ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
O jovem diretor de orquestra Maykel Blanco se destaca por defender o Son cubano. Photo: Roberto Bello

NASCEU em uma família de excelentes dançarinos, embora nenhum tenha sido músico de profissão. Ainda criança, Maykel Blanco gostava de escutar música através da radio e a televisão. Com 15 anos teve sua primeira orquestra, no movimento de artistas amadores e aos 18 regeu sua primeira orquestra profissional. Sua vida desde então flutua entre a orquestra que se chamou La Suprema Lei e sua orquestra atual: Maykel Blanco e su Salsa Mayor.

O semanário Granma Internacional entrevistou este jovem diretor, qualificado de uma máquina musical, por prestigiar as novas formas de interpretar a música cubana.

Sendo um músico empírico, como conseguiu desenvolver seu trabalho?

«Com muita dedicação. Para mim o começo tornou-se muito difícil, mas hoje em dia estudo muito, coisa que não fiz na minha infância. Diariamente acordo cedo e dedico uma hora de estudo ao piano, eu sou percussionista, sei tocar todos os instrumentos, atualizo-me no acontecer do piano e na esfera dos arranjos musicais, igualmente sei muito bem o que quero, o caminho que devo seguir e como não repetir as coisas. Acho que a dedicação, o empenho e o desejo que tenho ajudaram-me muito».

Nestes anos de trabalho qual foi o acontecimento mais importante para Maykel Blanco e sua Salsa Mayor?

«A forma em que crescemos cada ano, um pouquinho hoje e outro amanhã. Porém, acho que a mais destacada foi a peça Recoge y vete, da minha autoria, com a qual fomos conhecidos em Cuba e no mundo. Isso permitiu que depois chegassem outras músicas, que as pessoas aceitaram, gostaram, desfrutaram delas e se divertiram dentro e fora do país».

Afirma-se que hoje, todas as orquestras de música popular cubana tocam a mesma música e apenas são reconhecidas pelos cantores. Em outra época não acontecia assim. Particularmente com o senhor acontece igual?

«Tem critérios de que minha orquestra se assemelha à Los Van Van, Manolito Simonet y su Trabuco, Pupy y los que Son Son, inclusive, à orquestra Revé. Indiscutivelmente eu sinto uma grande influência destas orquestras. Contudo, não tento me comparar ou imitá-las, porque não é meu estilo de trabalho, tampouco minha intenção. Não nego que há influência, a qual é inevitável: cresci escutando estas orquestras».

«Também hoje é preciso levar em conta o número de graduados das escolas de música. Cuba sempre formou bons músicos, mas acontece que anteriormente eram menos as orquestras. Por isso, é muito mais difícil em pouco tempo procurar um som próprio. Eu acho que meus arranjos musicais são diferentes, não são parecidos com os de ninguém».

«Hoje, meus arranjos são superiores àqueles feitos há mais de cinco anos, existe menos dependência e semelhança. Eu quero esclarecer uma coisa: eu defendo o son. O son, o songo, a timba ou como se queira chamar são muito comuns. Eu percebo isso como um arco-íris com suas cores, mas finalmente todos seguem a mesmo rumo musical, por isso acho que minhas peças possuem um pouquinho mais de son, outras de timba ou songo que finalmente só são música cubana para dançar e o único que fazem é enriquecer mais o trabalho daquele que se dedica ao son nestes tempos».

A orquestra Maykel Blanco y su Salsa Mayor é uma das preferidas dos dançarinos cubanos. Photo: www.cubadebate.cu

«Faço fusão em minha música, caso não fazê-la seria muito fraca, seria falta de riqueza. Hoje o público o exige e por isso acho que não sacrifiquei meu caminho para nada conseguir. Estou fazendo o trabalho que eu quis fazer e defender do começo. Eu lanço mão de frases do jazz, mas sem me afastar do son».

O senhor considera que tem seu estilo próprio. Qual é?

«Está na forma de escrever o baixo, por exemplo, na forma de separar os trombones dos trompetes, há percursos próprios do songo que não posso mudar. A gente vai à Havana Velha e escuta os músicos tocar peças tradicionais e todas são semelhantes, todos os sextetos ou septetos possuem em seus acordes a mesma música cubana que eu estou defendendo, que é a parte da sonoridade do songo, que sempre terá semelhança em algum elemento. Caso escutar atentamente meus arranjos musicais, a forma de fazer muitas orquestrações vai perceber que existe um estilo próprio, já previsto».

Assevera-se, também, que os diretores, muitas vezes compositores, só gostam de tocar suas próprias músicas. É certo

«Não é totalmente certo. Quando um compositor entrega uma peça de sua autoria, se não se ajusta ao meu estilo, quer dizer ao da minha orquestra, não o aceito. Pessoalmente, eu não daria uma peça minha a Formell, que não se ajustasse ao seu estilo. Eu já fiz arranjos a músicas de outros compositores na minha orquestra: há uma delas no meu primeiro CD Ya llegaron los cubanos, a música intitula-se No juegues con la candela, soubemos que durante várias semanas esteve no topo dos sucessos musicais da rádio de Los Angeles. Também, de outros autores, por exemplo, de Pablo Milanés, mas fiz uma versão com meu estilo e inclusive a gravamos. Trata-se de Años. Teve uma boa realização. Está no CD Recoge y vete. Este CD foi primeiro que gravei com a Envidia Records.        

