ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
No segundo ato, o romantismo em todo seu esplendor: a primeira dançarina cubana ministra uma aula no cuidado do estilo e emociona com movimentos delicados, etéreos, puros. Foto: Cortesia Ballet Nacional de Cuba

Caso o senhor (a) tiver um gosto nato e grande pelo balé, concordaria em que ser uma primeira figura no Ballet Nacional de Cuba (BNC) pode ser das melhores credenciais na atualidade. Trata-se de uma companhia que se pode vangloriar de ter um elenco de qualidade técnica e artística extraordinária.

Para suas dançarinas as palavras desafio e exemplo estão acunhadas por um nome mágico na história universal da dança: Alicia Alonso. A partir dessa escola que é propriamente sua distinta diretora, devem criar, anelo sagrado! suas próprias Giselle, Carmen, Odette-Odille.

Os fãs da companhia e nossos leitores conhecem como a grande diva tem conseguido que na Ilha o balé seja um real encantamento de multidões e, com respeito a Giselle, o balé romântico por excelência, na versão da própria Alicia, mantê-lo vivo. Dançaram-no, e certamente, o dançam suas primeiras figuras todas.

Neste ano, a companhia ofereceu uma temporada de Giselle, balé que, junto a O lago dos cisnes, é o mais desejado e demandado pelo público e as dançarinas, pois é considerado signo de colocação no topo. O BNC se pode jactar de ter hoje, nada menos que quatro primeiras figuras para as funções: Sadaise Arencibia, Anette Delgado, Gretel Morejón e Viengsay Valdés.

Só lembrar que a estreia aconteceu em 1841, com roteiro do poeta Teofile Gautier, junto ao autor Vernoy de Saint-George, acerca do mito alemão das willis, descrito por Heinrich Heine no livro Tradições populares. A música de Adolfo Adam e coreografia de Jules Perrot para sua esposa, a excepcional Carlota Grissi.

A obra mais importante do Romantismo, com sua lenda e toque de mistério, Giselle empolga o público e artistas que nem o decurso do tempo consegue enfraquecer, pois uma técnica impressionante não basta para encarnar um papel, cujos desafios principais aparecem por atuação e estilo.

Ambas as qualidades surpreenderam na execução da primeira dançarina Viengsay Valdés (19 de fevereiro). Não há dúvida, pois ela é valorada pelos críticos mais prestigiosos do mundo entre as quatros melhores dançarinas da dança contemporânea, mas há que vê-la no palco... a harmonia da sua dança, o ímpeto do seu lirismo, sua técnica depurada, certeira, seu estilo de grande classe, seus intermináveis balanço (a crítico Sarah Kaufman em The Wa-shington Post escreveu: Quando realiza um balanço, o tempo para), impressionante arabesque e absoluto sentido interpretativo.

Cena do primeiro ato, onde Viengsay Valdés assume à jovem e inocente camponesa namorada de Albrecht, um nobre que disfarçado de aldeão para conseguir seu amor. Foto: Cortesia Ballet Nacional de Cuba

Porém, ela tem algo mais. Nesta época de dançarinas e dançarinos de técnica de alto nível, é a paixão que Viengsay coloca em sua dança o qual tem cativado o público de Havana, naturalmente, mas também de Paris, Madri, Londres, Tóquio, Washington, Amsterdã, Berlim, Budapeste; por toda a geografia universal.

Ela foi Giselle no palco da sala Lorca do Grande Teatro de Havana Alicia Alonso e presenteou uma peça única, elegante, soberba, brilhante em sua dança.

Viengsay atuou desde a inocência da camponesa (a famosa diagonal fazendo conter a respiração), depois da imensa gratidão e emoção contida de um primeiro ato agradável, com o emotivo desenlace, para o segundo, mágico, onde esteve impecável, sutil, sublime, «tão frágil que parecia um cristal prestes a quebrar-se», diria o cineasta Enrique Pineda Barnet, depois de finalizar a representação.

Há que acrescentar que o elenco de dança esteve realmente sensacional e o solista Patricio Revé, estreando Albretch, foi cuidadoso como partenaire, ainda necessitado de ensaios.

