ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
No Colóquio Homenagem, que o Centro Cultural Dulce María Loynaz dedicou a Amado del Pino, o crítico teatral Osvaldo Cano disse acerca do dramaturgo: «Amado tinha o grande mérito de tecer redes de amizade, foi apaixonado e desmesurado, um cubano intenso».. Foto: Cortesia Alejandro Palomino

«O teatro tem uma vida abundante que desafia o espaço e tempo», disse em 27 de março deste ano, a afamada atriz francesa Isabelle Huppert, em seu Manifesto pelo Dia Mundial do Teatro, bela ideia que retomei após desfrutar, no complexo cultural Raquel Revuelta, localizado na avenida Línea, no Vedado, em Havana, de Luna Nueva, a mais recente proposta do grupo Vital Teatro que dirige Alejandro Palomino.

A obra recopila textos escritos para personagens femininas pelo dramaturgo Amado del Pino (Cuba, 1960-Espanha 2017) em quatro de suas obras: Triángulo, uma obra de excelência acerca de emoções e encontros, estreada em 2004, precisamente por Vital Teatro; o monólogo En falso; Cuatro menos, que obteve na Espanha o Prêmio Carlos Arniche 2009, sendo Del Pino o primeiro cubano em consegui-lo, e Revolico a dúo, escrita para o grupo, em 2016.

A proposta de Palomino em Luna Nueva acerca desses textos de Del Pino mantém a fluidez dos diálogos e a seleção da linguagem que o dramaturgo utilizou para cada personagem e com esse conjunto logra oferecer ao público alguns das problemáticas da contemporaneidade cubana.

Nesse jogo teatral, Palomino consegue concertar uma dinâmica e, como princípio de Vital Teatro, o trabalho das atrizes é principal, delineando os caracteres com economia de recursos, como a cenografia, sem altissonância, mas com entrega total, na defesa do universo das personagens que atuam.

Os primeiros quadros (Triángulo, En falso, Cuatro menos) esteviveram bem defendidos por Nora Elena Rodríguez, Alina Molina, Gretel Cazón, Leivy Rosy e Adriana Quesada, e uma única personagem masculina (através de Marlon López ou Abel Cedre), entretanto em Revolico a dúo, que se mostra na íntegra, agradece-se a interiorização e caracterização de Yia Caamaño e Susana Ruiz.

Momentos antes da obra, em um premonitório domingo de chuva, depois da passagem do imponente furacão Irma, Alejandro Palomino ofereceu respostas a nossos leitores.

Vocês encenaram várias obras de Del Pino. Como concebeu esta?

«Luna Nueva é uma obra na qual na ordem dramatúrgica justamente coincidem várias personagens femininas de Amado del Pino. A maioria das personagens principais de Amado são homens, mas estes sempre foram acompanhados pelas personagens femininas, as que têm um desenvolvimento importante na ação dramática. Ele foi um homem preocupado, também, pelo papel da mulher contemporânea em Cuba e pelas decisões e elementos expressivos que pode dar a personagem feminina dentro de sua dramaturgia. Então resolvemos que as personagens femininas fossem as protagonistas de Luna Nueva, e são estas as que desenvolvem a ação dramática e demonstram, no palco, muitas das obsessões que as acompanharam em sua vida».

De onde tomou o título?

«É uma frase dita pela personagem Miriam, em Triángulo, que diz: ‘Ela olha para mim como uma lua nova e eu não posso oferecer-lhe outro rosto’».

Voltemos então para os caracteres femininos…

«Para Amado a mulher foi detonante, um catalisador na sociedade. É um ponto de vista com o qual eu coincido e justamente por isso resolvemos que foram as mulheres as protagonistas. Existe só um personagem homem, um jovem que é um referente, lembranças, na zona dos delírios. As personagens femininas são muito sólidas, com uma caracterização muito bem conseguida, têm una visão do futuro e da vida que é inegociável».

Em, Luna Nueva, o senhor respeita a linguagem de Amado, qualificada muitas vezes de forte e poética ao mesmo tempo?

«Na encenação respeitamos absolutamente aquilo que é chamado de poesia da crueza na dramaturgia de Amado. Em Luna Nueva estão as vozes femininas, essas criaturas que chegam a impor-se em suas obras».

A obra mantém a mesma estética do grupo…

«Sim, sempre trabalhamos a partir da função do ator. Nossos espetáculos são baseados no trabalho do ator. Bastante artesanal, com poucos recursos cenográficos, mais bem o contraste das cores complementares, neste caso vermelha e verde. O vestuário bastante sóbrio, entre a branca e negra. O ator e seus recursos expressivos é são eixo fundamental de nossos trabalhos e esta não é a exceção».

Pode-nos antecipar as próximas propostas?

«Estamos valorizando o teatro norte-americano. Em um dado momento nós, por justa recomendação de Amado, com quem trabalhamos 15 anos sem interrupção, devemos-lhe muito no repertório, norteou-nos para Tennessee Williams, Eugene O´Neill, Edward Albee, Arthur Miller. Agora, estamos revendo alguns textos desse teatro tão intenso e interessante».

Amado del Pino faleceu, vítima do câncer, aos 56 anos, justamente, em 22 de janeiro, Dia do Teatro cubano, designado em memória aos fatos que ocorreram em frente do teatro Villanueva, em 1869.

Há alguns anos comentei que era «muito surpreendente que um dramaturgo cubano contemporâneo tivesse simultaneamente quatro de suas obras no palco. Tal sorte coube a Amado del Pino…».

O público podia então escolher entre Penumbra en el noveno cuarto (Prêmio UNEAC de Teatro 2003); Tren hacia la dicha (sua obra prima em 1988); El zapato sucio (Prêmio da Crítica, Prêmio Virgilio Piñera) e Triángulo.

Agora, o grupo Vital Teatro e seu diretor Alejandro Palomino, com os quais tanto trabalho, honra-o com Luna Nueva e a força de suas personagens femininas.

A trajetória de Del Pino (teatrista, jornalista, crítico) foi vital e ascendente e sua dramaturgia é hoje, e por sempre, iniludível para a cena cubana.

Justamente, como percebeu a francesa Isabelle Huppert: “O teatro renasce, cada dia, de suas cinzas… tem uma vida abundante que desafia o espaço e o tempo».