«É verdade que as músicas mais populares são todas minhas, mas não porque não traba-lhe as de outros. Se uma peça se ajusta ao nosso estilo, perfeito. Mas se não for assim, com grande dor, não a aceito, mas indico ao autor outro compositor que poderia ter interesse».

O senhor acha que alguma de suas peças transcenderá no tempo e será tocada por orquestras dessa época?

«Eu não sei, porque os tempos são diferentes. Hoje, no Peru, existem orquestras que tocam minhas músicas, não são famosas. Uma das minhas peças que se intitula Tú estás, teve ampla repercussão. É preciso ver o que acontece com a música daqui a 50 anos, 100 ou mais anos».

O que faz para compor?

«Tenho diferentes maneiras de compor. A ideia surge quando caminho pelas ruas, quando vejo algo que justifica uma música, um fato, alguém que me contou algo. Começo a escrevê-la pelo estribilho, o coro e depois faço a estrutura geral».

Como gosta que seja a letra?

«Diferente, tento que as temáticas não se repitam e faço a mesma coisa nos CDs. Minhas músicas são dedicadas às mulheres, louvando-as, reconhecendo-as, ao amor, à vida, não apelo à violência. Eu escrevo para que o povo dance e desfrute».

Em que momento de sua carreira acha que se encontra?

«Nos começos, porque tenho muitas ideias para realizar, que acho só é 15% das coisas que eu quero fazer e que ainda não pude fazer».

Dos públicos para os quais tocou, qual é o mais exigente?

«O cubano. O cubano é um público muito difícil e mais nestes tempos que há outros gêneros musicais em vigor. Não obstante, a música cubana é muito forte e vai sobreviver, como já aconteceu nas décadas dos anos 70 e 80. Quando viajamos ao estrangeiro já o público conhece as canções, as dançam ou escutam».

Quem lhe deu a alcunha da Máquina Musical?

«Manolito Simonet alcunhou-me dessa forma, no mesmo ano em que surgimos, em 2004. Ele escutou a peça Recoge y vete e parece que gostou dela e um dia, em uma apresentação na Casa da Música de Miramar, ele subiu ao palco para tocar comigo. A terminar abraçou-me e me disse: ‘você é uma máquina, isso, uma máquina musical’. Eu comentei aquilo à mídia e ela começou a alcunhar-me dessa forma. Se realmente Manolito tem razão ou não, eu não sou quem deve dizer. Eu só faço meu trabalho e sabe, gostaria, porque é um sonho que tenho, sentar-me e ver a orquestra a partir do público, na frente, para escutá-la».

Até onde tem interesse de dirigir seus próprios videoclipes musicais?      

«Sempre que puder. Eu já fiz o primeiro com a peça Debajo de la balacera. Com algumas ideias que eu já tinha e a ajuda de alguns dos meus amigos realizou-se. Eram materiais um pouco informais que pensei não serviriam e vejam, afinal funcionou. O produtor dos meus discos não gostou deles, mas agora soube que o estão exibindo na televisão italiana. Tornou-se um sucesso, uma notícia, porque até agora só tínhamos referências de que na Europa nós somente aparecíamos na rádio e nas danceterias e outros através dos disc jockey. A peça foi incluída no CD Anda y pégate, que é meu terceiro CD com Francesco Caliza e Planet Records».

«Contudo, por causa do intenso trabalho que tenho na atualidade tive que abrir mão do empe-nho de realizar propriamente meus videoclipes».

O mundo do mercado do CD hoje mostra-se deprimido. Como o enfrenta?

«Posso dizer-lhe que tanto o CD feito com a Envidia Records quanto os feitos com a Planets Records venderam-se com sucesso, pois com está última fiz o quarto CD que se chama Pa cualquiera e agora o último, que gravei com a Bis Music».

«Hoje, meus CDs se acham em lojas de música latina na Europa, Ásia e a América. Planet Records, minha casa gravadora, conseguiu um contrato com uma companhia que se chama Corta Records, que os coloca no Peru, Venezuela, Costa Rica, Argentina, Colômbia e o México. Em 2010, a orquestra viajou ao Peru, também realizamos uma turnê pela Europa, onde voltaremos este ano. Onde estivemos? Itália principalmente, Dinamarca, França, Holanda, Bélgica, Suíça, Suécia, Polônia e outros».

Tem convidados em seu CD?

«Sim, por exemplo, posso mencionar Coco Freeman, Waldo Mendoza, Dagoberto González, Sexto Sentido, Alexander Abreu».

Conforme com o trabalho?

«Eu sou um inconformado, não vivo satisfeito com o que já fiz, inclusive, em 90% de meus concertos acabo triste, porque com só uma nota indevida de um músico basta para me entristecer. Trabalha-se tanto para escrevê-la bem, para que seja significativa, não importa que o público não a tenha percebido. Quando isso acontece acho que não consegui o objetivo. Na área audiovisual estou apenas começando e acerca da discografia, talvez pude fazer algo melhor».

«Tenho muitas expectativas, ideias ainda por realizar, não tenho medo de nada, aquilo que me proponho o imponho».

Como se define?

«Como um músico, regente de sua orquestra, muito claro e convicto do que quer e sempre lutando, e logicamente, como um cultor do son destes tempos.