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Talvez uma das últimas ocasiões em que Carlos Acosta dance Diana e Acteón. Aqui vai acompanhado de Laura Rodríguez

CARLOS Acosta, um dos maiores dançarinos do mundo, esperou o mês de abril para apresentar sua nova companhia, Acosta Danza. Durante a estreia mostrou um programa contemporâneo e neste momento enfrentou um segundo tour de force: a seleção clássica.

Nestas páginas já comentamos a estreia mundial da companhia e naquela ocasião lamentamos que o carismático dançarino ficasse nos bastidores. Agora, no espetáculo “clássico”, na sala Lorca, do Grande Teatro de Havana Alicia Alonso, foi absolutamente generoso, saiu três vezes ao palco, provocando uma reação do público correspondente e, em algum momento, desmedida. Claramente, o público tinha ido vê-lo dançar, e ele não o defraudou, com sua arte e técnica formidável.

O programa foi concebido por Acosta “como um espetáculo íntegro, que reúne peças de balés de diferentes épocas e estilos”. Já o tinha apresentado no Londres Coliseum, em dezembro do ano 2015, utilizando como base seu próprio espetáculo, com o qual começou sua despedida do balé clássico, intitulado Carlos Acosta and Guest, propostaque no ano 2006 obteve o prêmio Laurence Olivier.

Dividido em duas partes, a primeira parte apresenta pas de deux e peças das mais famosas do mundo clássico, seguida, após o intermezzo, de outras mais próximas no tempo.

Ele manteve a ideia inicial, o palco escuro, os dançarinos chegam a uma sorte de ensaio, falando, exercitando os músculos antes da função. Isso se mantém ao longo da noite, entre as obras.

A gala começou com o pas de deux do segundo ato de O Lago dos Cisnes,um dos de mais elevado lirismo, entre Odette, a princesa convertida em um cisne branco e o príncipe Sigfried.

Muito conhecido como o Ato Branco, foi interpretado por Gabriela Lugo (que chega a Acosta Danza vinda do Balé Nacional de Cuba–BNC, e Enrique Corrales).

A segunda proposta foi o conhecido pas de deux do segundo ato de A Sílfide (ou A Sílfide e o escocês), do coreógrafo August Bournonville, assumida com limpeza por Leticia Silva e Alejandro Silva (ambos igualmente do BNC).

De Winter Dreams, o maravilhoso balé em um ato de Kenneth MacMillan, inspirado em As três irmãs, de Tchekhov e com música de Tchaikovski, desfrutou-se o pas de deux Farewell, pelos inspirados dançarinos Ely Regina e Luis Valle (também procedentes do BNC).

A famosa Morte do Cisne, pequena coreografia de Michel Fokine para Anna Pavlova, com música de Camille Saint-Saëns, foi valentemente interpretada por Gabriela e Lugo.

Só uns compassos e os fãs do ballet reconheceram a entrada de Diana e Acteón, esse dueto de Agrippina Vagánova que permite uma exibição de brilhante técnica. Carlos Acosta mostrou sua bela pose em pleno ar, seus centros, sua rapidez. Ainda em total forma, Laura Rodrigues (das fileiras do Balé de Camaguey) foi uma sutil Diana.

É preciso dizer que a superlotada Sala Lorca expressou sua aprovação na execução de cada peça, com ovações e bater de mãos, em geral bem adjudicados.

Depois do intermezzo chegaria End of Time, do mundialmente famoso coreógrafo Ben Stevenson, com música de Serguei Rachmaninov. É um pas de deux criado por Stevenson, em 1984, para o concurso internacional de balé de Japão, com o qual obteve a medalha de ouro.

O coreógrafo explicou que com End of Time quis mostrar seus sentimentos acerca de um possível mundo devastado, no qual só permanecem duas pessoas. Inspirou-se no filme de Stanley Kramer On The Beach,comGregory Peck e Ava Gardner. Neste balé as personagens foram assumidas, com emoção e precisão, por Deborah Sánchez (chegada do BNC) e Enrique Corrales.

Uma pitada de sensualidade levou à cena a peça A Buenos Aires,coreografia do argentino Gustavo Mollajolli, em relação à Primavera Portena, de Astor Piazzolla. Esta obra foi estreada pelo grande dançarino Julio Bocca, acompanhado de sua conterrânea Raquel Rossetti, outra importante figura, no Festival Internacional de Balé de Moscou, onde Bocca ganhou a medalha de ouro. Em Havana, este tango de Piazzolla foi dançado com prazer por Leticia Silva e Alejandro Silva.

Ainda dançava Ely Regina a peça de Ben Van Cauwenbergh Je ne regrette rien, tendo como fundo avoz da imortal Édith Piaf, quando Acosta entrou no palco, ainda mais bêbedo e cômico, executando o solo Les Bourgeois, extraído do balé homônimo, também de Van Cauwenbergh, desta vez a partir da música de Jacques Brel. Acosta, simplesmente, continua sendo impressionante.

A função continuou com Carmen (pas de deux), coreografia do próprio Acosta, interpretada, tal como na estreia, por Laura Treto e Luis Valle, seguida da estreia mundial de Anandromus, do coreógrafo cubano Raúl Reinoso, quem, tal como na botânica, tende para cima ou tal como na zoologia, remonta para sobreviver. Uma peça excelente e a intérprete foi novamente Gabriela Lugo.

O final foi com o divertimento Majísismo,um contraponto entre ares hispânicos e a técnica do balé clássico, originalmente criada para o Balé Nacional de Cuba por Jorge García, quem lançou mão das cenas do balé da ópera El Cid, de Massenet (Catalã, Aragonesa, Andaluza, Aubade e Navarra).

Quatro duetos: Laura Rodríguez-Carlos Acosta; Deborah Sánchez-Luis Valle; Leticia Silva-Alejandro Silva, e Ely Regina-Enrique Corrales, conseguiram a ovação.

No final, eles todos voltaram para essa espécie de espaço preparatório da saída ao palco, onde começou a função, e apropriadamente, Acosta é o último a sair.

Dessa forma, o dançarino estrela adverte, mais uma vez, que se despede do balé clássico, após uma incrível carreira na qual interpretou os papéis mais icônicos, incluindo o príncipe Siegfried de O lago dos Cisnes; Basílio no Dom Quixote; o príncipe de Quebra-nozes e o fortíssimo Espartacus,do balé homônimo.

Agora quer deixar, por enquanto, outra herança, uma companhia de balé clássico e contemporâneo: Acosta Danza.

Ele pode já estar na casa dos primeiros quarenta anos, mas sua técnica, seu carisma, sua sedução, sua arte, fazem com que Carlos Acosta brilhe acima de todos no palco. Não debalde todos gostariam de dizer “Eu vi dançar Carlos Acosta”.