos trocar, conversar, manter contactos sistemáticos em um grupo de assuntos com o governo dos Estados Unidos. As embaixadas foram abertas em ambos os países e começamos a nos mover em algo que Raul definiu muito magistralmente, a meu ver, em que poderíamos ter um relacionamento civilizado, independentemente das diferenças ideológicas. E essas diferenças ideológicas sabemos que não ser salvas, pois nós temos posições ideológicas completamente opostas às que defende o governo dos Estados Unidos; mas fomos capazes de conversar, pudemos colaborar em vários tópicos.

Por outro lado, existe um importante setor empresarial nos Estados Unidos que quer relações com Cuba e quer ter investimentos em Cuba. Há um setor agrícola importante nos Estados Unidos que quer esse tipo de relação com Cuba. Há um importante setor acadêmico e científico que quer relações com Cuba e, de fato, há certas trocas.

Patricia Villegas.— Mas qual o peso desses setores para desequilibrar a posição do governo Trump contra Cuba?

Miguel M. Díaz-Canel.— Aquele que tem o poder de desaprovar a prática de bloquear Cuba é o Congresso dos Estados Unidos, nem mesmo o presidente.

É claro que Obama tinha uma posição muito mais aberta e muito mais conciliadora em relação a essa questão do que o atual presidente dos Estados Unidos.

O que o atual presidente dos Estados Unidos fez quando estávamos progredindo nesse relacionamento? Bem, em novembro passado ditou medidas totalmente inaceitáveis ​​na relação com Cuba. Ele ditou estas medidas, em nossa opinião, para manter a boa aparência, para assumir determinados compromissos com uma máfia anticubana que vive, especialmente, em Miami e todos nós sabemos o que tem sido a sua posição histórica em torno de nossa Revolução. Mas as medidas propostas por Trump em novembro vão contra o que a maioria do povo norte-americano pensa.

Em pesquisas recentes feitas nos Estados Unidos sobre sua posição em relação a Cuba e sobre a relação com o bloqueio, a maioria das pessoas é contra o bloqueio. Vai contra as possibilidades dos cidadãos norte-americanos, limita os cidadãos norte-americanos, limita-os nas visitas a Cuba. Os cidadãos norte-americanos são alertados, quando vão para visitar Cuba, que não devem vir a este país, eles fazem histórias sobre nosso país que impõem obstáculos a essas viagens. Impõe-se limites aos empresários norte-americanos e a pessoas para investirem ou para terem relações comerciais ou financeiras com uma lista de empresas cubanas que eles anunciaram; limita os cidadãos norte-americanos a visitar o país; limita as famílias cubanas a se redescobrirem.

Patricia Villegas.— E a perspectiva é que isso possa mudar, presidente? Vamos dizer, na era Trump não poderemos viver novamente uma aproximação ou normalização?

Miguel M. Díaz-Canel.— Bem, também limita os cubanos para que possam ir aos Estados Unidos. A presença do pessoal cubano em nossa embaixada era limitada, limitaram o pessoal norte-americano na embaixada.

Patricia Villegas.— Vocês são acusados ​​de ataques sonoros. Vocês lançaram ataques sonoros contra os norte-americanos?

Miguel M. Díaz-Canel.— Vamos nos referir a tudo isso. Eles incluíram alguns procedimentos de vistos que devem ser feitos em países terceiros, que complicam tudo e dificultam. Lançaram mão novamente das ameaças, a imposição e em meio disso, criaram uma falácia toda uma história com alegados incidentes acústicos, que eles chamaram, mesmo pejorativamente, como ataques acústicos, um termo com o qual nós discordamos porque não atacamos ninguém, nem aqui foram violados os direitos de qualquer diplomata. Eu penso que, se em um lugar são respeitados e protegidos os direitos dos cidadãos estrangeiros e dos diplomatas particulares é em Cuba.

Eles foram escalando, começaram com uma história e os cientistas cubanos e cientistas norte-americanos desfizeram essa história.

