ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
O drama shakespeariano visto pelo russo Grigori Kozintsov com o grande ator Innokenti Smoktunovski.

EDUARDO Muñoz Bachs é, sem dúvida, o mais importante, afamado e prolífico expoente do que chegou a ser catalogado como Escola Cubana do Pôster Cinematográfico.

Seu nome retorna agora às manchetes não por um aniversário ou uma justa homenagem, mas devido a que a coleção Pôsteres Cubanos de Cinema, que custodia a Cinemateca de Cuba, foi inscrita no Registro Nacional do Programa Memória do Mundo da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

O projeto iniciado em 1992 tem não só o fim de preservar o patrimônio documental de relevância internacional, mas de promovê-lo e as inscrições são propostas pelos comitês nacionais e regionais da organização mundial.

Nesse Registro da Memória do Mundo já há três fundos cubanos: o José Martí Pérez (2005); os Negativos originais do Noticiário ICAIC Latino-americano (2009) e o Diário de campanha e manuscritos de Ernesto Che Guevara (2013).

«A coleção Pôsteres Cubanos de Cinema constitui parte imprescindível do patrimônio do Instituto Cubano da Arte e Indústria Cinematográficas (Icaic). São a expressão gráfica que acompanhou a cinematografia cubana em todo seu decurso», assinala-se no texto que justifica o valor da obra apresentado por Nuria Gregori, presidenta do comitê cubano do Programa da Unesco.

No livro Ciudadano cartel (Cidadão pôster), de Sara Vega, Alicia García, Claudio Sotolongo (Edições Icaic, 2011) são citadas relevantes figuras do cinema mundial que se referiram aos pôsteres cubanos. Alguns exemplos: o ator italiano Jean Maria Volonté: «Os pôsteres cubanos de cinema são únicos porque dão ao cinema sua verdadeira dimensão»; a atriz francesa Jeanne Moreau: «Os designers de cinema cubano são designers-poetas» e o diretor norte-americano Francis Ford Coppola: «Sou um admirador apaixonado e um colecionista dos cartazes cubanos».

Desde que Muñoz Bachs criou seu pôster para o filme cubano Historias de la Revolución (1960), de Tomás Gutiérrez Alea, até agora a Cinemateca de Cuba guarda com zelo cerca de 3 mil obras.

Dos inícios estão os cartazes de Antonio Fernández Reboiro, Rafael Morante, Julio Eloy, Rostgaard, Héctor Villaverde, Rene Azcuy e Antonio Pérez (Ñiko) e inclusive de relevantes artistas das artes plásticas cubanas e internacionais, diga-se René Portocarrero para a Primeira semana de cinema polaco, em 1961; Raúl Martínez, que reiterou sua preferência pelo pop art no já clássico pôster para a Lucía, de Humberto Solás, em 1968, ou o espanhol Antonio Saura, autor do cartaz de Memórias do subdesenvolvimento, de Tomás Gutiérrez Alea (1968).

Dessas pequenas obras de arte, agora patrimoniais, mais de mil levam a assinatura Muñoz Bachs.

UMA MARCA INCONFUNDÌVEL

Eduardo Muñoz Bachs (Valença, Espanha, 1937 - Havana, Cuba, 2001) é um nome imprescindível para o pôster cubano. Os fãs do cinema sabem que, às vezes, a atenção a um filme chega primeiro com as imagens de seus pôsteres.

Este mestre do design, em sua intensa e extensa obra foi também designer, pintor, ilustrador e designer gráfico, embora seu trabalho mais significativo seja o vinculado à sétima arte.

Seus cartazes para o cinema têm uma marca pessoal, que fizeram com que ele ganhasse inúmeros prêmios em importantes festivais de cinema: Leipzig, Ottawa, Cannes, Paris, do Hollywood Report e, em Cuba, seis prêmios Coral nas edições do Festival do Novo Cinema Latino-americano de Havana.

A história de Muñoz Bachs com o cinema cubano se inicia em 1960, já dissemos, com o pöster para o filme Historias de la Revolución.

Um de seus colegas, o designer Héctor Villaverde na apresentação da Exposição Pôsteres de Bachs, realizada em 2000, em Veracruz, México, expressou: «Curiosamente neste primeiro pôster de Bachs, que realizou a pedido do próprio Gutiérrez Alea, o autor utiliza uma foto a preto e branco de uma cena do filme impressa em offset, algo que não repetirá nunca mais em sua produção de pôsteres».

Muñoz Bachs vai na procura de sua marca e o consegue. O designer precisou seu método de trabalho em uma entrevista jornalística: «Uma vez visto o filme busco uma ideia, faço esboços muito pequenos e simples, de duas polegadas mais ou menos, e quando me satisfaz algum, passo a materializá-lo diretamente. Assim, o design é espontâneo, mais solto».

O resultado é, no dizer de Villaverde, «um estilo o mais distante do realismo fotográfico que possamos imaginar, seu pessoal uso da cor extrai todas as possibilidades que permite a técnica da serigrafia».

A obra magnífica de Muñoz Bachs ficou para a história do pôster de cinema cubano, latino-americano e universal, pois os realizou para filmes húngaros, russos, espa-nhóis, ingleses, italianos, japoneses ou mexicanos e neles captou a essência de cada filme, mas, como se assinalou em seu momento, feitos à cubana, mais bem à Muñoz Bachs.

Foi um designer prolífico, ainda que obviamente não se tratasse só de quantidade, mas da qualidade de sua obra, com um estilo perfeitamente reconhecível. Com razão foi considerado como o artista mais importante do pôster cubano.

Quem não diz Muñóz Bachs quando vê um cartaz cubano de Charlot? Quem não se estremece de novo com Crianças de-saparecidas, da documentarista Estela Bravo? Quem não ri com o pôster de Por primera vez, sobre o documentário de Octavio Cortázar, e se emociona depois?

Sua marca é inconfundível, original, de traços precisos, direto, muito elaborado, minucioso e também, pois não, com graça, humos e sátira inteligente.

De Eduardo Muñoz Bachs ficam obras inesquecíveis, além das já mencionadas, A fortaleza escondida, 1965; A quimera de ouro, 1962; Hamlet, 1964; O Deserto Vermelho, 1966; Gallego, 1988… Todos ao estilo que o converteu em uma lenda do pôster cubano.