ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA

ILEANA Mulet deixa suas pegadas em São Cristóvão de Havana. À cidade colonial e mágica, Patrimônio da Humanidade, esta incansável criadora presenteou uma excelente obra pictórica.

Esta artista de múltiplas facetas — pintora, designer, poeta — mantém a fidelidade ao paisagismo, com uma expressão lírica e, ao mesmo tempo, renovadora.

Ileana Mulet (Holguín, 1952), concorda com a crítica, pois ela reconhece as influências do expressionismo e o realismo mágico, nada menos que a partir de Marc Chagall (Vitebsk, 1887 - Saint-Paul-de-Vence, 1985) e do Nobel de Literatura, Gabriel García Márquez (Aracataca, 1927-Cidade do México, 2014).

Porém, naturalmente, a pintora mostra sua própria linguagem, um estilo dinâmico, livre, fresco, com profusão de cores, onde predomina uma variedade de tons azuis extraordinários, assombrosas misturas, traços elegantes, sua luz e sua transparência. Dessa forma, revela-nos seu mundo de sonhos e poesia.

Havana, alega-se, é a grande protagonista da obra de Ileana Mulet, mas se destacam também pinturas como Rostros; Niños con muros; Jarrones con flores; Mujeres guerrilleras; Puertas; Encuentros; Cuerpos y Puntadas.

Ela é comunicativa, loquaz, apaixonada e afável e graças a essas qualidades, apesar do compromisso com as recentes premiações, no 39º Festival de Cinema de Havana (de 8 a 17 de dezembro), que permitiu doar uma de suas obras ao Círculo de Cultura da UPEC (União de Jornalistas de Cuba), concedeu uma entrevista, in promptu, nos jardins do Hotel Nacional.

Tentemos uma retrospectiva que talvez revele aos leitores algumas chaves para compreender aspectos de sua obra: a família, a infância, os estudos…

«Eu sou uma mulher de origem camponesa. Nasci em Ceuta, um lugar perto da cidade de Holguín (cerca de 700 quilômetros a leste de Havana). Minha avó me cuidava, porque minha mãe foi a trabalhar para Havana. Após triunfar a Revolução estudei em Oscar Lucero, um quartel tornado escola, nessa época realizavam captações para a Escola Nacional da Arte (ENA) e que pena com minha avó, achou que não me faria bem e disse que não, porque eu era asmática. Ora, em ocasiões se pode pensar que o destino existe, porque é a evolução lógica da vida que não perdoa nada mas, às vezes, dá uma segunda chance. No decurso do tempo minha mãe conseguiu juntar-nos (três das filhas), eu sou gêmea, e começamos morando no distrito Casino Deportivo. Nesse lugar tudo o que eu achava era pintado, além de escrever poesia. Minha mãe pensava que era muito longe para ir desacompanhada a San Alejandro (escola de arte). Posteriormente, no ensino secundário fugi para realizar o vestibular. Aí comecei uma vida. Depois, fiz cursos de decoração e de design de vestuário. Por isso, quando penso no desenvolvimento artístico e intelectual de minha vida nunca me paro».

Quando fica diante do lenço já meditou acerca do que fará ou é um impulso? O que a motiva realizar um tema?

«Não, poucas vezes, embora eu ache que ninguém tenha um código, pode ser que durante dias esteja elaborando uma ideia e ao ficar com o lenço diante em branco a ideia quase esteja completa, mas é pouco provável. Frequentemente acontece que a ideia nasce durante os primeiros tempos; é como uma tortura, como se nesse tempo a gente padecesse de uma instabilidade psicológica, na qual diz: ‘possa, não posso ver o que farei’. Às vezes, essa intemporalidade do que acontece dura pouco tempo, outras vezes dura mais».

Faz esboços?

«Quase sempre faço esboços nos trabalhos por encargo. Por exemplo, tenho a tela de La Boheme, de Puccini encarregada pelo Teatro Lírico, e a tela e o vestuário do quadro de Las Brujas e quadros de una exposición, do Ballet Nacional de Cuba. Nesse caso, como é uma encomenda, faço centenas de esboços. Digo-lhe que nos primeiros tempos minha obra era mais empírica, mas ultimamente faço esboços para meus quadros, sobretudo quando quero fazer uma exposição. Por exemplo, agora faço esboços, um preâmbulo e uma fundamentação, para minha próxima exposição, que se intitulará Vértebra, possivelmente para a Bienal de Havana».

Qual é o tema?

«É a união de dois ou mais seres humanos que podem enfrentar um conflito ou não mas, logicamente, não se poderão separar facilmente».

