ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA

SÓ quem viveu A Cruzada, sabe. Só quem provou a rota difícil de tantos dias entre cumes, passagem de rios e leito no solo. Só quem viu emudecer ou rir, estremecedora, estrondosamente, entende a essência real do evento teatral mais martiano e extenso de Guantánamo.

Às vezes, alguém pergunta: o que é a Cruzada Teatral Guantánamo-Baracoa? E a gente diz números, cita outros que citam mais alguém. Descreve o que viu como jornalista, em coberturas de um dia, máximo dois... mas sabe que não é nada comparado com os cruzados de verdade, esses que dormem, que comem, que amam em campanha.

Porque esta Cruzada, em primeiro lugar, é teatro itinerante, surgida em tempos nos quais em Cuba, exceto a criatividade, faltaram muitas coisas. Nos primeiros anos do ‘período especial’, em 28 de janeiro de 1990, nasceu com a marca da irreverência, a ousadia e o humanismo.

Contam os que viveram esses anos e ainda formam suas fileiras, que a ideia surgiu depois de um ensaio, por ideia de Carlos Alberto González Duporté, que propôs levar a arte dos fantoches aos montes, a pé.

E assim marcharam. Uns 15 teatristas em fileira índia por descampados e canaviais, com as mochilas carregadas do indispensável. Os retábulos, os fantoches, iam em mulos. Pouco percorreram então.

Quase nada, comparado com as mais de 200 comunidades que nestes últimos anos visitam, durante um mês, dezenas de grupos teatrais convocados pelo Guiñol de Guantánamo.

Loucura, houve quem disse então. Loucura, boa e sadia, há quem diga quase três décadas depois.

VOU PARA BARACOA...

O barulho no Teatro Guiñol, situado no centro da cidade de Guantánamo, não para. Tudo se prepara e coordena na cidade, onde um grupo de trabalhadores faz a função de retaguarda.

Dentro, um grupo de jovens atores locais põe-se em movimento, à tarde, com o ensaio de A Rua dos fantasmas, uma obra que integra o repertório do grupo anfitrião há mais de 15 anos e que, modernizada, terá sua reprise nas montanhas de Baracoa.

Entretanto, entram e saem atores, produtores e convidados locais e estrangeiros em seu trânsito até ou das montanhas, onde se realizou a 27ª edição da Cruzada, dedicada ao 55º aniversário do Teatro Nacional de Guiñol e aos 45 anos de vida artística da atriz Maribel López, que foi a diretora de tal espaço comunitário, durante seus primeiros 14 anos.

Os «cruzados» reconquistaram o município mais oriental de Cuba, Maisí. A chuva inusual nessas datas, diz o produtor Alfredo López Montalbo, Freddy, obrigou à suspensão de algumas funções. à La Tinta, uma localidade das mais intrincadas desse território, não conseguiram chegar pelo péssimo estado dos caminhos.

E péssimos estavam, porque não passava o caminhão de pneus enormes que os levaria em sua caçamba descoberta de um lugar ao outro, com tudo nas costas. As vitualhas pessoais, a mochila com o indispensável, enquanto mais leve melhor e as assegurações para as funções.

Porque a arte feita nas montanhas, nesses lugares onde, às vezes, nem o sistema elétrico nacional chega e a água se bebe diretamente da nascente, é um teatro de altura: junto a autores nacionais, Federico García Lorca, Dora Alonso, Miguel de Cervantes y Saavedra…, conhecem os retábulos da Cruzada.

Neste ano, como de costume, a maior parte dos participantes é dos grupos e projetos teatrais da província, desde o próprio Guiñol, La Barca, o grupo Entre Ríos, o Elenco Dramático, a Colmenita até o Conjunto Artístico Integral de Montanha.

De outras províncias, em diferentes etapas, se incorporam Gigantería Habana, o teatro Andante, de Granma, Los Elemento,s de Cienfuegos, Guiñol, de Holguín…, enquanto de outros países, já fizeram sua arte os grupos Amares Social Clown, do Uruguai, e Desensamble Teatro Cabaret, da Colômbia.

Naquele dia, também se comemorou no povoado Yumurí, um casario de Baracoa na mesma fronteira com Maisí, o acostumado colóquio Teatro e Comunidade, com o tema de El Teatro como arte transformador na vida social. Yumurí entranhável. Yumurí há menos de dois anos arrasado pela fúria do mar, com a passagem do furacão Matthew e agora de novo de braços abertos aos artistas.

