ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Fãs do danzón em Cuba. Foto: Ricardi Alonso Venereo

CADA nova edição do Festival Internacional Danzón Habana, que organiza a União dos Escritores e Artistas de Cuba (Uneac) e sua Associação de Músicos, desde o ano 2004, reconhece e faz uma homenagem à história deste gênero musical cubano e suas figuras principais, nas mais jovens províncias do país: Artemisa e Mayabeque.

Por isso, o evento Danzón Habana 2017, que terá lugar de 21 a 25 de junho, na capital e em outras províncias próximas, dedicará sua presente edição às cidades de San Antonio dos Baños, em Artemisa e Madruga e Santa Cruz del Norte, em Mayabeque.

Como deu a conhecer o maestro José Loyola Fernández, presidente-fundador do evento, novamente estas três cidades cubanas são o centro de um importante grupo de atividades em torno das figuras dos irmãos Raimundo e Pablo Valenzuela, de San Antonio de los Baños, em Artemisa; e de José Urfé e Antonio María Romeu, de Madruga e Santa Cruz del Norte, respectivamente, em Mayabeque, que serão o centro deste Festival Internacional fora da capital.

Igualmente outras cidades de Artemisa e Mayabeque estarão envolvidas na magia do danzón, durante os dias que durar o evento. Por exemplo, em cidades como Artemisa, Guines, Quivicán e Bejucal, entre outras, onde hoje existe um forte movimento de clubes de danzón e orquestras que cultuam esse gênero, poderá desfrutar-se desta dança nacional, mais uma razão para que a Uneac sempre retorne a estas duas províncias.

UM POUCO DE HISTÓRIA: O DANZÓN EM ARTEMISA E MAYABEQUE

O danzón, gênero nascido em Matanzas, sob a batuta de Miguel Ramón Demetrio Failde Pérez (1852-1921), autor da peça Las alturas de Simpson, foi escutado e dançado, pela primeira vez, em 1º de janeiro de 1879, nos salões do Clube de Matanzas, depois convertido em Liceu Artístico-Literário (hoje Sala White.). Fê-lo com sua orquestra Los Faildes, fundada em 1871, na qual também tocavam os seus irmãos Eduardo e Cándido.

O danzón é considerada a dança nacional cubana e Patrimônio Cultural da Nação. Contudo, não resulta atraente para muitos jovens. Alguns músicos acometem a tarefa de revitalizá-lo e torná-lo mais visível nos espaços públicos e de dançar do país. Foto: WWW.GIRON.CU

A partir de então, o danzón encontrou em outras províncias do país um meio favorável para seu desenvolvimento.

Enquanto em Matanzas os Faildes cultivavam o novo ritmo e Miguel Ramón Demetrio Failde Pérez desfrutava do sucesso de sua música Las alturas de Simpson, no Ocidente do país Raimundo Valenzuela e Aurelio Gómez Jardín realizavam um trabalho semelhante. A obra do segundo, lamentavelmente pouco conhecida, segundo o pesquisador Luis César Núñez, chegou mais além das nossas fronteiras, pois seu danzón Artemisa, dedicado a essa vila, onde ele nasceu, chegou a fazer parte do repertório da banda militar da cidade de Lambayeque, no Peru, quando era regida pelo maestro Ricardo Flores Vizcarra.

Raimundo Valenzuela (1848-1905) e Pablo Valenzuela (1859-1926) de León (1848- 1905) fizeram parte da orquestra La Flor de Cuba, de Juan de Dios Alfonso. Foram estes dois músicos os que mais bri-lharam no Ocidente do país, especialmente na que é hoje a província de Artemisa.

Em Candelaria, igualmente na província de Artemisa, nasceu, em 25 de dezembro de 1926, o violinista, compositor e regente de orquestras Enrique Jorrín Olead. Jorrín é autor das peças Unión Cienfueguera, Doña Olga, La Antorcha de Artemisa, Candelaria e outras músicas do gênero cha cha cha que são La Engañadora, El Alardoso e El Túnel. Fez parte das orquestras Artemisa, Ideal e Arcaño y sus Maravillas. Foi regente da orquestra América e formou sua própria orquestra em 1954.