Patricia Villegas.— O seu governo pediu ajuda aos russos para atacar os diplomatas norte-americanos?

Miguel M. Díaz-Canel.— Isso é impossível. Nós temos muita ética para pedir a alguém para atacar outro. Nós não começamos a partir de uma expressão de ataque. Nós, acima de tudo, nos defendemos contra ataques. Nós fomos muito atacados.

Nós fomos vítimas de ataques terroristas. Nós fomos vítimas do bloqueio que é um ataque. Fomos vítimas de campanhas difamatórias sobre Cuba. Nossos principais líderes tentaram aniquilá-los com ataques terroristas. Cuba não ataca, Cuba defende, Cuba compartilha, Cuba é solidária, Cuba tem vocação para contribuir para que um mundo melhor seja possível. Sem dúvida, temos que reconhecê-lo: as relações hoje estão em recuo.

Ainda temos canais de diálogo e qual é a nossa posição? E acho isso muito interessante. Não negamos em nenhum momento as possibilidades de diálogo. Queremos um diálogo, mas tem que ser um diálogo entre iguais, deve ser um diálogo em que sejamos respeitados, e deve ser um diálogo onde nossa soberania, nossa independência e nossas relações com os países amigos do mundo não estejam condicionadas, porque nós não aceitamos imposições e não estamos dispostos a fazer qualquer concessão de princípios, muito menos nas relações com os Estados Unidos.

Patricia Villegas.— Sua perspectiva, então, é que não haverá comunicação direta com Donald Trump.

Miguel M. Díaz-Canel.— Se esta atitude aberrante do governo dos Estados Unidos em relação a Cuba permanecer, não haverá nenhum diálogo. Porque, além disso, o diálogo deve ser visto de ambos os lados. Devemos perguntar-lhes se querem manter este diálogo conosco. Devemos perguntar ao presidente dos Estados Unidos se quer diálogo com Cuba, e se ele quer diálogo com Cuba não pode ser a partir de uma posição dominante.

Patricia Villegas.— Presidente, vou demorar alguns minutos mais neste diálogo, porque há questões estruturais que eu acho que vale a pena.

A relação de Cuba com a Venezuela: Cuba foi um dos países que mais rápido falou sobre a tentativa de assassinato contra o presidente Maduro, qual é a visão que o senhor tem do que vem para a Venezuela, depois desta agressão ao próprio presidente?

Miguel M. Dáaz-Canel.— Vamos ver, você sabe muito bem, nós amamos a Venezuela e eu acho que cada vez que alguém faz uma análise da situação da Venezuela e as perspectivas de sua situação, o primeiro sentimento que vem ã tona em nós, além do amor pela Venezuela, por seu povo, por sua história, por seus líderes, é também o reconhecimento e a admiração por aquilo que fez a Venezuela.

Venezuela, em primeiro lugar, com Chávez mudou a tradição dependente de um país que está destinado a desempenhar um papel importante na América Latina, por ser um país com uma riqueza natural e recursos tremendos, e por sua história, e Chávez, então, abriu os horizontes de uma nova Venezuela.

Chávez, com sua amizade com Fidel, com a sua relação com Fidel, que também para os cubanos foi também uma relação única, e não debalde, para Fidel e as pessoas pensam assim, Chávez foi o melhor amigo, e foram capazes de transcender, não só para um projeto da Venezuela ou para um projeto de Cuba, mas para um projeto de integração latino-americana, que se manifestou em várias áreas: na Celac, no âmbito da Unasul, no âmbito da ALBA.

Patricia Villegas.— Esses mecanismos estão mortalmente feridos, presidente?

Miguel M. Díaz-Canel.— Patricia, você me pergunta mais rápido do que eu posso responder. Mas não, isso faz a gente estar ativa, é uma piada, você é muito profissional no seu trabalho.

Patricia Villegas.— Muito obrigada, presidente.

