ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Jorge Perugorría mostra a estatueta da Lucía 2017 (esculpida em bronze e pousando sobre uma lente fotográfica), concebida pelo artista Rafael Pérez Alonso (atrás). Precisou que cada ano o galardão será realizado por um artista diferente. Foto: www.ficg.cult.cu

NO mundo, a ideia que prevalece é que os espectadores abandonaram as salas de cinema e se refugiaram em seus lares. Porém em Cuba, onde essas salas se reduziram, ainda existe uma real paixão pelo cinema.

Quando é contabilizado o público que assiste aos diversos festivais, mostras, semanas de cinema que têm lugar, anualmente, na Ilha toda, os assistentes chegam às centenas de milhares.

O evento líder é o Festival Internacional do Novo Cinema Latino-americano, que ainda que registre certa redução, cada mês de dezembro atrai os fãs de Havana e de algumas capitais das províncias do país.

Os cubanos apoiam muito o cinema nacional, e os filmes es-treados sempre se tornam sucesso do público, e ainda que algum do que outro não seja do agrado do público, em breve resurge o gosto, pelo cinema feito no país.

VARIEDADE DE PROPOSTAS

A experiência mais recente foi a 16ª Edição da Mostra Jovem Icaic (de 4 a 9 de abril) um vento anual patrocinado pelo Instituto Cubano da Arte e Indústria Cinematográficas (Icaic) para, como referem seu postulados «estimular o conhecimento e a reflexão em torno da obra audiovisual dos jovens, que também se torna espaço para o debate, o diálogo, a troca criativa de realizadores, roteiristas, fotógrafos, editores, designers, atrizes e atores».

Neste ano a Mostra apresentou 40 obras no concurso: 25 de ficção, dez documentários e cinco de animação, escolhidas no total de 87 inscritas.

As temáticas e propostas têm muita variedade, entre elas a sexualidade, o erotismo, a infância poluída com a violência, a memória histórica, a espiritualidade, a família como eixo gerador dos conflitos e os contrastes existentes na sociedade cubana de hoje.

O júri, formado pelos diretores Lester Hamlet e Maryulis Alfonso, o ator Mario Guerra, a diretora de fotografia Denise Guerra e o diretor da arte Maykel Martínez, para premiar selecionou e apreciou que o cinema jovem cubano está tendo uma mudança respeito à sua linguagem e aos modos de narrar.  

Eslinda Núñez, Prêmio Nacional de Cinema 2011, filmou com Humberto Solás não só Lucia (1968), também Un día de noviembre (1972), Cecilia (foi a Isabel Ilincheta, em 1981), e Amada (1983). Foto: www.ficg.cult.cu Photo: Granma

Os prêmios principais foram: Melhor Ficção, Un instante, de Marta María Borrás; Melhor Documentário (partilhado), Casa de la Noche, de Marcel Beltrán e Días de Diciembre, de Carla Valdés Leon e o Especial do Júri para El Pescador, de Ana A. Alpízar.

Paralelamente aos prêmios, a Mostra incluiu sessões como Moviendo Ideas, um espaço de debate que acompanha o evento, a partir de sua primeira edição e que este ano focalizou sua atenção em temáticas tais como: Quais relatos costumam tratar os jovens cineastas cubanos? Quais são as estratégias discursivas às que apelam para narrar a partir da memória?

800 QUILÔMETROS DE HAVANA

O Festival de Cinema Pobre Humberto Solas finalizou para dar pé ao Festival Internacional de Cinema de Gibara, desde 16 até 22 de abril, que será presidido pelo reconhecido ator e diretor cubano Jorge Perugorría.

A mudança de nome resultou muito comentada e por esse assunto começou Perugorría seu encontro com a imprensa, na Casa do Festival do Novo Cinema Latino-americano, em Havana.

«O evento muda em alguns conceitos, mas o legado de Humberto Solás, seu fundador, fica tal qual. Declaramos-nos herdeiros de sua obra, pois acreditamos como ele no poder transformador da arte e o que significa para Gibara».

