ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Foto: Cortesia Centro Pablo

MUITOS são os caminhos, as histórias que o Centro Cultural Pablo de la Torriente Braupercorreu em duas décadas de existência. Breve, como vôo de pássaro, sínteses, não são os termos costumeiros que poderiam ser empregados agora, porque na rua Muralla, número 63, sua sede no mesmo coração da Havana colonial, aqueles que chegaram nesses anos para cantar, pintar, informar, como diria um trovador, sempre ficam ali.  

As razões para ir esta vez ao Centro, como familiarmente o chamamos, são diversas. Em 19 de dezembro próximo se completa o 80º aniversário da morte em combate, em Majadahonda, Espanha, de Pablo de la Torriente Brau; comemorou-se no passado mês de abril a vitória de Playa Girón, há 55 anos, e o diretor do Centro, Víctor Casaus, é o autor de um livro clássico do testemunho latino-americano Girón en la memoria, e em terceiro lugar, no ano todo comemoramos duas décadas da fundação deste espaço já primordial para a cultura cubana.

PABLO NA MEMÓRIA

Pablo de la Torriente Brau (San Juan de Porto Rico, 1901-Majadahonda, 1936) é uma das figuras mais representativas do jornalismo cubano no século 20 e, precisamente, sua obra jornalística é antecedente formidável do gênero testemunhal, embora sua caneta fosse mais além.

Foi um revolucionário consequente com sua época. Publicou seu primeiro livro de contos: Batey, em 1930 e depois chegariam, entre outros, um grupo de artigos intitulados 105 días preso; La isla de los 500 asesinatos, uma série de treze artigos que publicou no jornal Ahora e que serviu de base, posteriormente, para escrever seu livro Presidio Modelo e Tierra o Sangre, em 1933, série de reportagens onde denuncia os abusos cometidos contra os camponeses.

A editora Memoria começou com a coleção Palabras de Pablo. Foto: Cortesia Centro Pablo

Viajou à Espanha, em 1936, quando foi constituída a República e em 11 de novembro foi nomeado comissário de guerra e membro do Estado Maior do batalhão 109º, da Sétima divisão. Na semana seguinte entrou em Madri. Em 28 de novembro teve um encontro com o poeta Miguel Hernández. Em 17 de dezembro recebeu a ordem de ir para Majadahonda, onde morreu de um disparo no peito, em 19 de dezembro. Após cair a República, seus restos foram exumados por um cubano que se retirava e nunca mais foram localizados.

O poeta Miguel Hernández lhe tinha dedicado sua Elegía segunda (a Pablo de la Torriente, comisario político), com proféticos versos:

“Eu ficarei na Espanha, companheiro”/você me disse com gesto enamorado./ E finalmente sem seu prédio trepidante de guerreiro/ na erva de Espanha você ficou.  

O Centro que leva seu nome, desde 1996, custodia o Fundo Documental Pablo de la Torriente Brau que contém, segundo disse a esta publicação seu diretor, Víctor Casaus, “a maior informação reunida acerca da vida e obra do grande jornalista e escritor cubano. Reúne documentos originais, cartas, fotos e bibliografia ativa e passiva”.

Precisou que se trata de “uma doação feita por Zoe e Ruth de la Torriente Brau, duas de suas irmãs, que inclui os materiais reunidos por elas durante mais de 60 anos, sem dúvida o mais importante arquivo de documentos e fotos relacionados com a vida e obra de Pablo; além dos documentos e imagens que reuniram vários estudiosos de sua obra em suas pesquisas feitas em Cuba, os Estados Unidos, Porto Rico e a Espanha”.  

Ao longo destes anos, o Centro publicou vários títulos da obra de Pablo, entre eles Cuentos Completos, Cartas y crónicas de España, Aventuras del soldado desconocido cubano, Presidio Modelo, Testimonios y reportajes, Álgebra y política, Arriba muchachos!, Narrativa e Cartas cruzadas.

VINTE ANOS DE SONHOS, ESFORÇOS E REALIZAÇÕES

Pedimos a Víctor, poeta e cineasta e desde há 20 anos promotor cultural, algumas precisões acerca da criação e desenvolvimento do Centro.

