ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
O Ballet Nacional apresentará várias peças em La Huella…, entre elas o clássico Dom Quixote. Na foto, a primeira bailarina Viengsay Valdés e o solista Patricio Revé, no grand pas, um dos duetos mais exigentes e virtuosos.

É, nada mais nada menos, que a grande intelectual cubana Dulce María Loynaz quem oferece a melhor abertura para esta nova página do festival ‘La Huella de España, em Cuba, dedicada às Ilhas Canárias. Em seu poema, que se inicia com o verso que serve de título «A criatura de ilha…», expõe uma definição que enaltece aos seus habitantes: «eu acho, não sei por que, que é uma criatura diferente. Mais leve, mais sutil, mais sensitiva».

Dulce María (Havana, 10 de dezembro de 1902 - 27 de abril de 1997) é uma das principais figuras da poesia lírica cubana e universal. Prêmio Nacional de Literatura 1986 e Prêmio Cervantes 1992, teve, ademais, uma estreita relação com as Ilhas Canárias através do seu esposo, o jornalista Pablo Álvarez de Cañas, natural das ilhas. Seu livro de viagem Un verano en Tenerife, um relato de sua estada ali, em 1958, foi qualificado pela autora como o melhor que ela havia escrito, embora nem todos aceitem.

«Contarei, pois, simplesmente, como foi, para mim, um verão naquela pouca terra assomada à flor da água; a primeira em romper a superfície de um mar que era tudo e a última terra que enxergaram as caravelas de Colombo, quando enfiaram suas proas rumo ao Mundo Ignoto».

Como incrível cicerone, nestas crônicas a autora recolhe a história e a realidade de vida dos moradores destas ilhas, realça a beleza das paisagens, da sua geografia e da alma de seus habitantes, com uma linguagem cheia de amor e poesia.

O amor de Dulce María Loynaz pelas Ilhas Canárias é muito partilhado em Cuba, pois resulta que seus emigrantes se converteram na terceira grande comunidade na ilha caribenha. Estão atualmente presentes em quase todas as províncias e a Associação Canária tem hoje 45 mil membros.

Uma dessas emigrantes canarinas é especialmente reverenciada pelos cubanos: dona Leonor Pérez Cabrera (Santa Cruz de Tenerife, 17 de dezembro de 1828 - Havana, 19 de junho de 1907) mãe do Herói Nacional José Martí.

Os versos e cartas enviadas por Martí a dona Leonor falam do seu ardente amor e respeito por ela quando, com apenas 16 anos, foi condenado a trabalhos forçados nas pedreiras de San Lázaro, em Havana, até sua saída para a guerra em Cuba, em 1895.

Existem vários monumentos erguidos para homenagear dona Leonor. Em um deles, em San Miguel del Padrón, em Havana, aparece sentada, lendo a carta que o filho lhe enviou de Montecristi, na República Dominicana, em 1895. Com motivo do centenário de sua morte existe um busto no bairro do Vedado, em Havana, e na cidade onde ela nasceu, Tenerife, foi colocado outro busto, da escultora cubana Thelvia Marín.

Josele del Pino desenvolveu sua carreira com o ‘timple’, instrumento de corda típico canarino.

Como não se poderia imaginar de outra forma, a Associação Canarina de Cuba leva o nome de Leonor Pérez, e nessa sede, em Havana, teve lugar a entrevista coletiva onde foi anunciada a 27ª edição do festival ‘La Huella de España’, que terá lugar de 2 a 9 de abril.

Presidida pela diva Alicia Alonso, presidenta de honra do Festival e diretora-geral do Ballet Nacional de Cuba, informou-se que o evento terá de novo, pela quarta ocasião consecutiva, na direção artística a bailarina e coreógrafa Irene Rodríguez, quem, ainda, festeja um lustro de ter sido criada sua própria companhia de danças espanholas.

Para celebrar esse acontecimento, Irene declarou a esta publicação que concebeu um espetáculo novo intitulado Amaranto, muito flamenco e contemporâneo, muito renovador.

Precisamente por essas caraterísticas lhe deu o nome de Amaranto, que é «uma planta originária da América que não murcha. Ganhou esse nome porque a companhia se continua renovando».

A inauguração, embora se mantenha a tradição de começar à hora da cerimônia do disparo de canhão, que se faz tradicionalmente às 21 horas, não será na esplanada do castelo de La Real Fuerza, como ocorreu na primeira edição de 1988, mas terá como palco o teatro Mella, onde será realizada quase toda a programação.