Miguel M. Díaz-Canel.— Então, vamos comparar a Venezuela antes de Chávez e a Venezuela com Chávez. Eu acho que o povo bolivariano, o povo venezuelano tem recebido uma série de benefícios de conquistas no qual também é um participante nesses ganhos, e essas conquistas, imediatamente, foram transferidas, foram compartilhadas com os outros países da América Latina, nesses mecanismos de integração, que também assumem metas e desafios, como os que você me perguntava.

Os Estados Unidos sempre tentaram, por todos os meios, derrubar o governo de Chávez, usando até mesmo as práticas mais perversas.

Lembre-se que tentaram dar um golpe de estado a Chávez; tentaram assassiná-lo, Chávez sobreviveu a esse golpe de Estado e Chávez continuou sendo um líder muito importante para a Venezuela, para a América Latina e para o mundo.

Chávez foi um líder legitimamente eleito como presidente em diversos processos eleitorais, reconhecidos pela comunidade internacional como processos muito honestos e muito limpos.

Chávez morreu e Maduro vem, um presidente dos trabalhadores. O que o imperialismo pensa? Que o presidente operário não vai suportar as pressões, que o presidente operário não seria capaz de manter a continuidade do legado de Chávez e deram com a porta na cara. Acho que Maduro também é um líder consistente, com um enorme compromisso com o legado de Chávez. Agora a gente analisa isso nestes dias e acaba percebendo que Chávez não estava errado quando propôs Maduro. E Maduro, a união cívica-militar, o governo venezuelano, a Revolução Bolivariana, o povo que foi agredido, eu diria que, na mais alta expressão da guerra não convencional, usando adequadamente as campanhas na mídia, de difamação, alienantes, espalhando a desconfiança, pagando sujeitos para que apliquem a violência e buscando a violência na sociedade venezuelana para desestabilizar, também recorrendo a bloqueios, embora não seja mostrado, existe um bloqueio contra a Venezuela, existe um bloqueio econômico contra a Venezuela, um bloqueio financeiro contra a Venezuela.

Há uma oligarquia venezuelana e a direita que não querem continuar partilhando com o povo os benefícios destas conquistas. O que fez Maduro, o que o Governo tem feito e o que tem feito a união cívica-militar? Eles resistiram todos os ataques.

Patricia Villegas.— E vai resistir, vai resistir.

Miguel M. Díaz-Canel.— Vão resistir e vão ganhar, e eu acho que estão resistindo e também estão vencendo, e foram consistentemente capazes de achar perspectivas para contornar os obstáculos. E eu acho que isso, em primeiro lugar, deixou sem hipóteses a direita venezuelana, que agora não tem escolha. Deixou sem resposta a oligarquia venezuelana e também deixou sem resposta o governo dos Estados Unidos ao assumir sua posição em relação à Venezuela. E que demonstra isso? A tentativa de atentado, a tentativa de assassinar Maduro. Se for analisado esse fato, a gente diz: aqui estão presentes estas duas coisas: Primeiro, querer fazer esse homicídio é a expressão da impotência perante o triunfo da Revolução Bolivariana e, por outro lado, o silêncio diante do crime demonstra que existe uma cumplicidade.

Patricia Villegas.— O que poderá esperar o país depois de uma tentativa de assassinato.

Miguel M. Díaz-Canel.— Acho que eles vão tentar continuar fazendo pressão, vão intensificar o constrangimento, vão procurar rupturas na América Latina para que outros países se juntem a essas pressões; irão impor condições aos países latino-americanos, e nós sabemos que tem havido visitas de pessoas que ocupam cargos importantes no governo da administração Trump à América Latina, a fim de pressionar os povos da América Latina e do Caribe e buscando uma posição contra a Venezuela; acontece é que o povos latino-americanos são dignos, e muitos governos dignos, a maioria deles, reconhecem tudo aquilo que fez a Venezuela e reconhecem o papel da Venezuela.

E, então, também, — e isto tem a ver com outra das perguntas que você me fez — tentaram desunir, de fraturar a unidade dos mecanismos de integração.

