ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Em 1894, em uma breve estada, José Martí morou nesta casa no México.

MÉXICO. DF.— Em forma de cascata chegam a meu pensamento as passagens mais conhecidas da estada de nosso Apóstolo José Martí neste país que, tal como foi para ele, também é refúgio para aquelas boas pessoas que sofrem perseguição no mundo. As imagens abalam o visitante que entre tantas belezas juntadas no Centro Histórico da capital se depara com uma placa que diz: «Nesta casa tlaxcala morou José Martí. Advogado, poeta, lutador e Herói Nacional de Cuba».

Após ficar surpreendida, inevitavelmente, a repiração se torna ofegante. Olho ao redor e procuro respostas que só podem ser encontradas na imensidade da vida martiana, renovada e crescida cada vez que um homem decoroso se aproxima dela. A porta convida. As pernas petrificadas avançam com um movimento contraído porque seus mistérios mais profundos convidam a entrar.

Não tenho medo de que ao escrever estas linhas se possa pensar en ponderações exageradas. Todos os cubanos têm seu próprio Martí e sabem das surpresas que envolvem lê-lo. E sabem muito bem disso aqueles que já estiveram perante seu túmulo, no cemitério de Santa Ifigenia, onde repousam seus restos mortais, e até parece que sua memória nos fala.

O belo quintal interior da casa, localizada na rua San Ildefonso — hoje a representação do governo do estado de Tlaxcala — os dois andares, suas varandas enfeitadas com a cor verde das plantas e outra placa que diz: «Eu sei desaperecer, mas não desaparecerá meu pensamento...» são imagens que os olhos percebem mal se entra. Porém, os outros olhos, os do coração daqueles que consideram o essencial veem muito mais dentro do lugar, e a mente rapidamente imagina, e até se pode ver atravessando esses espaços levando sua alma.

Um banco se oferece e a gente se senta, para descansar um pouco o corpo agitado pela comoção, mas também para reconstruir a sequência mais próxima que o visitante tem da permanência de José Martí na terra mexicana.

Chegou a este lugar, onde morava seu amigo Manuel Mercado, em julho de 1894. A inesperada visita feita, em pouco tempo se tornou estada. Martí adoeceu e a família lhe insistiu para que deixasse o hotel onde se alojava e ficasse com eles. Depois da recuperação, retomou seus propósitos e viajou.

Porém, a imaginação esvoaça, e embora esta não seja a casa onde ele morou no México durante sua juventude, não e difícil imaginá-lo nesta terra, a partir daquele fevereiro de 1875. No terminal de Buena Vista seu pai espera a chegada dele, Dom Mariano, junto a Mercado, vizinho da família quen veio acompanhá-lo. Depois do abraço desejado daqueles anos de desterro lhe seguem perguntas fundamentais. Um silêncio bem eloquente lhe diz que sua querida irmã Ana, com 19 anos, aquela que o pintor namorado retratou, já não está no mundo dos viventes.

Quem sabe quais foram os espaços que o viram chorar na noite em que escreveu aqueles versos iniciais de seus poemas Meus pais dormem, dedicado à perda de sua irmã, à qual «conseguiu morrer sem vê-lo». «É hora de pensar. Pensar espanta/ Quando se tem a alma na garganta». Quem poderia saber de sua passagem por estas ruas, como se fosse um raio, movido pelas inquietações de seus 22 anos. As inquietações políticas, que se nutriram do México pelo qual entrou na América Latina independente, e as inquietações do coração, onde o poeta foi o eleito dos versos, conhecendo tertúlias, teatros e amores.

A cálida terra asteca foi inspiração de sua obra dramática Amor con Amor se paga, e também testemunha da encenação da peça, presenciada pela família — estabelecida naquela época — à qual a sala não bastou de tanto orgulho. A rica vida cultural que a cidade lhe ofereceu, serviu de alimento para seu já antigo espírito de poeta. E México mesmo, foi a certeza que era preciso achar formas próprias de governo para solucionar os problemas das sociedades americanas. No México foi onde expressou, pela primeira vez, esse vigente conceito da unidade latino-americana quando escreveu «Caso Europa for o cerebro, nossa América seria o coração».

Com certeza este céu sabe do febril amor martiano. Aqui ele escreveu um dos mais belos versos de amor que haja inspirado uma mulher, a cubana Carmen Zayas Bazán, que ao vê-la ele sentia que o humano se aproximava do divino e a quem escolheu para se casar, a mãe de seu Ismaelillo.

Desta aproximação é possível imaginá-lo em suas noites, «a propícia amiga dos versos» — porque nela achou sempre o melhor entorno para criar — escrevendo para a Revista Universal, diário de política, literatura e comércio; para El Socialista, órgão do Grande Círculo Operário do México; El Federalista ou El Eco de Ambos Mundos. Até aqui, sem muito esforço mental, chega a inquietação inteletual do Liceo Hidalgo e a sociedade Alarcón, sociedades das quais foi membro importante.

Hoje é 19 de maio. Diz a história, e é certo, que nesse dia caiu, de cara ao sol, lutando pela liberdade de Cuba o mais universal de seus filhos, o filho digno também da América. Porém, uma coisa é cair e morrer é outra. Temos certeza disso aqueles que na convulsão do presente procuramos nele a bússola.

Escutamo-lo outra vez, E faz-se a luz.