ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA

A Feira Internacional do Livro de Havana não é somente lançamento de obras novas. Uma de suas características é ir mais além, estabelecer diálogos com os leitores, debates de editores e conferências de autores.

A 25ª edição não podia ter sido diferente na celebração do seu quarto de século e assim ficou patente a partir de sua inauguração (11 de fevereiro) no palco principal da Feira, a fortaleza de San Carlos de la Cabaña, construída em 1774.

A cerimônia de início, na sala Nicolás Guillen, contou com a presença do primeiro vice-presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros, Miguel Díaz-Canel Bermúdez; com o assessor do presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros, Abel Prieto; o ministro da Cultura, Julian González; o presidente da União dos Escritores e Artistas de Cuba (Uneac), Miguel Barnet e outras pessoalidades da política e a cultura cubana.

A presidente do Instituto Cubano do Livro e do Comitê Organizador, Zuleica Romay, referiu-se às várias sedes, aos lançamentos e os importantes eventos profissionais e acadêmicos em torno da literatura e o livro.

Devido a que a Feira tem como país convidado de Honra a República Oriental de Uruguai, uma ampla delegação de intelectuais desse país acompanhou os lançamentos de livros e conferências acerca da literatura uruguaia, quase todos na sala Eduardo Galeano.

Igualmente na inauguração falou o vice-presidente do Uruguai, Raúl Sendic, quem se referiu ao papel fundamental que tem a Cultura na defesa do continente, bem como a contínua trajetória de amizade e solidariedade entre duas nações, que remonta aos finais do século 19, quando José Martí foi cônsul do Uruguai em Nova Iorque. 

AS CINZAS DO CONDOR

Em 1979, com 25 anos de idade, o uruguaio Fernando Butazzoni obteve o Prêmio Literário Casa das Américas por seu primeiro caderno de contos Los días de nuestra sangre.Aquele prêmio — disse — com seu enorme prestígio, deveio para mim uma certeza: era escritor e podia tentá-lo. O Prêmio Casa das Américas significou toda minha vida posterior”.

Chegariam outros livros: em 1980 seu caderno de poemas De la noche y la fiesta obteve menção no Prêmio Internacional de Poesia Rubén Darío; em 1981 Butazzoni publicou seu primeiro romance La noche abierta; três anos depois um volume de crônicas intitulado Con el ejército de Sandino; e nos anos 1988 e 1983 as novelas La danza de los perdidos e El príncipe de la muerte.

Na sala Eduardo Galeano falou acerca de sua peculiar novela, que ultrapassa as fronteiras testemunhais, da reportagem, da crônica jornalística e o thriller: Las Cenizas del Cóndor (Prêmio de Narrativa José María Arguedas, durante a recém celebrada 57ª edição do Prêmio Casa) a qual relata, entre outras questões, o instante no qual as ditaduras militares se instalaram no Cone Sul, desvendando com seu valores literários e testemunhais a verdadeira história daquilo que foi conhecido como o Plano Condor.  

130ª ANIVERSÁRIO DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO EM CUBA

A Casa das Américas uma das sedes alternas da Feira, acolheu o Seminário Internacional 130ª Aniversário da Abolição da Escravidão em Cuba, questão nada estranha já que essa instituição patrocina o Programa de estudos acerca de Afro-américa (já tem outros programas sobre os latinos nos Estados Unidos, o Caribe e as Culturas Originárias), dirigido pela ensaísta Zuleica Romay, quem no ano 2012 obteve o Prêmio Extraordinário de Estudos acerca da presença negra nas Américas e o Caribe contemporâneo como o título Elogio de la altea o las paradojas de la esclavitud.

“O seminário — disse Romay — não equivale em nada em fazer uma lembrança acerca do passado, pensamos que seja mais bem uma chamada de atenção em relação ao presente e uma exortação acerca do futuro”.

Para sublinhar tal asseveração, o seminário começou, em 15 de fevereiro, com uma conferência magistral do historiador e pesquisador colombiano Alfonso Múnera (quem desde o ano 2011 é o secretário-geral da Associação dos Estados do Caribe). A palestra intitulava-se Esclavitud. Abolición y pervivencias en una sociedad del Caribe continental: Cartagena de Indias.

Entre outros depoentes destaque para a antropologista norte-americana Nina Jablonski, diretora do Centro de Evolução Humana e Diversidade, da Universidade Estatal da Pensilvânia, com o tema La ilusión de la raza e o lançamento, por parte da editora Unión, do livro Papeles de libertad. Una odisea trasatlántica en la era de la emancipación, de Rebecca Scott e Jean M. Hebrard.

Seminário comemorativo é certo, mas incentiva novos olhares, novas abordagens do tráfico de escravos, sua significação em cada um dos lados do Atlântico e como se desenvolveu o sistema escravista em diferentes países, o significado social e cultural da abolição e os desafios que faltam.

À PROCURA DO UNICÓRNIO

A prestigiosa ensaísta Graziela Poglotti (Paris, 1932) apresentou na sala Martínez Villena, da Uneac, também sede alterna da Feira, um volume que criou grandes expectativas, En busca del unicornio, onde recolhe os breves trabalhos ( de umas 90 linhas) publicados no jornal Juventud Rebelde.

Pogolotti já escreveu inúmeros ensaios, entre eles, Examen de conciencia (1965); El oficio de leer (1989); Experiencia de la crítica (2003); Alejo, el ojo crítico (2007) e Dinosauria soy (Memórias 2002)

Graças à sua erudição, no novo livro Pogolotti, membro da Academia Cubana da Língua, inclui inúmeros referentes literários e anedotas pessoais (ela é filha de um dos ícones da vanguarda artística cubana da primeira metade do século 20, Marcelo Pogolotti) São breves ensaios que provocam o leitor e o obrigam a indagar.

Todo texto é uma aula acerca da cultura, a arte, a literatura e até a convivência. Não debalde, a doutora Pogolotti recebeu, em 2005, o Prêmio Nacional do Ensino Artístico. Nesse mesmo ano lhe foi conferido o Prêmio Nacional de Literatura e foi dedicada em sua honra a 27ª Feira do Livro, junto ao romancista e poeta Antón Arrufat.

Graziela Pogolotti, quem preside na atualidade a Fundação Alejo Carpentier, disse na apresentação de En busca del unicornio: “Desejo que cada um de vocês faça uma leitura pessoal, que se encontre a si mesmo nestas páginas”.

Bela imagem para esta Feira a do unicórnio, maravilhoso e perseguido, mítico e incorrupto... como um livro...