«Mudamos o nome — asseverou Perugorría, que fez a personagem de Diego, do filme Morango e Chocolate — com a ideia de que o espetro dos filmes seja amplo, dessa forma a participação não se limita, ampliam-se as possibilidades de ter um cinema de mais qualidade, em consonância com as próprias mudanças que experimenta o mundo tecnológico no âmbito cinematográfico».

Relativamente ao tema da continuidade, explicou que por isso foram criados os prêmios Lucía, título de um dos filmes emblemáticos de Solás, que serão outorgados em todas as categorias.

Anunciou que também serão entregues um prêmio Lucía de reconhecimento à obra da vida toda dedicada ao cinema, e nesta primeira entrega o receberão Eslinda Núñez e Adela Legra (a segunda e terceira Lucía, a primeira foi à falecida Raquel Revuelta), e de maneira simbólica a família de Humberto Solás, em homenagem por sua própria obra cinematográfica e à criação do Festival do Cinema Pobre.

Humberto Solás (Havana, 1941-2008) é uma figura emblemática dentro da cinematografia do Terceiro Mundo. Lucía é considerado pela crítica mundial como um dos dez filmes mais importante da história do cinema Ibero-americano. Foto: www.ficg.cult.cu Photo: Granma

«Outra maneira de manter seu legado — acrescentou — é não perder seu princípio de apoiar o cinema de menos recursos, comprometido, mas altamente artístico, e resolvemos, então, criar o Prêmio de Cinema em Realização Humberto Solas».

Neste ano o país convidado é a Espanha e entre os artistas que confirmaram sua assistência com seus mais recentes filmes, acha-se o diretor argentino Lucas Figueroa e o ator Imanol Arias (personagem de Leonardo Gamboa, no filme Cecília Valdés, de Humberto Solas, em 1981) com o filme Despido procedente; e a atriz Victoria Abril, que apresentará Nacida para ganar, de Vicente Villanueva, 2016.

Entre os convidados especiais assiste o porto-riquenho Benicio del Toro e aproveitando sua participação será lançado o livro Un día feliz, que trata sobre a palestra que ele e o diretor Fernando Leon de Aranoa ministraram, há um ano, na Escola Internacional de Cinema em San Antonio, com motivo do filme do mesmo nome, filmado em 2015.

O concurso recebeu 141 obras, de Cuba, Bolívia, os Estados Unidos, Espanha, Colômbia, Canadá, México, Itália, Suíça, Nicarágua, Argentina, México e o Brasil; e delas concorrem 14 longas-metragens de ficção, 15 curtas-metragens de ficção, 10 longas-metragens documentários, e 15 curtas-metragens documentários.

No jardim da Casa do Festival, Sergio Benvenuto Solás, quem foi diretor e cofundador do projeto Cinema Pobre, lembrou para nossos leitores que Solás, sempre sentiu um carinho muito especial por Gibara, a partir da filmagem de Lucía, lugar onde cujas cenas decorrem, bem como Miel para Oshun, o primeiro filme em formato digital e de orçamento reduzido de Cuba.

Segundo Benvenuto, foi filmando em Gibara que Solás teve a ideia de fazer um festival com seus pressupostos de cinema pobre, pois percebia que esse seria o futuro de cinema cubano.

Neste ano, o 16º Festival Internacional de Cinema de Gibara coincide com as comemorações pelo 200º aniversário da fundação da Vila (16 de janeiro), cuja baía foi batizada, em 1492, pelo almirante Cristóvão Colombo como «Rio de Mares».

E AINDA É ABRIL

Para completar o ano 2017 restam oito meses. Proximamente será o Festival do Cinema Francês, que segundo Christophe Barratier, um de seus fundadores, tornou-se um evento excepcional no mundo, devido à presença do público. E depois chega dezembro, com a explosão do Festival Internacional do Novo Cinema Latino-americano.