ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA

«É um privilégio visitar a Casa das Américas e compartilhar com intelectuais latino-americanos, caribenhos e também europeus», disse em suas palavras de abertura da 58ª edição do Prêmio Casa o ensaísta e professor dominicano Silvio Torres-Saillant, diretor do Latino-Latin American Studies Program, da Universidade de Syracuse, nos Estados Unidos.

Torres-Saillant, quem faz parte do júri que examinará os textos enviados ao Prêmio de estudo acerca da presença negra na América e o Caribe contemporâneos, tem em seu currículo algumas das «propostas mais lúcidas e polêmicas sobre o tema», segundo asseverou Jorge Fornet, diretor do Centro de Pesquisas Literárias da Casa.

Em seu exaustivo discurso «na sala Che Guevara, lotada de história», o intelectual da República Dominicana fez um percurso histórico dos vínculos entre seu país e Cuba, desde o século 16, com a chegada do índio Hatuey à Ilha maior das Antilhas e sua morte nas mãos dos colonizadores espanhóis.

Torres-Saillant referiu-se, igualmente, ao dominicano Máximo Gómez, generalíssimo das guerras cubanas pela independência e sua assinatura, junto a José Martí, do «Manifesto de Montecristi» em terras dominicanas, antes de iniciarem a viagem a Cuba, para começar a que seria chamada de a Guerra de 1895.

«A epopeia da Revolução cubana» — assinalou — «foi sempre fonte de inspiração para os dominicanos». E lembrou, então, as lutas contra o ditador Trujillo, a intervenção norte-americana, em 1965, entre outros acontecimentos.

No tema literário, Torres-Saillant, disse que «graças à Casa se considera mais que dominicano, caribenho porque a Casa — precisou — defendeu os escritores de língua inglesa e francesa, para unirmo-nos todos». E lembrou a Antologia Poemas de uma Ilha e dois povos, com escritores haitianos, dominicanos e haitianos-dominicanos, editada por Roberto Fernández Retamar, «autor do imprescindível ensaio Caliban».

Perante a Arvore da Vida, na sala Che Guevara, Jorget Fornet, diretor do Centro de Pesquisas Literárias da Casa (à esquerda), o intelectual dominicano Silvio Torres-Saillant, e a vice-presidenta da Casa das Américas, Marcia Leiseca, na abertura da 58ª edição do Prêmio.

Torres-Saillant considerou que «a Casa tem sido o único projeto com apoio do Estado, que defende a alma dos povos, e por essa razão venho honrá-la».  

Para esta edição do Prêmio Casa (16-26 de Janeiro) foram recebidos quase 400 livros, o que não é casual, devido a que o Casa é considerado um dos prêmios literários mais prestigiosos do continente, que vem sendo outorgado, sem interrupção, desde 1960.

Na ocasião, concorre-se em romance, poesia, ensaio de tema histórico-social e literatura testemunhal, literatura brasileira (com livros de ficção), mais o Prêmio de estudos acerca da presença negra na América Latina e o Caribe contemporâneos.

Também, a Casa das Américas entregará, mais uma vez, os prêmios de caráter honorífico José Lezama Lima, de poesia: José María Arguedas, de narrativa, e Ezequiel Martínez Estrada, de ensaio.

OS JÚRIS

No gênero de novela, lerão as obras o colombiano Juan Cárdenas, Prêmio Outras vozes, Outros Âmbitos com Os estratos; a narradora mexicana Ana García Verruga; o narrador e dramaturgo uruguaio Milton Fornaro; o dominicano Rey Andújar, Prêmio Alba Narrativa com a novela Los gestos inútiles e o cubano Ahmel Echevarría, Prêmio Pinos Nuevos, com Esquirlas, e Prêmio Kafka, da República Tcheca, com Días de entrenamiento.

Entretanto, em poesia, os jurados são: o hondurenho Leonel Alvarado, cujo livro de poemas Retratos mal hablados foi menção especial no Prêmio Casa; o mexicano Eduardo Langagne, Prêmio Casa 1980 com o livro de poemas Donde habita el cangrejo e Prêmio de Poesia José Lezama Lima por Verdad posible; a espanhola Selena Millares, Prêmio Antonio Machado por El faro y la noche; o venezuelano Freddy Ñáñez (atual ministro da Cultura); e o cubano Sigfredo Ariel, Prêmio David 1986 da Uneac com o livro de poemas Algunos pocos conocidos.

No gênero ensaio de tema histórico-social, as leituras serão feitas pelo filósofo e jesuíta dominicano Pablo Mella, Prêmio Nacional de Literatura pelo ensaio Los espejos de Duarte; a socióloga e economista mexicana Berenice Ramírez López, e o cubano Aurelio Alonso, Prêmio Nacional das Ciências Sociais, 2013.

O júri de literatura testemunhal é integrado pela jornalista, poeta e narradora argentina Stella Calloni, cujo livro Operación Condor, é uma das mais contundentes denúncias daquele plano; o colombiano Alberto Salcedo Ramos, Prêmio Internacional de Jornalismo Rei da Espanha e o Ortega e Gasset; e o cubano Arístides Vega Chapú, Prêmio Memória 2011, do Centro Pablo de la Torriente Brau pela obra de testemunho No hay que llorar.

As brasileiras Lúcia Bettencourt, narradora e ensaísta; Adriana Lisboa, narradora e poeta, Prêmio Saramago pela novela Sinfonia em Branco, e a narradora e dramaturga Guiomar de Grammont, Prêmio Casa de Conto 1993, por O fruto do vosso ventre, serão responsáveis pela literatura de ficção desse país.

Os textos sobre a presença negra serão avaliados pelo brasileiro João José Reis, Prêmio Casa 2012, com Alufá Rufino: tráfico, escravidão e liberdade no Atlântico negro; o já mencionado Silvio Torres-Saillant e a cineasta e pesquisadora cubana Gloria Rolando, com documentários como Los hijos de Baraguá e a trilogia 1912.

Cada ano, as jornadas do Prêmio incluem palestras, painéis e debates acerca dos temas relacionados com os gêneros e categorias em concursos e o ensaísta e pesquisador Jorge Fornet, precisou que entre essas comissões está a dos jurados de novela, sob o título Narrar América Latina a meio século de Cem anos de solidão, novela de transcendência de Gabriel García Márquez, Nobel de Literatura.

Na primeira edição do Prêmio Casa, em 1960, denominado naquele momento, concurso Literário Hispano-americano, um de seu jurados foi o dramaturgo cubano Virgilio Piñera, quem asseverou em um artigo publicado no jornal Revolución:

«... o júri de um concurso literário é, de fato, mais um concorrente. O que consegue ou perde seu eleito o consegue ou perde ele também. Eis o belo da Arte: uma causa que se defende, uma convicção pela qual se luta até a última gota do sangue».

No dia 26 de janeiro serão conhecidos os vencedores da 58ª edição do Prêmio Casa.