ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Peter Turnley na aula magistral sobre a foto de imprensa, em Belas Artes.

AS grandes fotografias flagraram sempre momentos relevantes no tempo e no espaço. O papel dos repórteres fotográficos foi vital para registrar inúmeros eventos históricos. Ao mesmo tempo, a fotografia compartilha dois mundos, o da tecnologia e o da arte.

A exposição pessoal do estadunidense Peter Turnley (Indiana, 1955), um dos grandes fotógrafos do mundo, no prédio de Arte Cubana, do Museu Nacional das Belas Artes, faz sumir toda dúvida sobre a velha pergunta: Acaso a fotografia é uma arte?

Cada mostra persegue os olhos do público e com Momentos da condição humana Turnley cativou os mais de 35 mil visitantes em Havana. Suas fotos deixam apreciar o próprio olhar do autor, inquisitivo e honesto, em diversos acontecimentos ocorridos nos mais de noventa países aos quais viajou como fotógrafo, nos últimos 40 anos.

A chefa do Departamento de Coleções e Curadoria das Belas Artes, Niurka Fanego, precisou que a exposição foi organizada com um caráter retrospectivo e como uma antologia do trabalho do artista, cuja obra foi publicada em meios como The New Yorker, Newsweek, National Geographic, Life, Le Figaro e Le Monde.

Momentos da condição humana apresenta 130 fotos, ordenadas em quatro seções: Coração da América (os excluídos sociais nos Estados Unidos); Uma carta de amor a Paris (cenas nas ruas); Em tempos de guerra e paz (refugiados no mundo todo e outros momentos históricos), e Cuba, a graça do espírito.

Dessas impressionantes instantâneas, Turnley teve a generosidade de doar 20 delas ao Museu Nacional das Belas Artes, isto é ao Patrimônio Nacional, entre elas Queda do muro de Berlim, 1989; Refugiado albano kosovar, 1999; Parteira em Bujará, Uzbequistão, 1987 e Malecón-beira mar de Havana, 2015.

Já se falou disso: na fotografia de imprensa Turnley tem um trabalho extenso, ao longo de várias décadas, e sobre esta especialidade ofereceu uma aula magistral (24 de fevereiro 2016), como fechamento da mostra inaugurada em 13 de novembro de 2015. Para facilitar a leitura reproduzo algumas de suas ideias, e de suas réplicas às interrogantes do público, em forma de perguntas e respostas.

A fotografia em geral…

“A foto em si mesma tem um impacto enorme em quem a vê. O ato de bater uma fotografia para mim é um ato revolucionário, sempre foi acerca de compartilhar os momentos que decidi enquadrar, esses que representam sentimentos, percepções, observações sobre o que me circunda, sejam momentos que admiramos ou que recusamos”.

Quando começou?

“Aos 16 anos comecei a fotografar em minha cidade natal, Fort Wayne, e soube que com a câmera podia falar às pessoas e dava-me a possibilidade de comunicar meus sentimentos. Compreendi logo que a câmera dá um poder, porque lhe dá uma voz e também dá voz aos que nem sempre são escutados”.

Estudos? “Nunca estudei fotografia (formado da Universidade de Michigan, da Sorbonne, e do Instituto de Estudos Políticos de Paris). Fui a Paris, em 1978, e comecei com cenas das ruas. Em 1981, fui assistente de Robert Doisneau (outro vulto da fotografia, integrante da chamada escola francesa da fotografia humanista). O trabalho de Cartier-Bresson (considerado o pai do jornalismo fotográfico) me inspirou. Ele afirmava que mais do que manejar a técnica o importante é conhecer a condição humana, a história, a arte”.

Que o atrai ao fotografar?

“O que mais me interessou no mundo é ver as semelhanças que há entre todos os homens. Não sou um grande crente nas fronteiras, penso que nós somos uma grande família, a humanidade. O pior para mim? A ignorância que dá passagem à intolerância”.

Momentos mais significativos?

“A queda do muro de Berlim, o fim da URSS, estar presente em Nova York, em 11 de setembro de 2001 e fotografar o que agora se conhece como Ground Zero e os destroços causados pelo furacão Katrina, em Nova Orleans. O mais belo foi ver Nelson Mandela sair do cárcere, após 27 anos e o fim da apartheid”.

O senhor declarou seu amor por Cuba…

“Provenho de uma família progressista. Na década de 1960 os jovens de todo o mundo começaram a questionar a autoridade, por exemplo, na França e em meu país marchavam contra a guerra do Vietnã e pelos direitos civis. Quando vim a Cuba pela primeira vez, em 1989, na viagem de Gorbachev, vi uma sociedade que em muitas maneiras dava resposta ao que muitos sonhavam. Quando viajo tenho a necessidade de dizer a verdade, o que vejo. Aqui o que vi imediatamente foi um país e um povo de grande graça, dignidade, espírito e humanidade maravilhosa. Desde então retornei mais de 30 vezes. Esta exposição é uma das maiores honras de minha vida. É muito importante para mim estar aqui em Cuba, neste momento histórico”.

Objetividade?

“Esta palavra não sei que significa. Quando aperto o obturador é uma decisão que tomo. Mas sim sei o que é a honestidade. Descarto o folclorista e turístico para fazer uma imersão no inefável, no autêntico. Eu faço o que sinto correto em meu coração”.

O fotorrepórter hoje?

A profissão de fotorrepórter mudou, sobretudo, com a chegada da época digital. Antes havia que retornar com a foto. Agora em 30 segundos pode mandar, por exemplo, uma foto do Afeganistão aos Estados Unidos. Mudou muito a dinâmica. Não o vejo como algo negativo. A Internet democratizou a imagem, e isto é positivo se aceita que a fotografia é sobre compartilhar.

Peter Turnley mostrou em Havana seus Momentos da condição humana e há alguns meses publicou o livro Cuba: A Grace of the Spirit (Cuba: a graça do Espírito), 130 fotos tomadas nesses mais de 30 anos de visitas à Ilha. Sua declaração de amor.