Patricia Villegas.— O Equador está saindo da ALBA, Colômbia deixa a Unasul. Por isso eu lhe perguntei, presidente, no contexto, porque, obviamente, a Venezuela tem sido referência nestes mecanismos de integração, se esses mecanismos estão mortalmente feridos.

Miguel M. Díaz-Canel.— Tudo isso que está acontecendo, Patricia, na minha opinião, é a manifestação de um plataforma de restauração capitalista, colonial, neocolonial, de restauração neoliberal, que o governo dos EUA está tentando impor para todos na América Latina, porque não aceitou caladamente as conquistas dos povos latino-americanos, em uma década onde ganharam impulso um grupo de processos sociais e de processos revolucionários.

Patricia Villegas.— Que não se reforçaram o suficiente, presidente?

Miguel M. Díaz-Canel.— Acho que eles enfraqueceram. Os processos revolucionários também têm complexidades, especialmente quando se trata de mudar a base econômica do capitalismo nas circunstâncias atuais. Os norte-americanos não querem que Cuba seja repetida em qualquer lugar da América Latina. Deve lembrar-se que nos primeiros anos a oligarquia cubana foi para os Estados Unidos e fez sua guerra suja a partir dos Estados Unidos. Na Venezuela, a oligarquia e a contrarrevolução estão no próprio país, encorajadas e apoiadas, de todos os pontos de vista, pela administração dos EUA.

Agora, que está acontecendo? O que significou o ALBA-TCP? Eu diria que nenhum processo de integração, de qualquer tipo, em nível regional em tão pouco tempo teve mais sucessos do que a ALBA. Lembre-se que, com a ALBA, imediatamente, em poucos anos, quatro países conseguiram eliminar o analfabetismo com um método que, modestamente, fornecemos os cubanos, que é o método ‘Sim, eu posso’. E eu diria: o que foi alcançado com a ALBA em quatro países ainda é a quimera de muitos povos e países do mundo.

Eu sempre penso: Cuba, quando a Revolução triunfou, nos primeiros anos declarou seu território livre de analfabetismo. Levou mais de 50 anos para que outros países da América Latina se libertassem das consequências do analfabetismo. E como foi alcançado? Com integração, colaboração, cooperação, mas uma parceria de solidariedade. Essa solidariedade que queremos que permita mudar a maneira como o mundo hoje é globalizado, não queremos a globalização hegemônica, queremos a globalização solidária, essa globalização solidária permitiu isso.

Patricia Villegas.— Mas se isso é tão bom, presidente, por que o Equador deixou a ALBA e por que a Colômbia deixou a Unasul?

Miguel M. Díaz-Canel.— Essa expressão de solidariedade que queremos para a globalização fez com que no seio da ALBA-TCP milhões de pessoas, de maneira gratuita, conseguissem melhorar sua visão. E eu diria: Que injustiça, condenar uma pessoa por uma catarata que ela não possa ver em sua vida toda, quando isso hoje é uma operação que é feita em minutos! Assim, avançou-se nos programas de saúde, nos programas de educação, nos programas sociais.

Petrocaribe é uma plataforma de energia para dar sustentabilidade e segurança energética para os povos do Caribe, com uma posição altamente altruísta da Venezuela para compartilhar um dos recursos que no mundo está causando guerras que ninguém apoia e para unos se apropriarem dos recursos dos outros são travadas as guerras. A Venezuela compartilha esse recurso com a comunidade caribenha. Então, a ALBA-TCP tem muitos valores, desde a sua fundação, para que sejam quebrados e eu acho que há muitos que estão comprometidos para que a ALBA-TCP se mantenha.

Patricia Villegas.— Mesmo com a saída do Equador?

Miguel M. Díaz-Canel.— Mesmo com a saída do Equador.

Patricia Villegas.— O mesmo com a Unasul, presidente?

