ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
O presidente dos Estados Unidos falou no mesmo tom nacionalista e protecionista que o catapultou para a Casa Branca. Photo: AFP

Entre as meias verdades sobre a economia, que procuram esconder os sérios problemas de seu governo e ameaças contra o mundo para distrair a atenção, o presidente Donald Trump ofereceu, na terça-feira, 30 de janeiro, uma lição de diplomacia feita em Washington.

Durante seu discurso acerca do Estado da União, proferido na noite da terça-feira, 30 de janeiro, perante o Congresso, o presidente dos EUA continuou a tradição de fazer um balanço de seu primeiro ano na Casa Branca e inventou uma nova filosofia, ao estilo de George W. Bush, «Ou estão comigo ou estão com os terroristas».

O magnata de Nova York, mais acostumado ao negócio do que a qualquer outra coisa, agora encontrou sua própria fórmula para o desastre: «ou estão comigo ou se esquecem do dinheiro».

Isso aconteceu enquanto falava sobre sua controversa decisão de mudar a embaixada dos EUA em Israel para Jerusalém, o que levantou uma onda de indignação global sobre suas possíveis consequências no conflito palestino.

A esse respeito acrescentou que, pouco depois de ter anunciado a medida, «dezenas de países votaram na Assembleia Geral das Nações Unidas contra o direito soberano dos Estados Unidos para fazer esse reconhecimento».

Lembrou que essas mesmas nações — foram, de fato, 128, incluindo seus maiores aliados — receberam apenas no ano passado US$ 20 bilhões em ajuda econômica.

"É por isso que esta noite eu estou pedindo ao Congresso que aprove leis para ajudar a garantir que os dólares para a ajuda estrangeira sempre sirvam aos interesses dos EUA e só vão para os amigos dos Estados Unidos», disse.

A filosofia não é nova, embora nunca tenha sido tão clara. A Casa Branca já ameaçou cortar toda a cooperação com o Paquistão, um dos seus aliados na luta contra o terrorismo, caso não cumprir à risca uma lista de demandas.

O mesmo se aplica à ajuda aos refugiados palestinos, que está sendo usada com chantagem para obter concessões a favor dos interesses israelenses.

Mas as ameaças com o livro de cheques na mão não são reservadas para os «adversários», mas também tocam aos amigos de toda a vida.

«A era da rendição econômica dos Estados Unidos terminou», disse o presidente no mesmo tom nacionalista e protecionista que o catapultou até a Casa Branca.

Acrescentou que os negócios com seu país, de agora em diante, teriam que ser «justos» e «recíprocos».

«Trabalharemos para corrigir os maus tratos comerciais e negociar novos. E protegeremos os trabalhadores norte-americanos e a propriedade intelectual dos EUA através da aplicação rigorosa das nossas regras de negócios».

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos tem sido o principal campeão do comércio livre, com o qual conseguiram manter o seu primado econômico global e satisfazer os países que se alinham aos seus interesses geopolíticos. No entanto, a nova administração parece convencida de que é hora de ajustar as contas.

A Europa vem ponderando, há meses, sua resposta a uma medida protecionista de Trump, e em Bruxelas dizem que estão dispostos a agir para proteger seus interesses.

A China, do outro lado do mundo e em uma ascensão vertiginosa, está disposta a ocupar os espaços deixados por Washington.

Se esse é o tratamento reservado pelo novo ocupante da Casa Branca para aqueles que o apoiam, não é surpreendente que o discurso acerca do Estado da União tenha sido prolífico em ameaças contra países que se recusam a seguir suas ordens.

Trump se gabou das sanções que aplicou contra Cuba e a Venezuela, sem aprofundar muito no assunto.

Cerceado por um grupo minoritário e recalcitrante da comunidade cubana nos Estados Unidos, Trump anunciou, no dia 16 de junho do ano passado, em Miami, novas medidas para fortalecer o bloqueio e tornar as viagens mais difíceis entre os dois países.

Com justificativas e sem provas, o Departamento de Estado também reduziu a equipe de sua embaixada em Havana, em setembro, e paralisou a entrega de vistos, exigindo a partida de 17 diplomatas cubanos de Washington.

A nova administração também anunciou o retorno às políticas falhadas, ao anunciar o andamento de uma Força Operativa na Internet contra Cuba, na semana passada, que faz lembrar outros projetos subversivos, como ZunZuneo e Commotion.

Contra a Venezuela e suas autoridades legítimas, a nova obsessão de Washington na região, dirige uma série de sanções que agravam ainda mais a crise econômica no país e que contribuem para o boicote da direita.

