
Na 38ª edição do Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano, realizado em dezembro de 2016, o filme cubano El Techo, da realizadora cubana Patricia Ramos, foi aceito na difícil competição de obras-primas de ficção.
O filme não ganhou o prêmio Coral, mas recebeu dois prêmios colaterais, o da Rede de Mulheres Realizadoras Sara Gómez e o do Círculo de Cultura, da União dos Jornalistas de Cuba.
O júri do Sara Gómez argumentou sua decisão a partir do roteiro «de grande solidez conceptual» e da estrutura dramática «sem estridências, pela frescura e originalidade»; entretanto, os jornalistas cubanos destacaram a «narração fílmica, a direção de fotografia, a trilha sonora e a organicidade dos personagens».
Justamente neste verão começou seu caminho pelas salas de estreia de Havana e do país. Trata-se de um filme que em 75 minutos relata as aspirações e problemáticas de três jovens, um deles branco, outro negro e uma jovem grávida.
O intenso enredo passa pela anedota desses três amigos, quem dia a dia se reúnem para contar suas histórias e sonhos e, sem apenas recursos, fantasiando com a prosperidade, resolvem abrir uma pequena pizzaria no teto do prédio, onde moram no populoso bairro havanês de Cayo Hueso.
Ramos, graduada de Filologia na Universidade de Havana e de roteiro na Escola Internacional de Cinema e TV, de San Antonio de los Baños, começou como documentarista e roteirista e fez isso com curtas tão elogiadas quanto NaNa em 2004; El patio de mi casa, em 2007, e o documentário sobre religiosidade e música Ampárame, em 2009.
El Techo, primeiro longa-metragem de ficção de Ramos, foi gravado — segundo expressou em seu momento em entrevista coletiva no Festival de Havana — com recursos mínimos. «O produtor foi Humberto Jiménez, meu esposo, e também conseguimos apoio de outros fundos internacionais e contamos com o respaldo do Instituto Cubano da Arte e Indústria Cinematográficas (Icaic)».
Por seu lado, Jiménez apontou: «O desafio no cinema independente é que se trabalha com poucos recursos, mas todos os envolvidos contribuíram com seu talento para poder fazer este filme. Usualmente o que é uma falta se converte em um lucro, pois ao ter pouco dinheiro, tínhamos pouco tempo para filmar (17 dias) e isso fez com que o filme estivesse pronto mais rápido».
Os personagens principais são interpretados por Enmanuel Galbán e Andrea Doimeadiós, jovens atores do grupo de teatro El Público, que dirige o Prêmio Nacional de Teatro, Carlos Díaz, e o terceiro por Jonathan Navarro, estudante de canto lírico.
Ramos também se decidiu por uma jovem equipe de realização: o diretor de fotografia Alan González; a editora Kenia Velásquez e o design sonoro de Angie Hernández, mas a música, original, foi posta em mãos dos experientes Magda Rosa Galbán e José Antonio Leyva.
Galbán e Leyva explicaram na entrevista coletiva do Festival de dezembro que «a mistura da música cubana e a mediterrânea foi o principal recurso para criar a trilha sonora do filme, junto ao uso da mandolina, para que a música acompanhasse todo o tempo o desenvolvimento argumental do filme».
Um detalhe perante a insólita mandolina em um filme cubano: um dos personagens, o jovem negro, afirma que tem ancestrais sicilianos e quer buscar sua família italiana.
Outro aspecto a ser destacado em El Techo é sua visualidade, muito atraente, Havana vista desde cima, «como ela merece — explicou o diretor de fotografia— com dignidade, sem destruí-la, mas sem edulcorá-la demais».
É certo que o filme se ressente com um excesso de diálogos, mas se compensa com essa arriscada encenação, desenvolvida inteiramente na laje, onde os três amigos contam suas frustrações, alegrias e sonhos e abrem sua pizzaria.
Há quase uma década, o Icaic abriu a Mostra de Novos Realizadores — onde Ramos foi premiada —, que cresceu em número de obras, na intensidade de suas propostas e a aceitação do público.
Por um tempo, o cineasta Fernando Pérez foi diretor da Mostra e, depois de expressar sua confiança nas contribuições dos jovens, instou-os a «reforçar a qualidade, porque nessa busca imanente, transgressora e diversa, a ressonância maior estará, definitivamente, em sua transcendência artística».
Patricia Ramos anda por esses caminhos, tanto nas temáticas quanto nas características técnicas. El Techo é sinal disso.