Miguel M. Díaz-Canel.— O mesmo com a Unasul. Acredito que as rupturas que foram provocadas fazem parte dessa estratégia para o restabelecimento do neocolonialismo. Aqueles que não estejam à altura deste momento irão se submeter ao império e vão receber as consequências de se submeter ao império. Aqueles que defendem por convicção a integração latino-americana e do Caribe, a unidade latino-americana e do Caribe, conscientes de que podemos ser a região onde se possa morar com mais paz, com mais prosperidade no mundo, a história vai dar a razão. Será preciso assistir à passagem da história, e eu acho que já ficou demonstrado, já é uma verdadeira construção os benefícios que tem este tipo de colaboração, este tipo de solidariedade que não sai de nenhum egoísmo, que não faz parte de banalidades, mas parte de vocações muito humanistas.

A Celac mostrou que é possível a unidade na diversidade, e a Celac, a partir dessa posição de unidade na diversidade foi capaz de construir uma Proclamação de Paz para a América Latina e o Caribe, que agora está ameaçada quando há países que querem estabelecer bases militares dos EUA em seu solo, quando há alguns que tentam provocar situações complexas, a partir das fronteiras, para a Revolução Bolivariana. Mas acho que vamos superar tudo isso na história.

Houve uma reflexão muito importante sobre estas questões da esquerda latino-americana em uma edição do Foro de São Paulo que foi realizada em Cuba, em julho passado. Eu acredito que a esquerda latino-americana está bem ciente das metas e dos desafios que temos no presente e no futuro, e nós temos que integrar-nos mais, devemos nos unir. Desunindo-nos seria a possibilidade de destruir essas construções sociais e políticas.

Patricia Villegas.— O senhor falou-me paz e, é claro, não poderia deixar de lhe perguntar o papel de Cuba no processo de diálogo na Colômbia. Mantém-se ainda os diálogos com o ELN, na hora que o senhor e eu estamos aqui falando na plataforma da Telesur, mas há sérias preocupações sobre a implementação dos acordos por parte do Estado colombiano e, inclusive, de alguns ex-comandantes da guerrilha das FARC, do que foi acordado em Havana e depois reafirmado em Bogotá. Qual é a sua perspectiva sobre a paz na Colômbia e a posição do seu governo para continuar ou não acompanhando os diálogos com o ELN?

Miguel M. Díaz-Canel.— A paz é um processo necessário para a Colômbia, e nossa modesta contribuição para esse processo baseia-se na convicção, nos princípios. Para nós, defender a paz em qualquer lugar do mundo é um princípio, aspiramos a uma paz universal que possa facilitar uma ordem econômica internacional diferente.

Nós sempre nos oferecemos como garantia da paz, fornecemos nosso território, nossas possibilidades para o desenvolvimento dos diálogos; mas não interferimos nos diálogos, também por um problema ético e por um problema de princípios. O que facilitamos é que as partes possam conversar, resolver seus problemas.

Os problemas dos colombianos têm que ser resolvidos pelos colombianos, sem interferência alguma, e da mesma forma os problemas da Venezuela devem ser resolvidos pelo povo venezuelano, e, portanto, nós temos que apoiar a causa venezuelana e por isso devemos apoiar a luta pela paz na Colômbia.

Patricia Villegas.— Duas últimas perguntas, embora eu tivesse ainda muitas delas no meu papel com rabiscos, como o senhor disse em uma parte do diálogo.

O significado que o senhor dá ao triunfo de López Obrador no México, para este, talvez um novo momento da integração, de revisão dos mecanismos em toda a região. Qual é o valor do triunfo de López Obrador?

Miguel M. Díaz-Canel.— O México é um país muito importante na região. O México é um país cativante para Cuba, há muitas relações históricas e conjunturais. Não por prazer a Geração do Centenário encontrou um espaço no México, quando deixou o presídio, para se preparar para a epopeia revolucionária, e do México saiu o iate Granma.

O México com Cuba sempre teve uma posição: quando todos romperam, o México manteve as relações com Cuba.

Patricia Villegas.— Mas depois houve aquele episódio do «o senhor come e vai».