Falemos de alguns aspectos técnicos: sua paleta de cor preferida, os materiais, as texturas, a composição…

«Gosto muito das texturas, não posso ficar afastada da paleta, de determinados instrumentos que tenho para traçar e torcer. Pode ser que consiga uma obra completamente transparente e aguada, mas é possível que ponha algo de textura. Explico-lhe isso porque é um dos fundamentos da minha obra. Todo este tempo que pintei o tema da cidade fui obrigada a respeitar a condição da cidade velha. Embora não tenha preferência de paleta de cor o azul é algo que faz parte de mim, e não me abandona. Tenho anedotas que contam como guardei por um ano a cor azul para não ter a obrigação de utilizá-la. Embora tenha exposições de rostos, de corpos, não se divorciaram nunca do tema da cidade. Foi feito um pouco para apagar a ideia que têm algumas pessoas a esse respeito de nós; os que trabalhamos o tema da paisagem. Alguns, pejorativamente ou não percebem que tentam minimizar, e dizem: ‘ah, a se-nhora é a que faz as casinhas’».

Precisamente esta é a pergunta da influência que exerce Havana em sua obra…

«Eu me antecipei à sua pergunta, mas acho que Havana me deu tudo, abriu-me as portas. Precisamente, terminei um livro que se chama Huellas sobre la ciudad, sueños de papel, um projeto que comecei em 2016 com minha exposição Huellas sobre la ciudad, no Castelo da Real Força. Contém as poesias escritas por autor algum acerca de Havana, e posteriormente lembranças, opiniões de críticos e jornalistas acerca de meu trabalho com a cidade, de fato são quase 500 páginas. Caso sair com o pé direito, será publicado pela editora Boloña, do Gabinete do Historiador. Aí será mostrada a solidez de minha trajetória e porque defendo a cidade e a paisagem como tal».

É a magia que tem Havana…

«Quando eu comecei, a cidade dava seus primeiros passos para se restaurar, muito fraca, empobrecida, as ruas com lixo, a cidade chorava cada momento e Eusebio Leal e outros a queriam escutar, mas não havia, talvez, muito dinheiro para investir nela. Perguntavam-me: ‘porque a senhora a pinta, por que a reivindica’? Eu lhes respondia: ‘vocês não são capazes de ver que Havana está desenhada para ser vista de um metro para arriba’ e a partir daí serão vistos as varandas, arcos de meio ponto, grades, portas e o mais importante, um céu quase sempre azul e umas nuvens brancas. Neste momento que estamos conversando, apesar de ser a etapa invernal, esse é o céu que temos».

A pintura é realizada na solidão, mas é para milhares de olhares. Interessa-lhe essa retroalimentação?

«Quero dizer-lhe que em meu caso essa paisagem não é inocente, chega ao público. Escrevem-me nas memórias das exposições suas experiências, sentem emoções. Interesa-me, comove-me. Em uma mostra minha há animais, pessoas olhando atrás das portas, há conflitos emocionais, há manchas penosas, de alegrias, há luzes, sombras».

O que a leva a expor?

«Do começo usei uma frase de Eusebio Leal. Um dia, no Museu da Cidade, onde tenho uma obra permanente, inaugurei uma exposição e o convidei, e ele percebeu nessa ocasião que eu pintava a cidade e travamos uma relação de amizade para sempre. Mais uma vez eu lhe pedi um espaço transitório nesse mesmo Museu e lhe disse, ‘Ora, Eusébio, eu queria saber se posso vender uma obra para algum interessado’. E ele me respondeu: ‘Você tem que vendê-las, presenteá-las e fazê-las transcender’. A obra é preciso realizá-la para que transcenda e o artista é uma pessoa que tem que viver. Por ocasiões, tenho o estúdio lotado de obras. Quando começo a etapa das exposições aqui ou no estrangeiro percebo o agradecimento do público. É preciso levar a obra para onde as pessoas a possam ver. Participei de Arte em La Rampa, com um estande e contribuo, nesse momento, com o projeto Arte em Casa e quando se mostra qualquer desses acessórios do lar: tabuleiros, relógios de parede, cestas para muitos propósitos, desenhadas com uma cidade de minha realização enorme, a gente gosta deles e se interessa por conhecer o artista. Repito, a obra se realiza para que transcenda no tempo».

Há pouco ofereceu uma obra para o prêmio neste Festival…

«Eu sempre faço. Acho que vivemos em um país cercado de um mar maravilhoso, somos muito dadivosos, acreditamos na cultura, porque é uma das coisas que nos salva de muitos momentos difíceis como nação. Temos que incrementar cada dia mais a cultura, aumentar essa sensibilidade e levá-la ao povo, aos diferentes setores e é a única forma que se tem para premiar outrem, com aquilo que a gente cria. Isto foi um pequeno grão de areia, uma obra pequena, traçada com duas-três cores».

Havana?

«Aqui moro e crio minhas obras. Para mim é como se fosse o mundo. Viajo muito por meu trabalho, e muito rápido sinto uma grande saudade».

Ileana Mulet deixa seu legado em São Cristóvão de Havana, uma cidade mágica e misteriosa. Ela mostra suas colunas e varandas, os campanários e telhados, as ruas e arcadas, e soma todas as personagens e animais que nascem de sua infinita imaginação.