“O Centrofoi fundado em 1996, para conservar e promover a memória literária vital e revolucionária de Pablo de la Torriente de la Brau e de sua formidável geração. Depois, foi acrescentando, na medida em que os recursos e os sonhos o permitiam e o exigiam, outras áreas de trabalho cultural, unidas em suas aparentes diferenças pela presença constante e ressoante da memória, expressa, através da nova trova cubana, a arte digital, a literatura testemunhal, o design gráfico, a criação audiovisual, as publicações e a imprensa, a comunicação radiofônica, as ferramentas digitais, imprescindíveis hoje, cada vez mais, em nossa sociedade. A criação real do Centro foi possível, em boa medida, graças ao apoio de nosso amigo Abel Prieto, então presidente da União dos Escritores e Artistas de Cuba (Uneac)”.

Poeta, cineasta, escritor, Víctor Casaus rege o Centro Pablo desde sua fundação, em 1996. Foto: Cortesia Centro Pablo

A lista de co-fundadores e inspiradores inclui Raúl Roa e as irmãs de Pablo, e um grupo de amigos entre eles Eduardo Galeano, Juan Gelman, Mario Benedetti, Ernesto Cardenal, Roberto Fernández Retamar, Luis Eduardo Aute e Silvio Rodríguez.

Não poderia deixar de falar de nosso amigo o Historiador da Cidade. Eusébio Leal Spengler. Uma manhã do ano 1997, durante a etapa nômade de nosso Centro, já fundado, levou-me, entre as pedras da Havana Velha que ele ensinou a preservar e a enriquecer culturalmente, até a fachada do prédio reconstruído recentemente, na rua Muralla No 63, cujas instalações compartilhamos, a partir desse momento, com uma das instituições do programa cultural do Gabinete do Historiador: a Casa da Poesia.               

NO PÁTIO DAS YAGRUMAS

Havana conta com um verdadeiro reduto para os trovadores: o pátio das Yagrumas, da sede do Centro Pablo. Nesse espaço, os artistas e o público vão desfrutar da música que faz pensar e sonhar, desde novembro de 1998, quando o espetáculo intitulado A Guitarra limpia começou com um memorável concerto de Santiago Feliú.

Os fundadores e continuadores, Víctor, a coordenadora do espaço, María Santucho e o engenheiro de som Jaime Canfux, para que essa arte não fosse levada pela brisa marinha, se empenharam desde o primeiro momento em gravar esses concertos, em fitas cassetes e agora em CDs.

Já são mais de 170 concertos e mais de 80 CDs nascidos deles. Recentemente, o Festival Cubadisco 2016 outorgou o Prêmio Especial precisamente à formidável Coleção-antologia (cinco CDs) de A Guitarra limpia.

Ao apresentar o prêmio, em 18 de maio, no salão Arcos de Cristal, da boate Tropicana, o diretor do Cubadisco Jorge Gómez, disse que o Centro Pablo “começou, há 15 anos, apresentando trovadores jovens e os foi gravando um a um e fazendo tiragens em fitas cassetes, em CDs, como quem diz artesanais. Hoje, essa obra é um dos mais impressionantes documentos (ou devo dizer monumento?) à nova trova em nosso país”.

Esclarecemos a Víctor que o Centro vê o disco como objeto cultural, portanto não estamos falando de mercado…

“Exatamente, essa é nossa projeção, nossa vocação. Ter um lugar que abre caminhos em várias direções, que promove a obra dos criadores em várias esferas, com ênfase nos jovens, como é o caso da trova, e tentando e conseguindo, felizmente até agora, que o que predomine não seja o sentido comercial mas sim o sentido cultural”.    

“Um amigo nos dizia brincando, quando soube que os travadores veem aqui e dão um concerto e não cobram e nós não cobramos a entrada, para que venham as pessoas, que depois gravamos os CDs, e precariamente recuperamos o que foi investido, em uma época em que esses não são os mecanismos que imperam, este amigo nos dizia: vocês são uma espécie em extinção, e eu dizia: queremos ser mais bem uma espécie em extensão; tomara que seja assim”.

EDICIONES LA MEMÓRIA

A antologia A guitarra limpia recebeu um Prêmio Especial no Cubadisco 2016. Foto: Cortesia Centro Pablo

O Centro Pablo não é empresa de gravações e grava, tampouco é casa editora mas publica. ”Criamos o selo Ediciones La Memoria — precisa Víctor — há quase duas décadas, para tentar preservar a memória. Temos mais de 80 títulos. São livros nos que procuramos misturar a beleza da apresentação de cada título com a profundeza e o interesse dos diversos temas que abordam. A dezena de coleções que integram nosso catálogo editorial reflete uma diversidade: o testemunho, as artes plásticas, os estudos acerca da nova trova cubana ou a cultura popular da Ilha, o teatro, a poesia, o design gráfico. A coleção com a que começou e que foi o impulso inicial de seu desenvolvimento – Palabras de Pablo – tem vindo a publicar suas obras completas”.           