Miguel M. Díaz-Canel.— Ok, mas em nídel do governo. O povo cubano e o povo mexicano sempre foram muito próximos, eles se amam muito e essas coisas não podem ser quebradas por ninguém.

López Obrador é uma esperança para o México e é uma esperança para a América Latina e o Caribe. Um governo esquerdista como Obrador, com a personalidade de Obrador ao leme daquele governo, equilibra os problemas de correlação de forças sofridos nos últimos anos na América Latina.

López Obrador já levantou sua posição em relação ao Grupo de Lima. Lopez Obrador, além de ter um tremendo compromisso com a renovação do México, com o desenvolvimento do seu país, de continuar trabalhando para que os mexicanos tenham menos desigualdade, também quer fazer muita coisa, em parceria, para a América Latina e o Caribe.

Patricia Villegas.— Cuba estaria disposta a ajudar?

Miguel M. Díaz-Canel.— Claro, e ele fez a convocação e Cuba vai participar, apoiar e nós recebemos com grande satisfação a vitória de López Obrador, no México.

Patricia Villegas.— Quando começamos este diálogo, perguntei-lhe sobre esses quatro meses de governo, o que significaram. O senhor me contou sobre a gestão, a visão que tem, e é com isso entramos, digamos, nos intensos debates que estão ocorrendo na sociedade cubana. Mas esta última pergunta é para o homem, para o avô, para o pai, para o marido. Que tipo de pai poderia ter sido esses quatro meses, que tipo de avô poderia ter sido nestes quatro meses, quanta música pôde ter ouvido nesses quatro meses? E outra pergunta, que é a última, quantas vezes conversou com Raul nesses quatro meses de governo?

Miguel M. Díaz-Canel.— Bem, vamos começar com o último. Eu disse em uma intervenção que eu fiz na sessão de encerramento da Assembleia Nacional, que aconteceu em julho, e eu acredito que não há ninguém mais privilegiado do que eu, como presidente, que tenho o apoio do general-de-exército, de nosso primeiro secretário do Partido, com toda aquela história que ele tem como líder da Revolução Cubana.

Com Raúl conversamos praticamente todos os dias. Raúl está ciente da intensidade com que eu trabalho, à par de tudo o que é feito, pede informações sobre as coisas que estamos propondo. Ele participa de reuniões e debates, aconselha de maneira muito sincera e sem o menor indício de vaidade ou impondo algo ou limitando-nos em alguma coisa, e eu nessa relação — é um sentimento muito pessoal — às vezes... às vezes não, estou sempre sentindo que é um pai que está me guiando e que, ao mesmo tempo, está me deixando andar — isso não é apenas reflexão como um elemento pessoal — está nos deixando andar, está nos deixando fazer, sem deixar de cumprir suas funções e sua hierarquia como secretário do Partido. Eu acho que isso dá muita confiança às pessoas.

Como o povo estava muito confiante de que, quando Fidel ficou doente e depositou a responsabilidade em Raúl, Fidel estava presente — como Raúl disse — e Raúl disse que sempre estaria consultando Fidel sobre os problemas fundamentais da nação, o povo está muito consciente de que Raúl está presente, é ativo e está sempre à par de tudo o que estamos fazendo. Portanto, acredito que em tudo o que é feito há uma comunidade de compromissos do Partido, do governo, da nação com o povo, e eu me sinto muito seguro, então, e os companheiros do Conselho de Ministros, do governo, nos sentimos muito seguros pelo fato de termos essa orientação, essa liderança e a maneira como ele educa e faz as coisas.

Quando Raúl falou comigo, pela primeira vez quando me propôs ser o primeiro vice-presidente, eu, é claro, nunca tinha aspirado ou achava que era a pessoa que devia ocupar esse cargo, ele me explicou de uma forma paternal e, ao mesmo tempo, tão exigente, dando confiança e também com a convicção de que era preciso preparar a continuidade, porque ele estava plenamente consciente de que, quando fosse sua vez, ele permitiria a passagem a uma nova geração. Quer dizer, isso sempre esteve em sua convicção, ele não fez nenhuma concessão nisso.

