Habilidades de negociação, um espaço para o ecumenismo internacional, solidariedade médica, esforços de paz e reposicionamento cultural marcaram a liderança do general-de-exército em Cuba
O papa Francisco conversa com Raúl durante sua parada em Havana para se encontrar com o Patriarca Kirill em 2016.Photo: Estúdios Revolución
O general-de-exército Raúl Castro Ruz pode ser considerado uma das figuras mais influentes da política internacional latino-americana no século atual?
Vamos rever os marcos diplomáticos que ocorreram durante seu mandato como presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros da República de Cuba, no cargo desde 2006 e oficialmente entre 2008 e 2018.
1- Declaração da América Latina e do Caribe como Zona de Paz
A Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) nasceu em 2011 em Caracas como um espaço de integração para as 33 nações independentes localizadas entre o Rio Grande e a Patagônia, que enfrentam desafios como mudanças climáticas, soberania, crises econômicas globais e desigualdade.
Na cerimônia de fundação, Raúl Castro discursou e enfatizou o privilégio da nossa região por ser livre de armas nucleares, estabelecendo como meta que a região também seja livre de bases militares estrangeiras, em um discurso marcado por alusões aos 200 anos de luta no continente e nas ilhas, às ameaças coloniais e imperialistas e à dívida que assola 180 milhões de pessoas em situação de pobreza.
Três anos depois, Havana sediou a próxima cúpula da CELAC, sob a presidência interina de Raúl Castro. Lá, foi emitida a declaração conjunta da região como zona de paz, algo que sem dúvida já havia sido prenunciado nas ideias que o general-de-exército havia apresentado na Venezuela.
«Apesar das inevitáveis diferenças, está sendo fomentado um espírito de maior unidade na diversidade, que deve ser o objetivo final», insistiu.
2- O retorno dos Cinco Heróis
A manhã de 17 de dezembro de 2014 abalou Cuba e grande parte do mundo quando foi anunciado o retorno à Ilha dos cinco combatentes antiterroristas presos em cadeias dos Estados Unidos desde o final da década de 1990.
O slogan «eles voltarão», lançado anos antes por Fidel, e o «eu voltarei», escrito em versos por Antonio Guerrero e cantado por Polo Montañez, deixaram de ser, de um momento para o outro, lutas, promessas, armas poéticas apontando para o futuro, e se tornaram de fato «eles voltaram!», «eles voltaram!».
Isso marcou um ponto de virada na compreensão do que era possível dentro da disputa revolucionária, ao mesmo tempo que abriu caminho para um processo de normalização das relações entre Cuba e os Estados Unidos, contraditório e complexo, mas necessário, que foi interrompido pela chegada de Donald Trump à Casa Branca, em 2017.
Pouco antes, na África do Sul, com a mediação de José Mujica, Raúl e Obama haviam apertado as mãos.
3- Visita do primeiro presidente dos EUA em exercício em quase um século
Em 20 de março de 2016, como parte do processo de normalização das relações entre os dois países, Barack Obama desembarcou em Cuba. Ele se tornou, assim, o primeiro presidente dos EUA em exercício a pisar em solo caribenho desde 1928.
O presidente compareceu com uma agenda de comunicação completa, que incluiu sua «apresentação» no programa de humor cubano mais popular do momento; sua presença no estádio latino-americano – sentado ao lado de Raúl – em um jogo do Tampa Bay Rays, time da Major League Baseball norte-americana, e da seleção cubana; além de discursos no teatro mais emblemático do país e diante de empresários e empreendedores nacionais.
«Desempenhamos papéis muito diferentes no mundo. Mas ninguém deve negar o serviço que milhares de médicos cubanos prestaram aos pobres e sofredores. No ano passado, profissionais de saúde norte-americanos — e forças militares dos EUA — trabalharam lado a lado com os cubanos para salvar vidas e acabar com o Ebola na África Ocidental», disse Obama.
4- Negociações de paz na Colômbia
Em setembro de 2012, Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia, e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - Exército do Povo (FARC-EP) anunciaram a assinatura, em Havana, de um Acordo Geral para pôr fim a meio século de conflito armado.
Assim começou um processo de negociações que durou vários anos, no qual Cuba atuou como anfitriã e garantidora, juntamente com a Noruega, até que um acordo bilateral e definitivo de cessar-fogo fosse assinado em Havana, em junho de 2016. A capa do documento que ambos possuíam trazia o brasão de armas da República de Cuba.
