ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Marta García fez história no papel de Soledad em Tarde en la Siesta, coreografia de Alberto Méndez montada sobre várias peças de Ernesto Lecuona e tornada joia do Ballet Nacional de Cuba desde sua estreia, em 1973. FOTO: Alicia Sanguinetti

EM 1987, a primeira dançarina Marta García, figura consagrada da escola cubana de balé, comemorava 30 anos de vida artística. Lembrando as datas, agora, exatamente, completam-se três décadas desse acontecimento.

Então foi a primeira grande entrevista com a já famosa dançarina para estas páginas. Depois, teríamos inúmeros diálogos acerca de variados temas, a dança e a coreografia, em primeiro lugar.

Se Marta mostrou sensibilidade, expressividade e depurada técnica nos palcos, nas conversações mantinha essas qualidades, com certo requinte de humor, Marta e outra primeira ballerina, Maria Elena Llorente, colocam-se na geração que integrou o Ballet Nacional de Cuba depois das Quatro Joias, Mirta Pla, Josefina Méndez, Loipa Araujo e Aurora Bosch e também no mesmo tempo em que a assoluta Alicia Alonso estava no seu melhor esplendor.

Para ela, conseguir uma carreira de sucesso não foi impedimento, mostrou obras de grande brilho com seu fácil movimento nas variações, suas amplas possibilidades dramáticas e carisma particular.

A partir de que, em 1973, atingisse a categoria de primeira dançarina somou ao seu repertório obras de diferentes estilos. Fez tremer como a obra Soledad, de Tarde en la siesta, equilibrado pas de quatre de Alberto Méndez acerca de Lecuona, uma lenda da coreografia cubana, foi perfeita Raymonda; estreia Majísimo, coreografada por Jorge García; é uma memorável Adela de La casa de Bernarda Alba, versão de Iván Tenorio; foi a doce Swanilda em Coppelia; brilhou como a Grisi, no grande pás de quatre e como Kitri, no pás de deux de Dom Quixote, e deu tudo quanto pôde na interpretação da fraca Giselle.

Por sua dutilidade estilística, coreógrafos como José Pares (Bachx11 =4xA); Hilda Riveros (Canción de cuna para despertar); Gustavo Herrera (Cecilia Valdés) e Antonio Gades (Bodas de Sangue, onde interpretou à atormentada noiva) confiaram nela para estrear suas peças em Havana.

Uma surpresa maravilhosa, no 23º Festival Internacional de Ballet de Havana foi a saída à cena de uma constelação de primeiros dançarinos da companhia cubana acompanhando a experiente Alicia Alonso em Retrato del recuerdo, uma versão de sua própria coreografia Retrato de un vals (1990), com a música de Vals de la mariposa, de Ernesto Lecuona (da esquerda para a direita) Orlando Salgado e Marta García, Lázaro Carreño, Alicia, Jorge Vega, Maria Elena Llorente e Osmay Molina. Photo: Nancy Reyes

Marta também foi artista convidada de famosas companhias estrangeiras, como o Ballet do Teatro da Ópera de Budapeste e o Ballet das Belas Artes do México.

Outra tendência de sua arte foi a coreografia intitulada Luz de Luna, música de Rachmaninov; L’addio, música de Tchaikovski; En mi Habana, melodia dos cubanos Ignacio Cervantes e Ernesto Lecuona, e mais recentemente Lady Carolina, música de Berlioz, para o Ballet Estable, do Teatro Colón, do qual foi diretora, em 2001 e 2004, junto ao seu esposo e parceiro, o também dançarino Orlando Salgado.

Em 4 de julho de 2001, Marta García resolveu se despedir do palco, como dançarina, depois de interpretar o papel de Bertha, mãe de Giselle, durante uma turnê do BNC pela Venezuela.

Desde 2005, estabeleceu-se em Madri onde foi professora no Instituto Superior de Dança Alicia Alonso, adjunto à Universidade Rei Juan Carlos de Madri, no Centro Scaena, regido por Carmen Roche, e ministrou cursos no Conservatório Superior de Danza María, de Ávila.

A última estada de Marta García em Havana foi de muita alegria, inesquecível em muitos sentidos, apesar de que já estava doente.

Decorria o 24º festival Internacional de Ballet de Havana de 2014, e Marta e Orlando, já aposentados, encerraram a jornada Fernando Alonso in memoriam, dedicada a prestar homenagem ao célebre mestre, no ano do centenário do seu nascimento e depois outro gosto, fez um lançamento de seu livro autobiográfico Danzar mi vida.

Agora, despediu-se para sempre e não resta mais que voltar ao título destas linhas, tomado do grande crítico inglês Arnold Haskell, aquele que as intitulou com o termo de Quatro Joias do BNC, e dela disse-se: «Marta García, uma meio-soprano da dança, uma atriz do balé, expressiva dos pés à cabeça».

A primeira dançarina cubana Marta García faleceu na manhã do domingo, 29 de janeiro em um hospital de Madri, aos 68 anos de idade, vítima de um câncer de pulmão.

Seus amigos, os milhares de fãs do balé em Cuba, igualmente a reverenciam e fazem uma homenagem em comemoração a sua bem-sucedida carreira. Ovação e despedida para Marta García.