ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA

HÁ agora vinte anos, o diretor Christophe Barratier e seus colegas de Cinemania apostaram em um modesto Festival de Cinema francês em Havana.

Chegaram com Microcosmos: el pueblo de la hierba, de 1995, do qual Barratier foi produtor executivo, um documentário que maravilhou o público cubano e este, ao mesmo tempo, apaixonou os organizadores com seu gosto e apoio pelos filmes franceses.

O Festival, desde então recebeu uma acolhida entusiástica e tornou-se um encontro esperado, tanto pelos filmes quanto pela presença de diretores e atores que os acompanharam para seu lançamento.

Em entrevista coletiva, na sede da Aliança Francesa, Bar-ratier comentou que «naquele momento parecia uma audácia e agora 20 anos depois me satisfaz apreciar seu sucesso formidável».

Tem que lembrar que o atual magnífico prédio que acolhe a Aliança Francesa foi inaugurado em maio de 2015 pelo presidente da França, Francois Hollande, primeiro chefe de Estado francês em visitar a Ilha em mais de um século, ainda que as duas nações estabelecessem relações diplomáticas em 1902.

A mansão, cuidadosamente restaurada, é Monumento Nacional e foi residência do major general José Miguel Gómez (1858-1921), que foi segundo presidente da República de 1909 a 1913. Está situada no esplêndido Calçadão do Prado havanês, construído em 1772, mas reprojetado em 1928 pelo arquiteto e paisagista francês Jean-Claude Forestier.

A delegação francesa ao evento fez uma breve sinopse e considerou que nestas duas décadas foram exibidos mais de 300 filmes «de una grande diversidade, de culto, novos talentos, olhares diversos sobre as realidades do mundo» e neste 20º Festival, estendido de abril a maio, conseguiram trazer «50 títulos para um ambicioso programa que compreende 20 filmes de estreia, tanto de ficção quanto documentários, quatro longas-metragens, três comédias de culto e homenagens a Jean Pierre Melville e Agnes Varda».

UM OLHAR AO PROGRAMA

O realizador Rachid Djaidani, que lança em Havana seu segundo filme, Tour de France (sua obra-prima de ficção foi Rengaine, muito aplaudida em Cannes 2012) explicou-a como «um road movie sobre a inesperada relação que surge entre um homem racista, de idade avançada, e um jovem e famoso cantor de rap, que são obrigados a se embarcar em uma viagem rodoviária através da França».

Depois do enconto com a imprensa, Rachid Djaïdani disse a esta publicação que havia muitos anos tinha a ideia de fazer um filme cujo eixo fosse o antagonismo entre os personagens e escrever o roteiro levou-lhe dois anos de trabalho.

Não podia deixar de mencionar o famoso ator francês Gerard Depardieu, um dos atores principais, a quem qualificou de mágico, e «não é alguém a quem se dirige, mas ele o leva».

Outro filme incluído é L'Outsider (2016) do próprio Christophe Barratier, que exibiu em Havana todos seus longas-metragens: Los chicos del coro, de 2004; Faubourg 36, 2008 e La guerra de los botones, 2011.

L'Outsider, como assinala o catálogo «repassa a ascensão e a queda fulgurantes de Jérôme Kerviel, um outsider no coração do maior escândalo das finanças mundiais» e faz isso com os códigos estéticos do thriller e do drama psicológico, mas sem atordoar o espectador com explicações técnicas incompreensíveis.

Da animação francesa, à qual Frederique Bredin, presidenta do Centro Nacional do Cinema Francês (CNC), afirmou se concede especial atenção para atrair às crianças e adolescentes, exibe-se nada menos que El principito, dirigido por Mark Osborne, sobre a obra universal de Antoine de Saint-Exupery.

HOMENAGENS A MELVILLE E VARDA

Jean Pierre Grumbach (1917-1973) — conhecido como Jean-Pierre Melville — é homenageado em seu centenário. Precursor da nouvelle vague e considerado um expoente do cinema negro, toma o pseudónimo de Melville para lembrar o autor de Moby Dick.

Seus principais atores de culto foram Jean Paul Belmondo, Lino Ventura e Alain Delon. Entre seus filmes mais reconhecidos estão El confidente (Le doulos, 1962), Hasta el último aliento (Le deuxième soufflé, 1965), El samurai (Le samouraï, 1967), El ejército de las sombras (L’armeé des ombres,1969) e El círculo rojo (Le cercle rouge, 1970).

Em Havana, seu sobrinho Remy Grumbach, diretor da Fundação Melville informou que todos seus filmes «acabam de serem restaurados e digitalizados e começaram a ser exibidos mundialmente por seu centenário. Cuba é o primeiro país deste périplo».

Falando de restauração, Frederique Bredin lembrou os acordos assinados entre esta organização e o Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficas (Icaic) há dois anos e como muitos foram concretizados, por exemplo, a digitalização da sala La Rampa.

Bredin qualificou de significativo que o Festival de cinema se insira no mês da cultura francesa em Cuba (esta é a segunda edição) «um evento que foi decidido durante a visita de Hol-lande, em 2015, e reiterado pela do presidente Raúl Castro a Paris, em 2016».

A segunda homenagem foi intitulada Varda/Demy: lembrando dois grandes do cinema francês com a projeção de filmes de Varda (1928), entre eles sua biografia documentada em Las playas de Agnès e a mítica Cleo de 5 a 7, de 1961.

Varda foi casada com o diretor Jacques Demy desde 1962 até a morte dele em 1990 e em seu filme Jacquot de Nantes (1991) traça um relato da infância de Demy, e também em Les Demoiselles ont eu 25 ans (1993) referindo-se, naturalmente, a Les Demoiselles de Rochefort.

Depois de três décadas da primeira visita de Agnes Varda à Ilha, o 20º Festival possibilita seu retorno através da extraordinária exposição fotográfica Varda/Cuba/Cinéma, 120 fotos de milhares feitas então para seu curta-metragem Saludos cubanos (Salut les cubains), em 1962, e que foi instalada no Museu Nacional das Belas Artes.

Comemoração de suas décadas do Festival de Cinema francês em Cuba, que como insistiu Christophe Barratier «nunca teve a intenção de criar um mercado, mas compartilhar nossas imagens» tentando «trazer à Ilha nosso mais recente cinema em toda a sua diversidade».