Patricia Villegas.— Colocando esses sapatos...

Miguel M. Díaz Canel.— O povo pediu-lhe para continuar, continuar, e ele disse que tinha que dar o exemplo porque ele não está pensando apenas no tempo presente, ele também está pensando sobre a continuidade da Revolução, no futuro da Revolução, quando gerações que nenhuma, nem a minha, nem a futura, vão atingir o mérito histórico que puderam atingir Fidel, Raul e a geração que eles lideraram, estiverem liderando o país. Portanto, é uma experiência que também tem uma beleza revolucionária, e eu acho que é uma experiência que dá um monte de exemplos e, por sua vez, submete as pessoas a um monte de compromisso.

A gente está transitando, dando os passos pelos caminhos que eles abriram. Em outras palavras, é como se a gente estivesse dando passos modestos atrás de dois gigantes, dois gigantes morais, dois gigantes éticos, gigantes revolucionários. Mas, então, eu olho ao meu redor e digo: eu não estou sozinho dando os passos, nós todos estamos dando os passos; por isso, cada vez mais falamos de uma liderança coletiva, de uma liderança onde, além de compromisso, existe uma performance baseada no grande e no pequeno, da estratégia, mas também do detalhe, e essas são convicções que Fidel e Raúl nos incutiram.

Quando fazemos visitas às províncias apreciamos que, em meio das dificuldades, existe um povo valente, pessoas educadas, um povo culto, um povo muito comprometido, pessoas totalmente empreendedoras, que, às vezes, você se surpreende com as soluções encontradas para enfrentar adversidades, e um povo que transmite muito carinho e muita confiança.

Tenho que lhe dizer que, pessoalmente, faço um tremendo esforço para aquelas coisas que são públicas. Normalmente sou reservado, digamos, sinto pena. Quando estou nas visitas e, às vezes, vejo que há uma multidão de pessoas na rua, sinto um nó na garganta, mas sempre digo que eu vou falar com as pessoas, e vou para onde está a multidão, começo a falar, a perguntar, digo-lhes as coisas que estamos fazendo, o que temos visto, porque as pessoas sempre querem saber se realmente nós conhecemos os problemas que eles têm; alguns que expõem problemas, insatisfações, explicamos, dizemos a eles o que estamos projetando; mas as pessoas vêm com um sentimento, eu diria de apoio, não à pessoa que naquele momento está compartilhando com eles, mas também vê-lo como uma expressão de apoio à continuidade. E a primeira coisa, estas são as frases: «Não pode falhar a Fidel e a Raul», «Viva Fidel», «Viva Raul!". Então, isso é um grande apoio mas, ao mesmo tempo, é um compromisso muito maior; e então a gente diz; Este é o legado que tenho para defender, tamanha responsabilidade, e então você não se pode deixar esmagar por esse carinho e esse compromisso, e a gente, caso contrário, deve tirar forças e dizer: «Vamos em frente e vamos para a frente, porque nós não estamos sozinhos, estamos com esse povo e devemos trabalhar em conjunto, e devemos dar participação a essas pessoas, como a Revolução sempre fez!».

Em uma ocasião, em uma reunião recente do Conselho de Ministros, compartilhava com meus companheiros do governo e lhes disse: «Diante de tal povo corajoso, tão heróico e tão comprometido, a razão de nossas vidas, a única razão que podemos ter em nossas vidas é a dedicação total, agindo, criando, trabalhando incansavelmente e fielmente para esse povo, é também a lealdade à Revolução, é a fidelidade a Fidel e Raul, e isso é convicção da gente».

Então, isso também é expresso no plano familiar. Uma pessoa não pode assumir responsabilidades desligado de sua vida pessoal, a gente é um ser social, vive dentro de um grupo de amigos, em um grupo com pessoas que detêm responsabilidades em uma equipe e também está a família. Eu recebo compreensão da minha família, apoio; os meninos são muito críticos e com uma tremenda autoconfiança, eles me dizem coisas que acham que deveriam ser melhoradas, que partem de suas próprias experiências; portanto, na casa há também um diálogo, que é o mesmo diálogo que existe em nível da sociedade.

