ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
O maestro Leo Brouwer (perante o microfone) na entrevista coletiva inicial do Festival Contratenores, no tablado do Grande Teatro de Havana Alicia Alonso. Foto: Mireya Castañeda.

QUATRO contratenores de fama internacional sorriram tolerantemente quando escutaram a frase “homens com vozes femininas”, em um encontro com a imprensa, com motivo do Primeiro Festival Contratenores do Mundo (desde 30 de setembro até 8 de outubro) convocado pelo maestro Leo Brouwer.

O espanhol Xavier Sabata (concerto Con che suavitá); o italiano Riccardo Angelo Strano (Héroes y amantes); o canadense Daniel Taylor (Handel love duets) e o polaco Artur Stefanowicz (Mozart & Porpora, il delirio), horas antes de seu concerto respectivos, tiveram esse critério.

Sabata explicou que “alguns ainda têm essa ideia, mas não é assim. Trata–se e uma qualidade vocal, a tessitura mais aguda, e este Festival é um reconhecimento dela”.

Essa falsa ideia — assinalou Strano — significa que ainda temos que impor-nos no ramo da música. “E por isso é tão importante este Festival único no mundo, concebido um talento como o maestro Brouwer”.

Referindo-se ao Festival, o canadense Daniel Taylor confessou que tinha pensado “que teria umas férias em Havana, mas ao ver os nomes de meus colegas participantes eu fiquei espantado. Em uma época com tantas diferenças e pouca inclusão, o fato de que possamos estar aqui pelo convite do maestro Brouwer, torna este momento belo”.

UM À PARTE COM STEFANOWICZ

Ao finalizar a entrevista coletiva, esta publicação teve um breve diálogo com o contratenor Artur Stefanowicz, quem possui uma extraordinária carreira, há mais de 20 anos, em palcos internacionais.

Depois de estudar na Academia Chopin de Varsóvia, começou a cantar fora de seu país de nascimento, Polônia, em Paris, no Théâtre du Châtelet; Berlim na Deutschen Staatsoper; Londres, na English National Opera, e na New York City Opera.

Tem um amplo repertório, com uma especialização em Mozart, que inclui Monteverdi, Scarlatti, Stravinsky, Pergolesi, Vivaldi, Handel e Porpora.

No Festival ofereceu um concerto no Teatro Martí (no dia 1 de outubro), acompanhado de integrantes da Orquestra Sinfônica do Instituto Superior da Arte (ISA) adstrita ao Liceum Mozartiano de Havana,intitulado Mozart & Porpora, il delirio, o reino do barroco, o repertório mais integral com respeito à voz de contratenor.

Um programa do século 17 e 18…

“Este programa me foi pedido pelo maestro Brouwer, trazer algo de Mozart e Porpora menos conhecido. Era algo óbvio para mim. Mozart foi meu primeiro disco, há mais de 25 anos e Porpora é um dos últimos que tenho gravado, portanto para mim é uma magnífica mistura. Uma programação que fecha com Mozart no início e Porpora no final. Devo dizer que realmente estou concluindo minha carreira. Sou o mais ‘idoso’ aqui”.

Idade perante a voz?

“As duas vão juntas, vou-me tornando mais velho e a voz também. É preciso escolher melhor o que vou ou posso cantar. É uma decisão que é preciso encarar”.

Por que começou sua carreira com Mozart?

“Venho da Polônia, onde o período barroco quase não existia, e tinha que procurar o apropriado para minha voz. Em 1987 eu era ainda estudante e o contratenor alemão Kowalski gravou árias de Mozart e me fascinou ouvi-lo, uma técnica e voz totalmente diferente de contratenores anteriores, como Bowman ou Esswood, cujo som era parecido com a voz da mulher no falsete. E em segundo lugar me deparei com uma convocatória para o Concurso Internacional Mozart de Viena (1990) onde se procurava contratenores. Foi uma grande convocatória e se fez uma travessia por toda a carreira de Mozart e por acaso venci o concurso. Acho que foi por acaso. E depois tive a proposta de gravar o CD e assim comecei. É por isso Mozart. Minha voz é apropriada para este tipo de música”.

Mozart escreveu para os castratos…

“Certo. Para a voz castrato que é semelhante da de contratenor. O mais famoso foi Carlo Broschi, chamado Farinelli (1705-1782). Nós agora não estamos castrados, utilizamos a técnica para cantar como os castratos em seu tempo. A categoria é a mesma. Porém, é difícil falar de semelhanças porque ninguém tem escutado agora um castrato, há um enorme vazio na história da música. Já no século 19 os castratos não existiam. É difícil dizer como sonhavam, mas olhando as partituras, a música, a senhora pode dizer que o que fazemos agora é semelhante a como ele sonhavam”.

Volto ao início. Na palestra de imprensa todos sorriram quando se falou de voz de mulher no corpo dos homens...

“Sim, é difícil para quem nunca tenha escutado um contratenor. Caso fechar os olhos o som é parecido com a voz da mulher, é o mais próximo da voz feminina. Agora, no mundo, somos reconhecidos como vozes de homens, por isso temos lutado, é muito importante. Faço-lhe uma anedota. Lembro meu pai, que era marinheiro. Nunca me tinha escutado. Voltou à casa um dia e eu lhe pus um disco e ele disse: ‘não é você, tem que ser uma mulher’. Eu lhe disse: sou eu, sim. É normal, por isso ficamos rindo”.        

O maestro Leo Brouwer leva quase uma década oferecendo Havana, com o poderio de sua convocatória, para realizar festivais de novo tipo, que desafiam e dão alegria aos fãs da música.

Em duas frases, o grande compositor cubano sintetizou para a nossa publicação a transcendência deste Primeiro Festival Contratenores do Mundo: “Reunir nesta cidade estes artistas maravilhosos, por causa de suas vozes únicas de diferentes tessituras e com estes repertórios sem padrão, sem clichê, é maravilhoso e não esqueçamos que o repertório perfeito para o contratenor se desenvolveu no barroco e é uma carta de garantia, e lá está o desafio para os contemporâneos”.

Os famosos contratenores agradeceram o maestro Brouwer pelo Festival e por estarem em Havana, e público cubano teve o privilégio de escutar artistas dessa qualidade.