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ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA

                                                                                             O que pretende?
                                           Fazer-nos crer que o ser humano ainda é humano (…)
                                                                             Você conhece a dimensão da
                                                                                        palavra aventureira.
                                                                                    Que lhe seja duradoura
                                                                              (Juan Gelman, Increpação a
                                                                                                Víctor Casaus)

Foto: CORTESIA CENTRO PABLO

SE bem os versos do grande poeta argentino Juan Gelman que estão no começo deste artigo se referem à poesia de Víctor Casaus, acontece que a mesma paixão, o mesmo sentido de aventura que anima sua literatura pode ser achado no Centro Cultural que ele dirige há algo mais de duas décadas: o Pablo de la Torriente Brau.

Localizado em um pequeno espaço na rua Muralla 63, uma das mais conhecidas do centro histórico de Havana, o Centro Pablo, como é conhecido com carinho, reúne diversas linguagens e formas de realizar um incessante trabalho no âmbito cultural.

Foi caracterizado sempre, a partir de sua gênese, pelo estudo, pesquisa e resguardo da documentação de Pablo de la Torriente Brau, um dos mais altos representantes da literatura cubana no século XX, até os inúmeros caminhos que depois percorreu, a Nova Trova, o design gráfico, a arte digital, a literatura testemunhal.

Não se deve duvidar que o Centro seja tão multifacetado. Percebemos nele a obra mais pessoal de Víctor Casaus (Havana, 1944). A literária (os livros de poemas De un tiempo a esta parte; Amar sin papeles; El libro de María; os ensaios Defensa del testimonio, de contos Sobre la marcha, e os testemunhos Pablo: con el filo de la hoja e um texto referencial, Girón en la memoria) e a cinematográfica (Que levante la mano la guitarra; Vamos a caminar por Casa).

As razões para dialogar esta vez com seu diretor, relacionam-se à próxima Feira Internacional do Livro Cuba 2018, mas como é habitual falou de suas muitas arestas.

Falemos primeiramente dos novos livros.

«Há quase duas décadas a editora La Memoria vem conseguindo, com seu catálogo, preservar a memória da Ilha e seus moradores. Já tem mais de 80 títulos publicados. A coleção estreada em seu começo foi Palabras de Pablo. Neste ano vamos lançar, na Casa da Alba, os títulos Barcos de papel, de Carlos Lechuga; Hungria 1956. Historia de una insurrección, de Fernando Barral; El tiempo que nos tocó vivir, de Jorge C. Oliva e Julio Antonio Mella. Textos escogidos, uma compilação de Julio César Guanche. No Centro de Estudos Martianos será o lançamento de La Habana de Pablo, de Leonardo Depestre e na Sala Nicolás Guillén, em San Carlos de la Cabaña, a décima reedição de Silvio, que levante la mano la guitarra, que eu escrevi em parceria com Luis Rogelio Nogueras; e para homenagear Juan Padrón os livros Elpidio Valdés. Los inicios e Verdugos. «Por último, será realizado o lançamento especial de Sharing dreams/ Compartiendo sueños. Memorias, uma compilação de Xenia Reloba, que reúne as obras gráficas de designers cubanos e norte-americanos no projeto».

O Centro Pablo é feito de desafios. O que esperamos para este ano?

«Continuaremos com a realização do plano editorial de 2018, outros oito títulos, entre os quais se destaca a reedição das Aventuras, venturas y desventuras de un mambí, de Raúl Roa, com prólogo de Raúl Roa Kourí. Aliás, comemoramos as duas décadas do espaço cultura Só com violão, nascido em novembro de 1998, com o memorável concerto Futuro imediato, do trovador Santiago Feliú. Nestes anos, o Centro realizou mais de 120 concertos com músicos e compositores de todas as tendências e gerações da Nova Trova cubana. Produziram-se mais de 60 CDs, com concertos individuais e 16 antologias anuais do espaço. Mais de dez dossiês Memoria foram dedicados para reunir a informação deste espaço, no final de cada ano, e os dois volumes da antologia Memórias de Só com violão, compilados pela editora Xenia Reloba, tornaram-se uma espécie de Bíblia da Nova Trova cubana».

