ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Faustin-Archange Touadéra (no centro) é o atual presidente da República Centro-africana após vencer as eleições de fevereiro de 2016. O presidente centro-africano tem a difícil tarefa de estabilizar a situação e trazer a paz a essa nação do chamado continente negro. Foto: http://barnabasfund.ru

PARA a maioria da imprensa, a África é o continente do caos, onde abundam as chacinas e os conflitos causam êxodos, epidemias e fome, onde grupos extremistas brotam, violam e raptam sem piedade. Possuindo paisagens de sonhos e abundantes recursos minerais, embora ameaçados pela seca e desertificação, a África é o reino da brutalidade tribal, do contrabando e da pobreza inevitável aos olhos de muitos no Ocidente.

O que eles não têm é o decoro de confessar — seria demais pedir isso — é o peso do colonialismo e suas sequelas nessas guerras fratricidas que atiçam a expropriação, promovida pelas potências das que esses países um dia alcançaram uma precária independência. Afinal, é a ganância imperial transbordante que mergulhou a África em uma subordinação parenteral, em um túnel de tragédias do qual ninguém sai, nem em um barco cheio de infelizes à deriva. O que a República Centro-africana está experimentando — e sofrendo — é mais um capítulo de uma realidade vergonhosa.

As crônicas e reportagens fotográficas abundam acerca de confrontos entre facções que reduzem aldeias inteiras apenas porque pertencem a uma religião diferente. Em sintonia com os tempos que correm e com a ilusão das epopeias, os conflitos sobre o poder agora se tornam diferenças confessionais. Na verdade, há uma disputa em andamento. Por um lado, a Séléka (coalizão na língua Sangha) que agora seus inimigos chamam de Baláka (facão) pelas armas que eles usam para matar suas vítimas. Desde o ano 2003 essa força comandada por Michel Djotodia luta para conquistar o poder, mas somente após o golpe militar de 2013 contra o presidente François Bozizé é que surgiu sua afiliação islâmica, que representa cerca de 15% da população.

Soldados franceses na República Centro-africana. Photo: EFE

Do outro lado estão os antibálakas, antigamente apenas rivais político-militares, mas agora representantes desse 50% dos cidadãos de fé cristã e ‘animistas’. Ambos competem em crueldade, demonstrando o que afirmava a escritora britânica Virginia Wolf em seu romance Orlando: nada é mais irritante para um ser humano do que o fato de que alguém despreze o que ele venera. Mas nesse cenário, nem todos os atores são representados.

Esta nação do centro da África atingiu sua independência em 1960, mas a França, sua antiga metrópole, permaneceu sendo uma variável essencial em sua cartografia econômica e sociopolítica; especialmente para garantir sua ascendência sobre os recursos naturais aos que não poderia renunciar, pois, de onde veio o urânio do programa nuclear francês? Embora sempre tenha ficado nos bastidores sua mão negra, o país da liberdade, igualdade e fraternidade sempre apoiou os golpes militares que fraturaram ainda mais a governabilidade já frágil desse país da África Central. A abertura do governo de François Biozizé aos investimentos chineses em infraestrutura do petróleo — que também incluiu ajuda à saúde, educação e alimentos — provocou o alarme e novamente o país foi levado a uma espiral da morte, que ainda hoje tem momentos preocupantes de auge e intensidade.

O que aconteceu a seguir é história já sabida. Na França havia preocupações sobre um genocídio iminente e a ‘proliferação’ de grupos extremistas (islâmicos, é claro), então foi decidido iniciar uma nova intervenção militar, em março de 2013. A operação Sangráis concentrou 2.500 soldados franceses junto com as forças de paz da ONU (Binuca, por sua sigla em francês).

República Centro-africana, ex-colônia da França, é um país sem costas, situado na África central. Limita com o Tchade ao norte, Sudão ao nordeste, Sudão do Sul a leste, a República Democrática do Congo e a República do Congo ao sul e os Camarões a oeste. Tem uma superfície de 622.984 quilômetros quadrados e uma população estimada em torno de 4,4 milhões de habitantes, segundo estimativas de 2008. A capital e a cidade mais povoada é Bangui. Foto: http://www.angop.ao

Após a sua retirada, em outubro de 2016, o exército francês deixou uma nova missão integrada das Nações Unidas, Minusca (também em francês), que terá jurisdição no país africano até novembro de 2017. No entanto, para ter certeza, a França deixou um destacamento de 350 soldados, um esquadrão de drones e um general à frente do contingente multinacional de conselheiros europeus, os quais tentam reconfigurar as forças armadas da África Central.

De acordo com o pesquisador e jornalista Olivier Ndenkop, a «bondade» é apenas para a foto. O objetivo real era conter a «penetração» chinesa e proteger as reservas de ouro, diamantes, madeira, urânio e petróleo que sustentam os interesses dos conglomerados internacionais.

Mas o «progresso» é imparável. Graças ao Processo de Kimberley, uma iniciativa global contra a guer-ra pelos diamantes, em 2013, as exportações da África Central deste item foram banidas. No entanto, apesar da radicalização do conflito, em 2015, a moratória foi levantada e o negócio de diamantes retomou.

Agora o mais importante é pegar culpados, como o líder Séléka Haroon Gaye ou o anti Bálaka Alfred Yekaton, peões do jogo que se está desenvolvendo de longe.

Júlio César tornou-se rico ao travar uma guerra na Gália e, antes de ser esfaqueado nos portões do Senado romano, criou uma frase que virou tradição: ‘Divide et impera’ (Divide e conquista). É por isso que alguns continuam a lucrar com o infortúnio dos infelizes, é por isso que poucos ouvem e levantam a voz, é por isso que a chacina continua sem que possa ser parada... talvez seja por isso que a Virginia Wolf encheu os bolsos com pedras para nunca voltar do fundo do rio.

Em vez de armas, à República Centro-africana se deve trazer comida, medicamentos, água, desenvolvimento sustentável, tolerância... paz.