ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Câmara dos Deputados do Brasil. No total são pelo menos 238 os congressistas que respondem a acusações criminosas perante o Supremo Tribunal Federal. Foto: Prensa Latina

BRASÍLIA.— A necessidade de ''passar o Brasil a limpo'' foi um dos argumentos mais escutados na sessão da Câmara dos Deputados que eximiu o presidente Micher Temer da denúncia por corrupção passiva.

Uma missão que, visto os resultados da votação de 2 de agosto e a composição mesma dessa Casa, sente-se neste momento praticamente impossível de acometer, coincidiram inúmeros políticos e analistas locais.

Ao pretender arquivar a acusação «estão oficializando a corrupção no Brasil», advertiu o legislador do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Silvio Costa, horas antes que a reunião plenária refutasse por maioria de votos autorizar o Supremo Tribunal Federal (STF) a abrir um processo judiciário contra o governante.

Michel Temer foi acusado de corrupção passiva pelo procurador geral Rodrigo Janot como resultado da denúncia premiada do proprietário do frigorífico JBS Joesley Batista, que gravou em março último uma comprometedora conversação com o presidente na residência oficial, o Palácio de Jaburu.

Na fita, Temer avaliava o pagamento de subornos para comprar o silêncio do ex-presidente da Câmara dos Deputados e um dos artífices do processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff, Eduardo Cunha, que cumpre uma condenação de mais de 15 anos de cárcere por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão fiscal.

Também, indicava a seu ex-assessor especial e ex-deputado federal Rodrigo Rocha como intermediário para resolver os requerimentos da empresa JBS, em troca do qual a entidade pagaria durante 25 anos uma 'gorjeta' semanal de meio milhão de reais, que supostamente beneficiaria ao ocupante do Palácio do Planalto.

Rocha foi gravado pela Polícia Federal, enquanto recebia e depois fugia às pressas levando uma mala preta cheia de dinheiro, no que constituía o primeiro pagamento da JBS.

Contudo, para a maioria dos legisladores nenhum desses elementos foram suficientes para — respondendo ao manifesto interesse de 93% da população, que esperava o julgamento de Temer pela Suprema Corte — dar curso ao processo, esclarecer os fatos e tentar começar assim a 'passar o Brasil a limpo'. A decisão dos parlamentares, coincidem analistas, porém esteve longe de causar surpresa.

Já desde antes que a Comissão de Constituição e Justiça iniciasse o processo de análise da denúncia e aprovasse depois um relatório favorável a desestimar a acusação, o analista político Francisco das Chagas Leite Filho alertava que nada aconteceria.

Michel Temer necessita do respaldo de 172 dos 513 integrantes da Câmara dos Deputados e se 214 estão envolvidos em atos de corrupção, vão entregar sua própria cabeça?, questionou-se antes de advertir: 'salvo que ocorra uma hecatombe, um terremoto político até a decisão final do caso... não haverá nenhuma novidade'.

Há em andamento um jogo de aparências para instalar a percepção de que a Câmara vai entregar a cabeça de Temer; mas nada é mais falso, mais irreal, insistiu Leite Filho.

De acordo com uma pesquisa do site Congresso em Foco, pelo menos 47 dos deputados que participaram da operação para salvar a Temer respondem a ações penais perante a Suprema Corte e deles seis exercem seu mandato inclusive condenados a prisão.

O caso mais notório é Celso Jacob, que cumpre uma condenação de sete anos e dois meses de cárcere no Complexo de Papuda, nesta capital, mas foi autorizado por um juiz a trabalhar na Câmara durante o dia para voltar a seu lugar trás as grades às 18h30, horal local.

Segundo a própria fonte, em total são pelo menos 238 os congressistas que respondem a acusações criminosas perante o STF e deles uns 190 são deputados que participaram da votação de 2 de agosto.

Por acréscimo, não foram poucas as denúncias sobre as manobras empreendidas desde o Palácio do Planalto para livrar seu principal ocupante e que, segundo estimativas difundidas na mídia, podem acarretar para o tesouro público uma partilha que oscilaria entre os 13 mil 200 e os 17 bi-lhões de reais (de US$4,200 a US$5,4 bilhões).

Tudo isso entre emendas parlamentares e outros 'favores' concedidos pouco antes da votação a setores como a poderosa bancada ruralista, à qual Temer livrou de uma dívida de quase 10 bilhões de reais (mais de US$3,1 bilhões) com o sistema de segurança social, permitindo-lhe renegociá-la para ser saldada em 180 meses, com uma redução de 25% nas multas e do 100% nos juros.

Isso, sem deixar de lado o fato de que 10 ministros e três secretários de Estado com mandato na Câmara dos Deputados foram exonerados para ir votar pelo arquivamento da denúncia e somar-se ao que o legislador Pedro Uczai definiu como um novo golpe, este para salvar um dos políticos mais corruptos do Brasil.