Trump também ficou orgulhoso do apoio de seu governo aos protagonistas da turbulência interna no Irã, no início deste mês, que trazem a marca das operações secretas da CIA, de acordo com vários analistas.

Ele continuou sua escalada de tensões contra a República Popular Democrática da Coréia e se dedicou a gabar-se dos seus supostos sucessos na luta contra o terrorismo.

Apesar de ter prometido, durante a campanha eleitoral, o final das guerras fracassadas dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão, Trump aumentou o número de tropas implantadas no Oriente Médio e concedeu mais 80 bilhões de dólares ao orçamento do Exército para o ano fiscal 2018

Em outro aceno para o setor militar, o presidente aproveitou o Estado da União para anunciar que havia assinado um decreto para pôr fim ao processo de encerramento da prisão dos EUA na Base Naval em Guantánamo, localizada em território cubano ilegalmente ocupado.

O fim desse centro polêmico de detenção — não o retorno do território a Cuba — foi uma das principais promessas do ex-presidente democrata Barack Obama, que não conseguiu cumpri-lo durante seus oito anos de mandato, por causa da resistência do Congresso.

«Mas devemos ser claros: os terroristas não são simplesmente criminosos; Eles são combatentes inimigos ilegais», disse Trump. «E quando são capturados no exterior, eles devem ser tratados como os terroristas que são».

Precisamente, a prisão em Guantánamo tornou-se famosa pelas imagens de soldados dos EUA que torturavam os detentos, o que levou a vários projetos de lei para etntar evitar incidentes semelhantes. A declaração de Trump parece indicar que preservar os direitos elementares dos prisioneiros não será mesmo uma preocupação de seu governo.

Mas, além do que os Estados Unidos fazem com sua política de detenções arbitrárias, a demanda de Cuba e de muitos outros países do mundo continua centrada no fim da ocupação ilegal desse território em Guantánamo.

Trump, é claro, não mencionou esse assunto na terça, 30, à noite. Talvez ele não conheça a história ou esteja muito concentrado em aparecer «presidencial» diante de uma audiência que o aplaudiu — menos os democratas — mas que por trás de suas costas zomba da ignorância e da incapacidade de governar do presidente, que ocupa as manchetes dos principais meios de comunicação desse país e até mesmo nas prateleiras das livrarias.

CUBA NÃO TOLERA A INTROMISSÃO EM SEUS ASSUNTOS INTERNOS

Na quarta-feira, 31 de janeiro, o Ministério dos Negócios Estrangeiros entregou ao Encarregado de Negócios a.i. dos Estados Unidos em Havana, Lawrence Gumbiner, uma nota diplomática expressando o seu forte protesto contra a pretensão do governo dos Estados Unidos de violar flagrantemente a soberania cubana, no que diz respeito à competência nacional para regular os fluxos de informação e o uso de meios de comunicação de massa, ao rejeitar a tentativa de manipular a Internet para realizar programas ilegais para fins políticos e de subversão, como parte de suas ações destinadas a alterar ou mudar a ordem constitucional da República de Cuba. A mesma nota foi enviada pela embaixada de Cuba em Washington ao Departamento de Estado.

- O protesto foi motivado pelo anúncio do Departamento de Estado, em 23 de janeiro, da decisão de convocar uma Força Operativa na Internet, composta por funcionários do governo dos Estados Unidos e representantes de organizações não governamentais, com o objetivo de declarado de «promover em Cuba o fluxo de informação livre e não regulamentado». De acordo com o anúncio, esta Força Operativa «examinará os desafios tecnológicos e as oportunidades para expandir o acesso à Internet e a mídia independente» em Cuba.

- A nota da Minrex exige novamente que o governo dos Estados Unidos cesse suas ações subversivas, interferentes e ilegais contra Cuba, que ameaçam a estabilidade e a ordem constitucional cubana, e o exorta a respeitar a soberania cubana, o Direito Internacional e os propósitos de e princípios da Carta das Nações Unidas.

- Na sua mensagem, o Ministério das Relações Exteriores cubano reitera a determinação do Governo de Cuba de não tolerar qualquer tipo de atividade subversiva ou interferência em seus assuntos internos e, como país soberano, continuar se defendendo e denunciar a natureza interferente desse tipo de ações.

- Cuba continuará regulando o fluxo de informações, como é o seu direito soberano e, como é praticado em todos os países, incluindo os Estados Unidos. Cuba também continuará avançando na informatização de sua sociedade, como parte do desenvolvimento do país e em função dos objetivos de justiça social que caracterizam sua Revolução.

(Cubaminrex)