ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Após receber neste ano em Los Angeles o Globo de Ouro, por sua atuação na fita Elle, Isabelle Huppert manifestou: «Há pessoas do mundo todo nesta sala, da China, da América, da Europa. Não esperem que o cinema sirva para levantar muros e fronteiras».

«TO be or not to be, that is the question» («Ser ou não ser, é essa a questão»).

Esta é, provavelmente, a frase mais celebre da história do teatro. Foi proferida por Hamlet, Príncipe da Dinamarca, em seu monólogo da primeira parte do terceiro ato, na tragédia com o mesmo nome, escrita por William Shakes-peare.

É lógico lembrar a dita frase neste contexto, no qual se comemora o Dia Internacional do Teatro, estabelecido em 1961, por iniciativa da Unesco, como homenagem à inauguração, em Paris, em 27 de março, do Instituto Internacional do Teatro (ITI) que reúne representantes de todos os países do mundo.

Ao dramaturgo francês Jean Cocteau lhe foi solicitado, em 1962, a primeira mensagem e desde 1963, uma personalidade do mundo do teatro é convidada para escrever este tipo de manifesto. Alguns deles foram Dario Fo, Edward Albee, Peter Brook, Wole Soyinka, Eugene Ionescu, Arthur Miller, Luchino Visconti, Maurice Bejart, John Malcovich, Richard Burton.

O mexicano Víctor Hugo Rascón Banda (1948 -2008) proclamaria em 2006:

«O teatro empolga, ilumina, incomoda, perturba, exalta, revela, provoca, transgride. É a primeira das artes que se enfrenta com o nada, as sombras e o silêncio para que surja a palavra, o movimento, as luzes e a vida».

Neste ano 2017 coube à estrela francesa Isabelle Huppert, quem esteve grandiosa, tal como em suas atuações.

O TEATRO É DIÁLOGO, A AUSÊNCIA DE ÓDIO

«Ora, aqui estamos mais uma vez. Reunidos de novo na primavera, 55 anos depois de nossa reunião de fundação, para comemorar o Dia Mundial do Teatro. De fato, o teatro renasce cada dia de suas cinzas. É, com efeito, uma convenção que será preciso abolir incansavelmente. É dessa forma que se mantém vivente. «O teatro tem uma vida abundante que desafia o espaço e o tempo e as obras mais contemporâneas se nutrem dos séculos passados, os repertórios mais clássicos se tornam modernos e cada vez que são mais encenados».

Na sua bem-sucedida passagem pelos palcos cubanos Omar Valdés atuou em obras como La muerte de un viajante, Fuenteovejuna, Madre Coraje, Réquiem por Yarini, La fierecilla domada e Dos viejos pánicos. Photo: Ecured

Para Huppert, «o Dia Internacional do Teatro não é, obviamente, um dia qualquer de nossas vidas, que deva ser assumido de forma banal. Ao pensar nesta Mensagem que tenho a honra que me pediram escrever, consegui lembrar todos os sonhos destas cenas. Por isso, posso dizer que eu não vim sozinha a esta sala da Unesco. Todas as personagens que alguma vez eu interpretei no palco me acompanham... Fedra, Araminte, Orlando, Hedda Gabbler, Medea, Merteuil, Blanche Dubois... Acompanham-me, também, todas as personagens que eu tenho adorado e aplaudido como espectadora. E é por isso que eu pertenço a este mundo. Eu sou grega, africana, síria, veneziana, russa, brasileira, persa, romana, japonesa, marselhesa, nova-iorquina, filipina, argentina, norueguesa, coreana, alemã, austríaca, inglesa, realmente do mundo todo. Eis a autêntica globalização».

Ícone do cinema europeu, Huppert lembrou que seus predecessores escreveram acerca do «teatro da imaginação, de liberdade, da origem, evocaram as múltiplas culturas, a beleza, as perguntas sem respostas»... E para ela o teatro é «o diálogo, a ausência de ódio. A amizade entre os povos. Não sei neste momento o que significa exatamente, mas acredito na comunidade, na amizade dos espectadores e os atores, na união de todos aqueles aos que reúne o teatro, os que o escrevem, os que traduzem, os que explicam, os que o vestem, os que o decoram, os que o interpretam, inclusive, os que assistem».

EM HAVANA ENTREGA-SE O PRÊMIO OMAR VALDÉS

Em Cuba, Huppert, uma das maiores atrizes contemporâneas, com uma filmografia impecável, é também admirada e lembrada sua participação, em 2012, no Festival do Cinema Francês de Havana, quando marcou presença na retrospectiva de seus filmes, entre eles Um assunto de mulheres, de Claude Chabrol. Nesse ano ela foi recompensada com um Globo de Ouro por outra de suas surpreendentes atuações, desta vez no filme Elle, dirigido pelo holandês Paul Verhoeven.

Anualmente o Dia Internacional do Teatro é comemorado na sede da Uneac, em El Vedado havanês, e os festejos se iniciam desde a própria abertura, com a leitura da Mensagem subscrita por uma personalidade mundial. Photo: Abel Rojas

Havana também comemorou o Dia Internacional do Teatro e na sede da União dos Escritores e Artistas de Cuba (Uneac) foi lida, pelo ator Alexis Días de Villegas a Mensagem subscrita pela atriz francesa.

Como parte dos festejos se entregou o prêmio Omar Valdés 2017 que concede a Associação dos Artistas Cênicos, pela obra toda, a figuras destacadas do teatro cubano.

É preciso lembrar que Omar Valdés (1929-1993) fez parte de importantes grupos como Ocuje, Conjunto Dramático Nacional, La Rueda, Taller Dramático Latinoamericano e Teatro Estudio.

Na ocasião, foram concedidos quatro prêmios a Freddy Núñez Estenoz, diretor de teatro de Camaguey e a Humberto Rodríguez, diretor do coletivo teatral do movimento de artistas amadores Olga Alonso, de onde surgiram figuras da cena cubana tais como Corina Mestre, Jorge Perugorría e Bárbaro Marín.

Os outros dois premiados foram Vladimir Cuenca, reconhecido designer que tem traba-lhado com importantes coletivos como Teatro El Público; e inúmeras obras do cinema cubano e produções internacionais; e Martha Diaz Farré, destacada diretora de teatro para crianças.

Todas as datas levam a homenagear o teatro. Voltemos então para Isabelle Huppert e sua sábia mensagem: o teatro renasce cada dia de suas cinzas.