Rapidamente, o novo ritmo, que veio substituir a contradanza, virou sucesso nos sa-lões de dança do país e já no século XX foi declarado dança nacional. O exemplo de Miguel e sua orquestra Los Faildes foi seguido por outros músicos, entre eles, compositores e regentes de orquestras da atual província de Mayabeque.

Alguns deles foram: Nicolás González, clarinetista. Foi conhecido como Sinsonte Guinero, professor e regente da banda dos Bombeiros de Guines; Pedro Plutarco Rojas e González, trombonista, conhecido por Perico, fundou sua orquestra, primeiramente em 1884, em uma primeira etapa, e em 1904, em uma segunda, na qual contou com Andrés Rojas, no violino e Miguel Rojas no clarinete. Estes irmãos Rojas constituíram uma família de músicos que formou novas gerações. Hoje em Guines conseguiu-se refundá-la como a orquestra Hermanos Rojas e mensalmente, com músicos aficionados da localidade, oferecem atuações dominicais na praça da vila. Ainda, existe a orquestra Melodias Danzoneras.

Menção à parte merece a cantora Dominica Verges por ter sido a única mulher que foi intérprete do danzón cantado e do danzonete. Ela cantou, entre outras, com a orquestra Siglo XX.

Porém, sem dúvida, de todos eles os mais importantes foram os integrantes da família Urfé, em Madruga, liderados por José Urfé, seus filhos José Esteban, Odilio, Orestes e seu irmão Jesús, clarinetista.

Urfé, compositor, clarinetista, professor e regente de orquestra e bandas, fez estudos musicais sob o cuidado do professor Domingo Ramos. Como autor, legou destacadas obras, entre habaneras, criollas, caprichos e, sobretudo, danzones, à parte de alguma música de corte religioso. Viajou em diversas ocasiões ao México e os Estados Unidos integrando orquestras de teatro. Entregou ao danzón elementos rítmicos procedentes do son que definiram, desde então, a atual forma do danzón cubano. Outros danzones seus muito escutados e conhecidos foram: Fefita, Nena, El churrero, El dios chino e El progreso.

Conhecido como «O mágico das teclas», Antonio María Romeu (1876–1955) começou a tocar em salões de dança com dez anos de idade. Em 5 de agosto de 1887 estreou como pianista no Cassino Espanhol de Aguacate, onde tocou, pela primeira vez, um danzón intitulado Carió no hay mejor café que el de puerto Rico. Seu primeiro danzón foi Ten Dollar or Ten Days, e depois conseguiu escrever mais de 500 danzones, entre os que atingiram extraordinária difusão: Marcheta, Alemán prepara tu cañón, La danza de los millones, El servicio obligatorio, Cinta azul, El mago de las teclas, Jibacoa, Los frescos e, sobretudo, La flauta mágica, em parceria com Alfredo Brito. Mas, sobretudo, a peça sua que mais universal se tornou é o danzón Tres lindas cubanas, estreado em 1926 e onde aparece pela primeira vez um solo de piano. Foi o nascimento de um estilo singular na interpretação do danzón.

Hoje, o danzón continua cativando as novas gerações de músicos de Mayabeque, como mostra o jazzista Chucho Valdés, natural da vila de Quivicán, em seu Danzón para Alicia, peça com uma grande força experimental ou em seus antológicos Valle de Picadura e Cien años de juventud.

O Festival Danzón Habana 2017 será dedicado, ainda, aos estados mexicanos de Yucatán, Veracruz, Campeche e Quintana Roo. Sob o lema ‘Do danzón, ao Mambo, ao Cha cha cha, no centenário de Dámaso Pérez Prado (1917-1989), e homenageará, ainda, Paulina Álvarez (1912-1965), imperatriz do danzonete, e a Aniceto Diaz (1887-1964) criador do danzonete, bem como será lembrado o centenário da chegada do danzón de Cuba a Yucatán.