Patricia Villegas.— Uma tempestade de perguntas como esta entrevista.

Miguel M. Díaz-Canel.— E às vezes alguém diz: «Mas em casa não vamos falar sobre essas coisas», mas sempre conversamos e eu acho que sim, que tem que ser genuíno, porque eu não acho que haja um lar em Cuba em que possa haver uma separação entre falar e discutir essas realidades.

Minha esposa é uma mulher muito capaz, ela me ajuda muito, é uma acadêmica, ela se especializou nos tópicos de literatura e cultura, especialmente cubana; isso me encoraja muito; é muito objetiva, na hora de analisar um problema, de criticar um problema, ela me faz contrapartida e também compartilhamos muitos interesses comuns, para não dizer todos, e, portanto, com ela compartilho ideias, discussões. Peço sua opinião sobre as idéias que tenho, sobre as coisas que quero projetar. Peço-lhe critérios sobre como vou escrever um discurso; ou como chegar com uma ideia, e sempre recebo grande apoio nisso.

Então, as outras coisas, nós também as compartilhamos em família, a música que ajuda tanto à espiritualidade, também compartilhamos a poesia. Dois dos três garotos são artistas. Em seguida, em casa, é muito comum quando há um tempo, aos domingos, especialmente na hora do almoço eu sempre digo: Na hora em que chegarem, mas almoçamos todos», e pelo menos tentamos preservar o domingo, a qualquer momento, embora seja muito tarde, todos almoçamos com a família e lá os garotos curtem, cantam ou cantamos todos um pouco de tudo.

Patricia Villegas.— O senhor canta também?

Miguel M. Díaz-Canel.— Eu sou muito destoado e eles começam a zombar de mim, assim que me ouvem cantar, mas pensam que não tenho remédio e acabam dizendo: «Bem, vamos lá, que cante o que ele queira cantar».

Também compartilhamos com seus parceiros, com amigos, e isso também me dá muita força.

Patricia Villegas.— E o neto lhe provoca sorrisos.

Miguel M. Díaz-Canel.— O neto me faz sorrir, e agora posso confirmar aquilo que minha mãe me disse: «Você cria os filhos com os quais é muito exigente, mas mima os netos», e eu já estou percebendo que estou consentindo os netos, que sou um avô que consente.

Patricia Villegas.— Hoje conversamos com o avô, presidente de Cuba. Muito obrigado por este tempo.

Miguel M. Díaz-Canel.— Muito obrigado, Patricia. Você sabe o que a Telesur significa para nós. Eu realmente não sou uma pessoa de entrevistas, gosto muito mais de fazer do que conversar e até agora não havia dado nenhuma entrevista. Isso vai me causar um pouco de insatisfação com meus amigos na imprensa cubana, mas também nos próximos momentos vamos conversar com a imprensa cubana. Eu já recebi pedidos da equipe Cubadebate e do jornal

Granma, mas acho que ninguém vai ficar com ciúmes de que fosse com a Telesur, porque a Telesur também é de Cuba.

Patricia Villegas.— Isso mesmo, presidente.

Miguel M. Díaz-Canel.— A Telesur é a América Latina e a Telesur é também a que está desempenhando um papel importante como um meio para que os conteúdos de emancipação da América Latina estejam no mundo e seja uma contraparte de toda esta expressão colonizadora na mídia que eles tentam nos impor.

Obrigado a você e obrigado ao seu coletivo. Nós nos sentimos muito bem e acho que você se sentiu em casa.

Patricia Villegas.— Vamos aguardar as reações de nossos usuários através das redes sociais nas plataformas da Telesur em inglês e espanhol.

Nós dialogamos, desde o Palácio da Revolução, na Cidade de Havana, com o presidente de Cuba.

Muito obrigado pela sua companhia.