Sempre marca presença em outros países…

«No primeiro semestre deste ano o Centro estará presente nas comemorações pelo 75º aniversário da morte do grande poeta Miguel Hernández (El rayo que no cesa; Nana de la cebolla) em Alicante e Salamanca, Espanha, onde será mostrada a exposição Vientos del pueblo e meu documentário Con Miguel Hernández en Orihuela, que fiz em 1976. Em abril participaremos da Feira do Livro de Buenos Aires e no segundo semestre participaremos da Feira do Livro de Mendoza, Argentina. «Também faremos por várias províncias argentinas a nona edição da turnê ‘Nossa voz para você’, que inclui Nova Trova, design gráfico, produção audiovisual e editora, com o acompanhamento de artistas da Ilha».

Tem alguma revelação para a nossa publicação?

«Tenho sim. Neste primeiro semestre começarão os trabalhos de reparação interna da mobília, incorporando os espaços que ocupava a Casa da Poesia, instituição do Gabinete do Historiador de Havana, que foi vizinha nossa a partir da fundação do Centro».

«Nesse plano construtivo se contempla a instalação de uma pequena livraria na secção baixa e um espaço expositivo, a reanimação do já histórico quintal das embaúbas (Cecropia peltata) e a criação de um estúdio de som, no qual nosso engenheiro Jaime Canfux, fundador do Centro, contará com maiores e melhores possibilidades para continuar seu excelente trabalho criador, com o qual obteve dois Prêmios Cubadisco na categoria de gravação ao vivo, além da imensa parte que lhe cabe no Prêmio Especial outorgado pelo Cubadisco às 15 antologias do espaço Só com violão, produzidas nestes anos».

É possível definir o Centro?

«O princípio foi Pablo e depois, na medida em que os recursos e os sonhos o permitiam e exigiam, focamo-nos em outras áreas de trabalho cultural, unidas em suas aparentes diferenças pela presença constante e sonante da memória, expressa através da Nova Trova cubana, a arte digital, a literatura testemunhal, o design gráfico, a criação audiovisual, as publicações e as ferramentas digitais, imprescindíveis hoje».

Parafraseando o poeta Juan Gelman: ‘que seja duradoura ao Centro Pablo a paixão pela aventura cultural, com a mira perene no resguardo da memória’.

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«Porque meus olhos foram feitos/ para ver as cosas extraordinárias/ E minha máquina para contá-las. / Isso é tudo».

ASSIM definiu Pablo de la Torriente Brau (San Juan de Porto Rico, 1901-Majadahonda, Espanha, 1936) o porquê de sua passagem pelo jornalismo. Depois seria um dos mais altos representantes do gênero em Cuba no século XX. Sua obra jornalística é antecedência formidável do testemunho.

Publicou seu primeiro livro de contos, Batey, em 1930. Um ano depois de sair do cárcere do castelo do Príncipe, em Havana, escreveu a série de artigos 105 días preso. Voltaria para o cárcere, desta vez o chamado Presídio Modelo, na então Isla de Pinos, e dessa experiência surgiu La isla de los 500 asesinatos, uma série de treze artigos que lhe serviram de base, posteriormente, para escrever seu livro Presidio Modelo.

Em maio de 1933 partiu para o exílio em Nova York, e de lá continuou lutando contra a ditadura de Gerardo Machado, quem finalmente foi derrocado em 12 de agosto. De volta a Cuba publicou Tierra o Sangre, uma série de reportagens onde denuncia os abusos cometidos contra os camponeses cubanos.

Viajou para a Espanha para apoiar a República, em 1936 e em 11 de novembro foi nomeado comissário de guerra e membro do Estado Major do batalhão 109º, da 7ª Divisão. Na semana seguinte chegou a Madri. Em 28 de novembro teve um encontro com o poeta Miguel Hernández. Em 17 de dezembro recebeu a ordem de ir para Majadahonda, onde morreu de um disparo no peito, em 19 de dezembro. Após cair a República, seus restos foram desenterrados por um cubano que se retirava. Hoje, desconhece-se sua localização.

Miguel Hernández lhe dedicou sua Elegía segunda (a Pablo de la Torriente, comissário político).

O Centro Cultural que leva seu nome conta com um Fundo Documental cuja base é integrada pela doação feita por suas irmãs Zoe e Ruth, também inclui documentos e imagens que recopilaram estudiosos da obra de Pablo em pesquisas feitas em Cuba, Estados Unidos, Porto Rico e na Espanha.

Fazem parte de sua intensa obra escrita os títulos seguintes, publicados pelo Centro Pablo: Cuentos Completos; Cartas y crónicas de España; Testimonios y reportajes; Arriba muchachos; Narrativa e Cartas cruzadas.