Os hinos nacionais de Cuba, Espanha e as Canárias serão interpretados pela Banda de Jazz Junior, do Conservatório Amadeo Roldán, e a Coral Hespérides, da Associação Canarina, regidas pelos maestros Enrique M. Rodríguez e Yasel Castañeda, respectivamente.

Dona Leonor Pérez aparece neste monumento, em Havana, lendo a carta que José Martí lhe escreveu em Montecristi, República Dominicana antes de partir para iniciar a que depois se chamou Guerra de 1895: «Minha mãe: Hoje, 25 de março, nas vésperas de uma longa viagem, estou pensando em você. Eu sem parar estou pensando em você. Sinto uma dor por você, na cólera do seu amor, do sacrifício de minha vida; e por que nasci de você com uma vida que ama o sacrifício?...O dever de um homem está ali onde é mais útil. Mas comigo vai sempre, na minha crescente e necessária agonia, a recordação da minha mãe… Agora, abençooe-me e saiba que jamais sairá do meu coração uma obra sem piedade e sem limpeza…».

Depois, será escutada uma gravação com ‘Balada de los dos abuelos’, de Nicolás Guillén, declamada por Luis Carbonell, alcunhado de O acuarelista da poesia antilhana.

Para reviver a contribuição dos canarinos em Cuba, especialmente na música camponesa (a toada, o punto cubano), chegarão vários convidados dessas ilhas, que compartilharão o palco com músicos cubanos desse gênero.  

Destaque então, na música, para o grupo folclórico La Vieja Parranda, o violonista Marcos del Castillo, o ‘timplista’ Josele del Pino e o poeta e improvisador Eduardo Duque, os quais atuarão ao lado de músicos cubanos como Pancho Amat (no três), a cantora de música camponesa Maria Victoria Rodríguez e o destacado improvisador Luis Paz Esquivel.

Participará também de La Huella… o escritor canarino Manuel Hernández González, quem dentre seus mais de cinquenta livros escreveu um intitulado Los canarios en la Cuba contemporánea.  

Relativamente à literatura, intelectuais cubanos ministrarão vários colóquios, entre eles um dedicado a Benito Pérez Galdós, considerado o mais universal dos canarinos, e sua obra, especialmente seus Episodios Nacionales, e outro precisamente a Dulce María Loynaz, e na função de gala de encerramento a atriz Corina Mestre, dirá um excerto da antes mencionada obra Un verano en Tenerife.

O La Huella… incluirá uma exposição de pôsteres feitos para as edições anteriores do Festival, compilados por Evelio Fernández Reyes e vários workshops, um deles sobre a culinária canarina.

Por sua relevância, no Festival se envolve muito do melhor da cultura cubana: o Ballet Nacional de Cuba, cantores como Ivette Cepeda e a soprano Johanna Simón e todos os agrupamentos das Associações espanholas, especialmente a Canarina, como Rumores del Teide, Rondalla Timanfaya, ou Coral Hespéride.

Mas também La Huella… em Cuba é singular para a Espa-nha e assim expressou ao Granma Internacional o conselheiro cultural da embaixada desse país europeu em Havana, Guillermo Corral.

«Nós lhe atribuímos tamanha importância porque é um vínculo que permite, por um lado, ligar de novo as comunidades de descendentes de espanhóis e por outro ao público cubano com outra de suas heranças culturais fundamentais que é a espanhola. Festivais similares existem no mundo, mas não com um apoio tão claro por parte das instituições públicas. Eles são mais bem organizados pelas Casas, bem seja a canarina, a andaluza, mas este conta com o apoio resolvido do Ministério da Cultura, de uma personalidade tão destacada como é Alicia Alonso e o Ballet Nacional; portanto acho que é um Festival único, e também por seu tamanho e duração».

Corral, quem há um ano e meio que trabalha em Cuba, sublinhou: «Espanha, como não podia ser de outra maneira, mantém uma atividade cultural muito intensa aqui. Do nosso ponto de vista diríamos que a cultura cubana para nós não é estrangeira, é uma outra forma, diferente mas comum. Então, tentamos participar de todos os grandes eventos que têm lugar em Cuba, que são muitos: o La Huella de España, o Festival de Cinema de Havana, a Bienal, e neste ano somos o país convidado no Festival de Cinema de Gibara, no próximo mês».

A exímia ballerina Alicia Alonso sintetizou um dos propósitos do Festival na 24ª edição: «O La Huella de España é uma festa da tradição e uma homenagem à nossas raízes. Os povos têm o direito de receber o mais valioso do patrimônio histórico e cultural, e sobre esta base, avançar por novos caminhos».