ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA

Os especialistas e os amadores desta manifestação artística não hesitam em qualificar de potente o jazz cubano de hoje, tanto em número como na qualidade de suas propostas.

Á valiosa história musical temos então que somar que esses jovens jazzistas contam com uma rigorosa e esmerada preparação musical graças à existência das escolas de arte em Cuba, que chegam até o nível acadêmico.

Deve saber-se, na academia não se estuda jazz, mas oferece todas as ferramentas musicais e o domínio dos instrumentos.

Os jovens contam também com a experiência do Festival Internacional Jazz Plaza (desde 1980) no qual participaram figuras mundiais, como Dizzy Gillespie e Wynton Marsalis e o concurso Jojazz (desde 1998, dedicado a intérpretes e compositores menores de 30 anos).

É uma certeza o bom momento que vive o jazz cubano, o mais livre dos gêneros musicais. Seguindo os passos à cena jazzística em Havana, pode-se chegar ao centenário Hotel Sevilla, onde o grupo Gala Mayor criou uma sorte de pequeno empório em que buscam marcar a diferença com suas criações.

Liderado pelo percussionista Alejandro Mayor (Havana, 1977) formado do Instituto Superior de Arte, têm — disse em entrevista com esta publicação — um lei motiv: aceitar todos os desafios.

Gala Mayor, criado em 2003, foi desde um trio até converter-se em uma big band para acompanhar, em 2009, o Festival Internacional de Circo. “Fizemos os arranjos para cada ato do circo. Tivemos muito que improvisar”, afirma.

Hoje, mantêm a célula tradicional, mínima, três músicos (piano, baixo e percussão) e uma cantora, o que sem dúvidas fala de versatilidade, das possibilidades que tem em nível interpretativo e a soltura com a qual podem mover-se entre os diversos gêneros e estilos.

Com certeza por isso se consideram a si próprios como “um grupo de jazzistas, que tem uma posição muito aberta e flexível perante a música”. Para exemplificar essa flexibilidade, Alejandro Mayor desfia seu já amplo repertório, que mantém equilibrado — apontou — em quatro vertentes.

O primeiro repertório, naturalmente é de Jazz.

“Temos um laboratório extenso de temas onde escolher e fazer, com quase todos os gêneros da música cubana, por exemplo, misturamos o nengón, uma das variantes do changui, com um guaguancó, quanto ao formal, com uma base de blues. Chama-se Tumbao nengón, que é um dos últimos temas que gravamos”.

“Passamos por quanto ritmo há na música ioruba, popular, do complexo do son. Sempre com as influências jazzística, e estando muito claros do que estamos fazendo em termos formais, com as harmonias, com as estruturas, com os formatos”, explica.

Entre alguns desses temas que mostram em seu Clube do Hotel Sevilla, justo no Prado havanês, estão En apuros e Oshun (Alejandro Mayor); Claudia (Chucho Valdés); They can’t take that away from me e Summer Time (George & Ira Gershwin); So what (Herbie Hankook) e When I fall in love (Edward Heyman & Victor Young).

Gala Mayor perfilou um repertório de Música popular para dançar “a partir do domínio dos elementos básicos dos diversos gêneros da música cubana”, incluindo temas como El Diablo Tun Tun, de Bienvenido Julián Gutiérrez; La Guarapachanga, de Félix Chapotín; Que viene hablando La Habana, de Alejandro Mayor, e Son al son, de Cesar Portillo de la Luz.

O grupo toca também boleros, canções e baladas, porque “tive a sorte de trabalhar diretamente com César Portillo de la Luz, Marta Valdés e César Vergara. Davam-me a música e supervisionavam meus arranjos em função de atingir uma identidade. Isso me permitiu perfilar um repertório delicioso de temas que levavam a música do filin a formato clássico de jazz, com a voz feminina, que marcou a história de nossa música”, aponta.

Desses temas destacou Interludio, de César Portillo de la Luz; Convergencias, de Bienvenido Julián Gutiérrez; Palabras, de Martha Valdés; Rabo de Nube, de Silvio Rodríguez; Sina, de Djavan, e Regálame esta noche, de Chelo Velásquez.

Para o quarto repertório — afirmou Alejandro Mayor — com prazer compilamos música Funky, “que sempre foi afim à música cubana. Surge como uma resposta ao rock and roll, gênero que deriva do blues. Os negros norte-americanos não se identificavam com o rock and roll para dançar. O funky é um fenômeno urbano desenvolvido em resposta à necessidade de ter uma música para dançar”.

Incluímos aqui — continuou — temas clássicos das décadas de 1970, 1980 e 1990, de autores e intérpretes como Steve Wonder, Lionel Richie, Cool & the Gang e Michael Jackson.

Dos arranjos à composição?

“Aprendi muito a música de outros e pensava que tinha que contribuir. Como disse, com o grupo comecei a fazer os arranjos e depois acrescentei composições minhas. Nos temas eu gosto de combinar uma introdução interessante que é o primeiro que tem que cativar o público, e depois o fator surpresa. Afinal, um arranjo é uma composição nova”.

De que gosta na percussão?

“O set de percussão, porque é diverso e aberto, combina muitos instrumentos, bongô, pratos, tem que fazê-los harmonizar numa só sonoridade”.

O jazz?

“Porque é onde há mais liberdade e tem um grande poder para transmitir e esse é nosso firme propósito: conseguir transmitir”.

Assim o demonstram no Clube dominical do hotel Sevilla. “Partimos de um clube de jazz, mas o discurso é plural. Meu grupo não está todo o tempo. Cada mês um convidado diferente. Tem muitos grupos em Cuba com boas propostas e ideias”.

Além de Gala Mayor, ali se apresentaram: Lázaro Valdés, Luz de Habana, Sule Guerra, Michel Herrera, Leyanis Valdés, Emilio Morales, Emilio Martín e Eduardo Sandoval.

Gala Mayor volta ao hotel Sevilla no próximo mês de abril para comemorar o aniversário do Clube e o Dia internacional do Jazz (30 de abril).

O jazz em Cuba tem um alto nível de qualidade e em sua inesgotável riqueza de improvisação e variação, os jovens vão marcando um caminho de excelência. Gala Mayor vai incluindo-se nessa galáxia.