5 - Papa Francisco em Cuba
Em setembro de 2015, o Sumo Pontífice da Igreja Católica, Jorge Mario Bergoglio, papa Francisco, fez sua primeira visita a Cuba.
De sua posição no Vaticano, a primeira a ocupá-la após nascer na América Latina, Francisco já havia sido fundamental na reaproximação entre Cuba e os Estados Unidos. Agora, ele celebrava missas em Havana, Holguín e Santiago de Cuba, venerando Nossa Senhora da Caridade do Cobre.
Durante a visita, também teve um encontro privado com o líder da Revolução, Fidel Castro.
Alguns meses depois, o papa retornaria à Ilha, desta vez para se encontrar com o Patriarca Kirill da Igreja Ortodoxa Russa, um encontro ecumênico de alto nível que não ocorria há séculos.
Em 2022, as declarações de Francisco sobre Cuba e Raúl foram notícia em todo o mundo:
«Eu amo muito o povo cubano. Tenho tido boas relações humanas com os cubanos e confesso também: tenho uma relação humana com Raúl Castro. Cuba é um símbolo. Cuba tem uma grande história. Sinto-me muito próximo dela, inclusive dos bispos cubanos.»
6- Discurso na Cúpula das Américas
Em 2015, Raúl tornou-se o primeiro e único líder cubano a participar de uma Cúpula das Américas, evento do qual a Ilha maior das Antilhas estava excluída desde sua primeira edição em Miami, em 1994.
No Panamá, sede da sétima Cúpula, ele habilmente contornou posturas sutilmente hostis, como a do presidente do país anfitrião, usando humor e fatos. Raúl ultrapassou os oito minutos que lhe foram concedidos para sua apresentação, multiplicando-os pelas seis vezes em que Cuba teve a entrada negada. A decisão, mais do que meramente performática, foi política.
O discurso traçou a história de Cuba e seu cerco sistemático pelos Estados Unidos. Enfatizou a hostilidade particular que se seguiu ao triunfo da Revolução Cubana e desmantelou a noção de que Cuba era um Estado patrocinador do terrorismo. Apelou por uma mudança profunda nas relações hemisféricas, maior envolvimento com a situação no Haiti e manifestou-se ao lado do governo venezuelano, condenando a ordem executiva dos EUA que rotulou o chavismo como uma «ameaça» à segurança nacional dos EUA.
7- Reposicionar Cuba como o epicentro cultural do hemisfério
Durante seus anos no cargo, Cuba passou por um processo de reconhecimento internacional como um dos epicentros da cultura hemisférica. Entre as conquistas mais notáveis, destaca-se a designação de Havana como uma «Cidade Maravilha» do mundo moderno, prêmio concedido pela fundação suíça New7Wonders em 2016.
Ao mesmo tempo, figuras importantes da indústria cultural ocidental começaram a aparecer no ambiente cubano, desde atores e atrizes de Hollywood até bandas emblemáticas como os Rolling Stones.
Pode-se pensar que isso ocorreu exclusivamente no contexto da reaproximação entre Cuba e os Estados Unidos, mas vale lembrar que em 2009 aconteceu o Concerto pela Paz, onde artistas internacionais como Danny Rivera, Juanes, Luis Eduardo Aute, Miguel Bosé, Olga Tañón e Víctor Manuel subiram ao palco.
Do ponto de vista esportivo, Cuba conseguiu retornar à Série Caribenha de beisebol em 2014. Em 2015, conquistaria o título.
8- Haiti e África Ocidental
«A América Latina e o Caribe têm uma responsabilidade histórica e ética para com essa república irmã», disse Raúl durante seu discurso na primeira cúpula da Celac, referindo-se ao Haiti.
Naquela ocasião, Raúl lembrou que profissionais de saúde cubanos haviam chegado ao território vizinho para apoiar a população após o terremoto de 2010, e que sua presença havia sido reforçada meses depois diante da epidemia de cólera desencadeada em meio ao desastre.
Quatro anos depois, outros 256 profissionais cubanos chegaram à África Ocidental para combater o Ebola, particularmente em Serra Leoa, Libéria e Guiné-Conacri.
Paralelamente, a política cubana de colaboração médica estabelecida no início da Revolução continuou, com forte presença em países da América Latina e da África.
O apoio à luta contra o bloqueio econômico, comercial e financeiro dos Estados Unidos, com desbordadas manifestações de solidariedade em cidades de todas as latitudes; o rechaço mundial à incluso na lista de países patrocinadores do terrorismo, e a profunda e coerente presidência do Grupo dos 77 mais a China, elevaram ainda mais o prestígio de Cuba em suas relações com o mundo