
ROSARIO Cárdenas (Havana, 1953) se arrisca de novo e surpreende com um espetáculo novo para comemorar o poeta, romancista e ensaísta cubano José Lezama Lima (Havana, 1912-1976), uma das grandes figuras da literatura insular, no cinquentenário da publicação de sua obra Paradiso.
Para fechar o Festival Habanarte (8-18 de setembro), a Prêmio Nacional de Dança 2013,uma das principais criadoras da cena coreográfica cubana de hoje, apresentou (16, 17 e 18 de setembro) no Teatro Mella, Antologia da Dança, Lezama Lima na obra de Rosario Cárdenas.
Se bem Antologia…leva à ideia de agrupar peças já vistas, neste caso a Cárdenas mostra mais uma vez no palco seu talento. Por espaço de quase duas horas, sua Companhia presenteia aos espectadores, além dos trechos de algumas de suas peças, um novo panorama destas, onde a luz funciona fluentemente como transição entre os quadros selecionados junto a uma simplificada cenografia.
O currículo coreográfico da Cárdenas, mais de 90 títulos, assinala o caminho de suas propostas onde confluem, combina, a dança, a poesia, a música, as artes plásticas, em peças que tem sido e, por fortuna, são, muito discutidas.
Pense em alguns títulos: En fragmentos a su imán (1990); Noctario (1994); María Viván (1997); Combinatoria en Guaguancó (2002); Dador (2001); Ouroboros (2003); La Stravaganza (2006); Confutati, Homenaje a Mozart (2006); Zona-Cuerpo (2010) ou Tributo a El Monte, homenagem a Lydia Cabrera (2013).
Entre essas peças ressalta precisamente o nome de Lezama Lima: Dador, uma obra de dança descomunal inspirada no texto homônimo de 1960, e En fragmentos a su imán (a partir do poemário publicado postumamente em 1978 intitulado Fragmentos a su imán).
Em múltiplas entrevistas, a coreógrafa expressou que se começou a aproximar de Lezama Lima precisamente com uma primeira leitura de Dador e continuou com o estudo de Paradiso; de Oppiano Licario (romance incompleto de 1977); de seus ensaios (reunidos mormente sob o título La expresión americana, e La cantidad hechizada); de sua Poesia; de suas cartas e de pesquisas sobre sua obra.
É assim que em 1990 estreou Fragmentos a su imán e em 2001 teve aousadia de fazer Dadorem dança.
Para chegar a esse topo, a membro do Conselho Internacional da Dança (CID) da Unesco, percorreu um caminho bem-sucedido que devemos compartilhar ainda sucintamente. Pertencente à primeira geração de dançarinos da Escola Nacional de Arte, entrou em 1980 em Dança Contemporânea, onde também se adentra na coreografia e criou, por exemplo, Dédalo, Imago, Grifo, Germinal, El ángel interior e Canción de cuna, que ainda fazem parte do repertório dessa companhia, que hoje dirige o maestro Miguel Iglesias.
“A necessidade de projetar o espetáculo desde outra dimensão, desde outro olhar” — e a cito — levam-na a fundar em 1990 sua própria companhia que não se teria podido chamar de outra maneira senão Dança Combinatória, a a qual desde 2003 precede seu nome.
É que combinação é a chave de seu estilo, de sua técnica do movimento, seu método, e já sua escola. Trata-se de um sistema no qual a Cárdenas se apoia nada menos que na teoria combinatória das Matemáticas, e soma — explicou — os conceitos do Sistema Poético de Lezama Lima e o movimento cotidiano, transferidos todos à linguagem da dança.
“Minha dança é combinatória e uma maneira de fazer. Criei-o, trabalhei-o e desenvolvi-o a minha maneira. A Combinatória é a estética da companhia, é minha estética. Sobre esta maneira de criar e fazer edificar meu método, minha linguagem e poética”.
Entre os trechos incluídos agora na Antología… se contam as peças Ouroborus, El ascenso, Combinatoria en guaguancó, María Viván (todo um clássico sobre o poema homônimo de Virgilio Piñera), Cuidadito Compay Gallo, Dador, Canción de cuna, Tributo a El Monte, Dédalo e, desde o vídeo-dança, uma de suas peças chaves,Noctario(uma concordância entre Nocturno e Rosario, interpretado pela própria coreógrafa em sua estreia em 1994).
Só Dador remite especificamente a Lezama, mas, não está, como a própria Cárdenas confessou, o sistema poético do autor de Paradiso em sua teoria combinatória, diga-se então em todas suas coreografias? Assim fica muito claramente o título do atual espetáculo: Antologia da Dança, Lezama Lima na obra de Rosario Cárdenas.
Foi a propósito do cinquentenário de Paradiso que Rosario Cárdenas estruturou esta Antologia… e, tal qual assinala o pesquisador e crítico Roberto Pérez León no programa de mão, “Em pouco mais de uma hora temos uma antologia de dança… a partir da combinação de estruturas coreográficas correspondentes a peças que desde suas estreias revelaram uma particular maneira de fazer dança entre nós. Esta é o resultado de uma invenção de dança que teve entre seus orçamentos teóricos a invenção literária de um dos cubanos que escreveu para o futuro”.
Comemorar cinco décadas de Paradiso era um fato ineludível. Não só é o primeiro romance de Lezama Lima, e a única que publicou em vida, mas está considerada sua obra-mestra e um dos romances mais importantes e inovadoras em língua espanhola. Nela também se aprecia seu sistema poético, apropriado por Rosario Cárdenas para a dança.
Ao chegar a minha maturidade — respondeu Lezama Lima em uma entrevista — foi fazendo-se em mim o sistema poético do mundo, uma conceição da vida fundamental na imagem e na metáfora.
Imagem e metáfora, duas chaves que aludem igualmente à obra da coreógrafa, essa de personalíssimo selo que desafia ao espectador e graças a este presente que é Antologia da Dança, Lezama Lima na obra de Rosario Cárdenas, pudemos desfrutar trechos de algumas dessas encenações que foram sucessos artísticos. E agora o consegue de novo com Antologia… um espetáculo visual impressionante.




