ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Moisés Valle é o diretor da orquestra Yumurí y sus Hermanos, de inconfundível selo, que comemora neste 2017 seu 25º aniversário. Foto: www.musicalia.cu

YUMURÍ é nome ainda de disputada origem, contudo, bem cubano. Quer gênese de uma lenda aborígine contra os colonizadores espanhóis, quer por estudos lexicográficos vocábulo da língua taina. Desde séculos nomeia na província de Matanzas, a uns 100 quilômetros de Havana, ao Vale de Yumurí, e há duas décadas identifica a outro Vale, de nome Moisés.

Autor de títulos como «Pegaito a la tarima», «La Bomba», e «Una miradita», o cantor e compositor Moisés Valle leva com orgulho o nome artísitico de Yumurí. Assim foi batizado por Elio Revé, diretor do Charangón, quando o jovem entrou nessa orquestra em 1988.

«O maestro Elio Revé Matos tinha uma genialidade incrível para colocar alcunhas a seus cantores e um dia me disse: você vai se chamar Yumuri a partir de agora. Levou em conta meu sobrenome e porque também era muito usado por outros cantores e beisebolistas», explicou o músico em uma passada entrevista.

A Guarachar! (Vamos desfrutar!) foi a frase distintiva deste carismático artista nascido em Havana em uma família bem musical. «Meus cinco irmãos todos estudaram música. Eu não. Formei-me em agronomia agropecuária, mas sempre levei a música dentro».

É por isso que em seus dias universitários esteve no movimento de artistas amadores, no grupo musical «Caña Brava». Depois de findar a carreira fez parte do grupo «Imagen Latina» e em 1988 se incorporou como cantor à popular Orquestra Revé, com a qual atuou durante quatro anos.

Em setembro de 1992 criou sua própria orquestra, «Yumurí y sus Hermanos», com a qual propôs fazer uma banda diferente, música cubana com um toque de contemporaneidade quanto às orquestrações.

Pouco depois chegou sua faceta como compositor, que tinha começado fazendo refrões na orquestra Revé. Yumurí contou que o primeiro tema foi «La Bomba», um son com letra de seu irmão Pedro.

Esse tema foi gravado em 1999 pela orquestra de Willie Rosario, de Porto Rico, no disco por seu 40º aniversário e nesse mesmo ano também por Oscar D' León sob o titulo «Mi mujer es una bomba». De outro de seus temas, «Una miradita», fez uma versão em Nova York a orquestra dos Irmãos Moreno.

Teve sorte também em sua discografia, por ter gravado com sistematicidade e pela acolhida do público. O primeiro álbum em 1993 foi «Cocodrilo de agua salá» e seguiram, em 1996 «Provocación»; em 1999 «Olvídame si puedes»; em 2002 «Bilongo»; em 2004 «Salsa y Candela»; em 2005 «Yumurí Live»; em 2006 «Grandes Éxitos» e em 2008 «Cubano Cubano».

Com seu carisma, seu dom de sonero e o espetáculo que faz em suas apresentações ao vivo, Yumurí e sua orquestra conquistaram o público de diferentes países, entre eles Japão, Suíça, França, México, Colômbia, Equador, Jamaica, Venezuela, Panamá e Alemanha.

Conhecemos Yumurí em pessoa no tablado do Grande Teatro de Havana Alicia Alonso, e a contrapelo da música gravada e os altos decibéis conseguimos uma conversação que decorreu por diversos caminhos.

UM DISCO NOVO

«Coincidindo com o 25º aniversário da orquestra estamos estreando um disco novo, é a sétima produção com a gravadora Bis Music. Chama-se «Changanero» é é para dançar muito, onde se mistura o son, a timba, a guaracha, a salsa, o bolero, a rumba, todos os gêneros. Tem dez temas inéditos e tive a sorte, mais uma vez, de contar na seção de metais com Alexander Abreu na trompeta e Amaury Pérez nos trombones. Unimos aos músicos de Habana de Primera e aos próprios da orquestra e conformamos uma base rítmica e harmônica com muito sabor. Um disco onde primam os tumbaos, que historicamente fazem com que as pessoas dancem. Eu continuo apostando por nossa música. É o que eu sei fazer. Nasci em um país de bons soneros e sou herdeiro dessa tradição. Vão escutar-me pela primeira vez cantando uma rumba, a meu estilo, e um bolero-son. Os gêneros da música cubana são tantos que não se podem perder e tenho a energia, ainda mantenho a voz e o desejo de fazer e se tiver o apoio de uma gravadora e um povo que quiser escutar-me, pois aí estarei fazendo música cubana até que a vida quiser».

ALGUMAS INFLUÊNCIAS

«De criança meu pai escutava Benny Moré e a Orquestra Aragón. Eu cresci com Van Van, Adalberto Álvarez, Son 14 e dessa realidade são algumas influências. Tudo está presente em minha música, na qual se misturam o son, a rumba e o mambo. Tenho a preferência da gente, dos que dançam e tenho sido leal e fiel a eles em minha composições. Estive em todos os recantos do país, de oriente a ocidente, por isso tenho uma canção que se chama «De Carnaval en carnaval», porque fui a todas as festas populares».