A primeira dançarina, que proximamente viajará para inúmeras galas às quais foi convidada e começará uma turnê por El Salvador (desde 31 de março até 1 de abril) e Costa Rica em 25 e 26 de março com a companhia, teve a amabilidade de oferecer para nossos leitores alguns comentários:

«Para mim Giselle sempre tem sido um desafio, por ser um dos grandes clássicos que consagra a primeira dançarina, não é o simples fato de estrear-me nele, mas na medida em que se dança se ganha experiência. Tenho aprendido dos grandes mestres, desde a própria Alicia até Fernando Alonso e Josefina Mendéz (quem me encaminhou neste papel e me indicou muitos detalhes artísticos). Nesta ocasião teve a oportunidade de ter nos ensaios a mestra Aurora Bosch e um complemento especial foi a ajuda e colaboração do mestre Enrique Pineda Barnet nos termos de atuação, que foi um fator muito importante para o de-sempenho de Albrecht do jovem Patricio Reve».

Talvez a orquestra ficou um pouco demorada?

«Devo reconhecer que sim, o tempo musical foi devagar, sobretudo, em minhas variações, mas com o recurso da técnica, do controle, da atração própria da personagem, pude ter sucesso».

A dançarina estrela anunciou que esta temporada de Giselle será mostrada na turnê do BNC à Espanha e França, no próximo mês de maio até julho. Dançar em Paris é certo que tem um significado, porque precisamente lá foi outorgado ao Ballet Nacional de Cuba, durante o Festival da Dança, em 1966, o Grand Prix de la Ville, por este balé e nossa versão foi muito bem elogiada e recebida».

Tem uma gala com o norte-americano Brooklyn Mack?

«Convidaram-me como artista especial para observar as atua-ções e salas de aulas de estudantes que participaram na gala semifinal do Youth América Grand Prix Regional, em Salt Lake City, e terei a oportunidade de comparti-lhar mi-nhas experiências como dançarina profissional de balé com os jovens participantes. Também, é um gosto dançar de novo com o primeiro dançarino norte-americano Brooklyn Mack, no pas de deux Diana e Acteón, que estreamos no 25º Festival de Ballet de Havana, e foi um pedido dos organizadores do evento. Anteriormente, fui convidada às galas realizadas em Nova York, em 2011 e 2013, respectivamente».

Giselle é uma obra de arte e por isso ainda emociona e empolga grandemente. A primeira dançarina cubana Viengsay Valdés, com sua técnica, sua arte e seu carisma se incluiu nesse universo de estrelas, que mantém vivente essa bela e suntuosa peça do romantismo. •

De aço e nuvem

• Vingsay Valdés é uma dançarina que tem assumido os papeis principais em todos os balés do BNC, que como se sabe, tem um repertório invejável e diverso de obras clássicas e românticas e de coreografias de destaque, o qual confere um amplo aval a suas primeiras figuras.

Nasceu em 10 de novembro de 1976 e começou seus estudos de balé, em 1986, na Escola Provincial Alejo Carpentier de Havana e os continuou na Escola Nacional, com destacados professores, entre eles Ramona de Saá, Adria Velázquez e Mirtha Hermida. Em 1994, graduou-se com diploma de ouro. A lendária prima ballerina assoluta Alicia Alonso percebeu cedo o talento inato de Viengsay e tem sido estrela convidada das mais prestigiosas companhias do mundo, entre elas o Ballet do Teatro Mariinski, de São Petersburgo; o Ballet Bolshoi, de Moscou; o Real Ballet Danés e o Royal Ballet de Londres.

Espetaculares suas temporadas com Giselle, Dom Quixote — sua espetacular Kitri adota balances, pirouttes, fouttes — no Sadler's Wells Theatre, de Londres; com o fora-de-série dançarino cubano Carlos Acosta, junto ao russo Leonid Sarafanov, ou com o Washington Ballet no Kennedy Center para uma nova versão de Dom Quixote da reconhecida coreógrafa Anna-Marie Holmes.

Sua turnê de gala — por exemplo, Les Étoiles du XXIe Siècle em Paris — e festivais abrange desde Pequim, Japão, Laos até Nova York, Washington e México, passando por Turquia, Buenos Aires, Austrália e a África do Sul.

Na Feira Internacional do Livro de Havana 2017, no mês de fevereiro, foi lançada sua biografia, escrita por Carlos Tablada, muito fotograficamente titulada De acero y nube. (M.C.)