ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
O amplo repertório de Elena Burque, também chamada A Senhora Sentimento, incluiu peças de autores cubanos e latino-americanos. Foto: www.lajiribilla.cu

ROMANA Elena Burguez González (28 de fevereiro de 1928 — 9 de junho de 2002), de nome artístico Elena Burke, é uma das vozes mais conhecidas e importantes na história da música cubana.

Cantora de extraordinário carisma, possuía uma voz de contralto, de amplo registro, cheia de matizes, apurada musicalidade e afinação excepcional.

A poetisa Nancy Morejón, Prêmio Nacional de Literatura, diria durante o funeral da grande cantora, em 11 de junho de 2002: «Aquela voz e aquela presença cheias de graça crioula, de legítimo talento e dessa picardia que só as islenhas de sua estirpe conhecem, vão fazer mutis para sempre em todos os palcos».

Mas neste ano, na comemoração do seu 90º aniversário-natalício, algumas e alguns dos cantores mais populares de hoje ofereceram um concerto na sala Covarrubias, do Teatro Nacional, durante o qual interpretaram algumas das peças que Elena, como toda Cuba a conhece, converteu em sucessos musicais.

O amplo repertório da também chamada Senhora Sentimento incluiu autores latino-americanos e cubanos como José Antonio Méndez, César Portillo de la Luz, Ñico Rojas, Frank Domínguez, Piloto e Vera, Marta Valdés, Meme Solís, Adolfo Guzmán, Orlando de la Rosa, Candito Ruiz, Sindo Garay, Vicente Garrido, Arturo Castro…

Entre esses sucessos podem ser citados Sin ir más lejos e En la imaginación (Marta Valdés); De mis recuerdos, Y ya lo sé, Lo material (Juan Formell); Duele (Piloto e Vera); Ámame como soy e Mis 22 Años (Pablo Milanés); Te doy una canción (Silvio Rodríguez); Me faltabas tú (José Antonio Méndez); Alma con alma (Juanito Márquez); Persistiré (Rubén Rodríguez); Si te contara (Félix Reyna) e Me encontrarás (Tania Castellanos).

Em cada apresentação, Elena mostrava sua versatilidade, pois cantava as peças do filin, boleros, pop, baladas românticas, son montuno, até uma canção de ninar e agora em sua homenagem, estiveram sua amiga de sempre Omara Portuondo, hoje Diva do Buena Vista Social Club; Vania Borges, que interpretou Duele, Me contaron de ti e Palabras; a também contralto Yaima Sáez, que cantou Lo material; a muito seguida Ivette Cepeda, o trovador e compositor Raúl Torres e outros conhecidos artistas.

O violonista Nelson Díaz, que durante um tempo acompanhou Elena, (depois de Froilán Amézaga, com ela por quase duas décadas), contou algumas anedotas para nossos leitores, pois, filho de Angelito Díaz, conheceu em sua casa do Beco de Hamel, «onde viveu meu pai toda sua vida» todos os criadores do filin.

Por suas lembranças do filin, um movimento musical que se desenvolveu em Havana, a partir da década de 1950, conhecemos que La rosa mustia (de Angelito Díaz) era a canção com a qual se começava e terminavam sempre as sessões, quase diárias no Beco. Depois, na década de 1990, eram feitas em casa de minha mãe, Lina Ramírez (integrante do Teatro Musical de Havana) e Elena ia todas as segundas-feiras para cantar. Iam todas as celebridades porque a segunda-feira era o dia que descansavam todas as boates».

«No Beco, Elena aprendeu as novas peças dos garotos do filin — acrescenta Nelson Díaz — mas ela não tinha medo de cantar qualquer uma. Não a César e José Antonio porque eram seus colegas de toda a vida, mais a Formell a Pablo, enquanto outros têm medo na hora de mudar de compositores. Ela adaptava tudo a seu jeito de ser, ao seu jeito de cantar. Elena era muito ousada e se atreveu a fazer coisas que a vida demonstrou que ninguém as fazia como ela».

É agora até inconcebível que a discografia da Burke seja tão escassa: Gemas de Navidad; Elena Burke canta a Marta Valdés; La Burke canta (com Meme Solís no piano); Elena Burke canta a Juan Formell e Elena Burke canta a Vicente Garrido e mais um ou dois títulos.

Para esta homenagem pelo 90º aniversário-natalício de Elena, a compositora Marta Valdés fez uma compilação das músicas que ela interpretou, um trabalho de curadoria especial muito bem-vindo e necessário.

Voltando ao espetáculo no Teatro Nacional. Esteve dirigido pelo realizador Lester Hamlet (com filmes como Casa Vieja e Ya no es antes, e dezenas de premiados vídeos-clipes) que disse para estas páginas antes da homenagem, que para ele era uma responsabilidade e uma oportunidade. «As imagens são o centro de minha vida, mas para mim a trilha sonora é mais um personagem. Se gosto de algo é da canção e sinto que são monólogos. Vou montar um recital, não quero que meu espetáculo seja o principal, mas que seja uma lembrança da Elena. Nesse sentido, terá umas imagens potentes no palco, uma montagem de telas, para apelar a essa lembrança e utilizarei umas fotos que Santos Toledo me cedeu e outras do arquivo».

É que no lobby da sala Covarrubias, Santos Toledo exporá — segundo precisou o artista para nossa publicação — dez fotos digitais, em cores, de 80 X 60 centímetros, sobre diversas facetas de Elena, «sua passagem pelo quarteto D´Aida, como solista e individuais».

Tão só um breve passeio por uma car-reira musical, muito documentada, leva-nos a que em 1943 se apresentou em La Corte Suprema del Arte, de CMQ; a sua presença na emissora de rádio Mil Diez, no espaço Ensoñación, onde a orquestra era regida pelos maestros Enrique González Mántici e Adolfo Guzmán; a seu trabalho com Dámaso Pérez Prado; a parte do famoso espetáculo Mulatas de fuego; a Elena como integrante dos quartetos de Facundo Rivero, Orlando de la Rosa e D’Aida, até que em 1958 empreendeu com sucesso seu caminho como solista.

À hora de cantar, a Burke dava tudo e mostrava com seu talento e sua voz, com seu timbre profundo, sua afinação e sua personalidade o poder que entranha uma canção.

Hoje é celebrado com alegria o dia de seu nascimento porque — como disse a poetisa Nancy Morejón — «sua lembrança conforma já uma bela fábula na qual alenta sua lenda como artista e como pessoa. Uma voz desde as águas mais profundas dos rios antilhanos flui agora, para sempre, como um jato incessante da história de nossa canção em quaisquer de suas modalidades».

Elena Burke, «alma mesma da canção», faz parte do exclusivo grupo das grandes vozes de Cuba de todos os tempos.