MINHA MÚSICA É PARA DANÇAR MUITO

«O público é uma bênção. Isso que digo A guarachar! (Vamos desfrutar!) não é um slogan, é que em verdade a gente desfruta. Minha música é para dançar muito, claro eu me formei na orquestra Revé, aprendi muito da importância do tumbao e, sobretudo, o respeito ao bailador nos refrões e nos textos. A música para dançar pode ser feita, que as pessoas gozem, porque as pessoas chegam ao delírio em um baile público, mas sem ser vulgar. A música cubana está cheia de mensagens em duplo sentido, o gracejo crioulo, que é muito ocorrente, e isso é o que utilizo em meus textos, por isso meus temas são ouvidos desde pelas crianças até as pessoas idosas, mesmo em Santiago de Cuba, Pinar del Río ou a Ilha da Juventude. Esperam-me para ouvir-me cantar e sinto-me comprometido e muito humilde. A vida nos deu um dom, cantar e ter a voz; e a graça para através do son, da salsa e da guaracha transmitir uma mensagem de otimismo, alegria e, sobretudo, de muita cubanidade».

SEMPRE PENDENTE DA CONTEMPORANEIDADE

«Em minha música sempre tem alguma coisa nova, na maneira de harmonizar os metais, os trompetes, os trombones e teclados. A gente está sempre pendente da contemporaneidade e também, a orquestra completa 25 anos, mas está cheia de jovens. Já estão meus filhos em minha orquestra, são graduados da academia. Michel toca trompete e é cantor e Félix Javier é violinista e agora incorporei um violino seguindo a tradição da charanga, dá um timbre muito bonito, um sabor. Eles contribuem com novas harmonias, melodias, outra maneira de cantar e outros textos».

EU REALMENTE SAI BEM

«Houve em um momento muitas discussões quanto às letras na música popular e eu realmente sai bem quando o boom da salsa. O que está acontecendo agora é pior que na década de 1990. Eu nunca tive problema com isto. O único de cinco irmãos que não estudou na academia, depois sim, fui à Escola de Superação Profissional e fui aluno de Argelia Fragoso, de Luis Carbonell, que era repertorista. Tive a sorte de passar por esses grandes maestros. O cantor popular, o sonero nasce, é uma virtude que traz consigo de fábrica, ninguém ensina isso. Cantar o son, improvisar não se ensina em uma escola, mas sim aprendi com eles o repertório, a técnica vocal. a parte dos textos. Gosto de que as canções tenham uma mensagem, que as pessoas dancem e chegue uma mensagem de alguma maneira».  

A MÚSICA BAILADA ESTÁ EM UM BOM MOMENTO

«Tem muitas orquestras em Cuba, os músicos não deixaram de criar,mas temos que coexistir com outros gêneros estrangeiros que chegaram, chame-se reggaeton ou outro tipo que eu nem sei como classificar, um tipo de fusão, uma música rara que gosta aos jovens. Eu penso que é um tema muito polêmico, mas a música bailada está em um bom momento. Penso que o que se merece é mais espaço para os bailadores, que não apenas vejam as orquestras uma vez por ano em um carnaval. Espaços que não sejam só La Tropical; um lugar onde as pessoas possam ir a dançar. Também agora que chegam tantos turistas e o que vêm buscar não somente é son tradicional, mas orquestrar de salsa, de timba. Quem goste do tcha-tcha-tcha onde vai dançar? Quem goste do mambo?».

NOSSO JEITO DE FALAR, DE MEXER-NOS

«Nós temos que ser autênticos, originais, ser fiéis à tradição de cubanidade, o que somos. Para sermos cubanos não temos que nos vestir com uma bandeira cubana, nem fazer alardes, nem palhaçadas. Não somos o umbigo do mundo, mas nosso jeito de falar, de mexer-nos, de cantar, de dançar e de criar a música é único, não faz falta fazer nada falso. Aqui tem muito talento, é uma Ilha prodigiosa. É o momento oportuno para a difusão de nossa música».

Em um país como Cuba, com orquestras extraordinárias em quantidade e qualidade, Yumurí y sus Hermanos se diferencia entre elas. Primeiramente por seu próprio diretor que é o cantor, com um timbre vocal peculiar, uma maneira singular de projetar-se no palco, de se comunicar com o público, com um espetáculo bem dinâmico.

Yumurí pode cantar todos os gêneros da música popular. Sua orquestra sona muito cubana, com o tumbao do baixo, o piano e a percussão. Não faz concessões nos refrões, mas segue os exemplos dos grandes soneros como Ñico Saquito, Juan Formell e Adalberto Álvarez.

Moisés Valle, Yumurí, afirmou para nossos leitores que seu novo disco, «Changanero», tem «temas colantes, respeitando as raízes do son, da guaracha, com um sentido mais internacional para que todos possam dançar e Vamos desfrutar!».