Na Feira do livro do passado mês de fevereiro, por exemplo, foi lançado o livro Pablo: imagen de una vida, realizado pelo crítico e professor Jorge R. Bermúdez, em relação à iconografia do herói de Majadahonda, que o Centro Pablopromoveu através da fotografia, o pôster, a arte digital, a canção e o documentário, ao longo destes 20 anos.     

Também foi publicado o Cuaderno Memoria e desde 1996 foram publicados mais de trinta números, os melhores inventários dos concertos A Guitarra limpia e dos salões e colóquios da Arte Digital (mais de dez salões, organizados a partir do ano 1999). Em meio das atividades deste 20º aniversário, viu a luz o mais recente Cuaderno Memoria, uma pequena antologia de A guitarra limpia, entre os anos 2013 e 2015.    

COM GIRÓN NA MEMÓRIA

Voltar (Gardel está muito presente pelo muito aludido “20 anos não é nada...”) a Víctor Casaus (Havana, 1944) é imprescindível, devido a seu livro Girón na memória, primeira menção no Prêmio Casa das Américas 1970, um texto que serve de referência e que foi publicado novamente, por ocasião de se comemorar, em 2016, o 55º aniversário da vitória de Playa Girón.

Em cindo capítulos, dedicados às lutas acontecidas dia a dia, entre 15 e 19 de abril de 1961, através de entrevistas, documentos, fotografias, são reconstruídos, apresentados à maneira de uma obra cinematográfica, os elementos essenciais para conhecer, entender, valorizar a dimensão de tão relevante acontecimento histórico.            

Raúl Roa, conhecido como o Chanceler da Dignidade, membro do júri do Prêmio Casa que reconheceu esse texto, assegurou: “é evidentemente um livro excelente, é uma ovação vívida, plástica, muito conseguida, do episódio de Girón e, ao mesmo tempo, do ponto de vista técnico, constitui algo exemplar”.       

Ainda restam aspectos a serem tratados. O poeta que é Víctor ofereceu, com a cantora e autora andaluza Lucía Socam, no passado mês de fevereiro, na sala Che Guevara, da Casa das Américas, o recital Amar sin papeles, que toma o nome de seu livro de poemas, cujos textos foram musicados por Sócam.

Quem melhor que o poeta Juan Gelman para comentar a antologia poética e que, aliás, consegue explicar o veemente trabalho cultural realizado pelo Centro? Diz na Increpación a Víctor Casaus, contida em Amar sin papeles: “Escute, como se atreve? Vivemos em uma época aterradora e o senhor aparece com poemas de amor. O que pretende? Fazemos pensar que o ser humano ainda é humano? Que a gente se pode deitar em lençóis de luz? Que há beleza nas talhaduras da sombra? Que uma brancura parece indestrutível, ao simples olhar/ (...) O senhor conhece a latitude da palavra aventureira. Que seja duradoura”.

O Centro Pablo “é um lugar onde não é proibido sonhar e onde os sonhos têm a possibilidade de tornar-se cultura e, sobretudo, em atos de criação. E isso já é uma façanha, quase um milagre”, afirma Eduardo Heras León, Prêmio Nacional de Literatura 2014, em uma saudação à instituição, pelo ensejo dos seus 20 anos.

O maestro Leo Brouwer, Prêmio Nacional de Música 1999 e de cinema 2009, também o distingue: “O amor que se respira nesse gostoso templo de vinte anos é mais do que brincadeira, é uma criação perpétua... Víctor Casaus se torna humilde e transparente, sem usar para ele semelhante recinto de luz, aberto para aqueles que sonham acordados com a poesia e o canto... Parabéns para todos aqueles que junto a Víctor mantêm viva a ilusão da beleza compartilhada: Pablo respira tranquilo. Sente-se vivo!”

O Centro Pablo está completando seus primeiros e frutíferos 20 anos inspirados — precisou seu diretor — na imagem jovem, comprometida e alegre de Pablo de la Torriente Brau.