Na história da Cruzada, quanto aos visitantes, tem de tudo. Atores de todas as vertentes. Pesquisadores atraídos pelo mel de um projeto que sem importar quantos anos complete, sempre terá esse halo do incrível. Professores de teatro. Jornalistas. Fotógrafos, destes alguns insistentes, pertinazes como a chuva em Baracoa ou o calor dos locais mais planos, um deles, o fotorrepórter suíço Félix Hauver. Acadêmicos. Diretores de revistas culturais. De países como México, Colômbia, Turquia, Espanha, Dinamarca, Uruguai, os Estados Unidos…

Magia que envolve. Uma magia que emerge entre o cansaço e o cotidiano de um forte sistema de trabalho aperfeiçoado com os anos. Os grupos grandes, já no monte, dividem-se em outros menores e parte cada quem para sua apresentação, às vezes a pé, outras em carros de bois, em carro, no que aparecer. Por dia, diz seu diretor atual, Emilio Vizcaíno, realizam-se até seis funções.

Quando algo entorpece as apresentações e há de ser algo muito significativo para parar estas hordas de «cruzados» acostumados a todas as penúrias, a que tudo seja pouco ou não esteja…, triste fica o povoado atrás e os atores partem para o próximo acampamento.

A Cruzada, Prêmio Nacional de Cultura Comunitária, é coisa séria e os atrasos nos itinerários, que se informam com antecedência até nos casarios mais distantes, não se levam a leve entre os montanheses. A Cruzada se converteu em hábito, em tradição e as tradições devem ser respeitadas.

Porque as noites nas quais se sabe que haverá teatro, o horizonte se preenche de luzes que sobem colinas e andam caminhos de pedras, que avançam entre o rochedo ou quebrando a mata…, como se o céu de repente se tivesse estendido mais abaixo e chegasse até a mesma copa das árvores.

Chega a um lugar de dia, contou alguma vez Ury Rodríguez, um dos primeiros «cruzados», e enquanto prepara o acampamento se encontra só com 20 ou 30 pessoas, o qual seria um público suficiente, mas então chega a noite e começam a chegar as famílias completas…, até que é você no centro e, em frente, aos lados, atrás, um monte de cabeças atenciosas.

E esse é também parte do charme. O mesmo Ury definiu a Cruzada como uma troca. E a palavra vem tão bem ao contexto, às circunstâncias, que quando o jornalista baracoense Miguel Reyes Mendoza terminou de pôr pés e cabeça a um documentário dedicado a ela, intitulou-o Troca: Os Todos da Cruzada.

Miguel explica que o documentário, estreado em 2015, «é uma tentativa de mostrar a vida em campanha, da troca com a população, da magia das performances, tantas coisas que não se podem mostrar em um trabalho jornalístico regular. Quis também que a gente visse esses homens e mulheres com a coragem bem posta, essas pessoas de verdade fazendo arte, apesar de tudo».

A logística depois de cada função, depois de cada aplauso, certamente, é complexa. O governo, através do Conselho das Artes Cênicas, sustenta a maior parte da Cruzada, desde um módulo de vestuário e alguns úteis de campanha, até a comida, a higiene pessoal e parte do transporte.

Aos governos municipais cabe o apoio dentro dos territórios. Um local onde acampar com as condições higiênicas e de segurança necessárias, água e alguma pessoa que ajude com a cozinha e o atendimento aos atores e convidados, que não obstante, também participam desses processos domésticos.

O problema está quando os funcionários municipais veem a Cruzada como um trabalho mais. Freddy é categórico: «Nem sempre somos recebidos com o mesmo carinho com o qual nós chegamos até ali. Tivemos desencontros, gente que não se sensibiliza com o evento, a qual a gente sente como se não importasse».

Mas na comunidade, tudo muda. «Os vereadores das circunscrições, os presidentes dos conselhos populares são nossos grandes aliados. Eles estão mais perto da gente, sabem como nos esperam, quanto dói quando uma função não pode dar-se por questões logísticas».

Na comunidade, tudo muda. O que era dor se torna alegria, espanto. A comunidade, para a Cruzada, é o abraço insubstituível e perene.

«Vimos crescer às famílias, às crianças tornar-se maiores, optar inclusive por carreiras da arte e trabalhar conosco depois, vimos envelhecer as pessoas que nos recebem uma e outra vez, que nos cozinham, que nos esperam com um café, que nos deixam suas casas, nos lavam a roupa, nos cuidam como se fôssemos seus filhos…, sentimos a perda de amigos em locais muito afastados como se fossem nossas famílias, sofremos por suas penúrias e rimos com as coisas boas», confessou alguma vez a esta jornalista Eldys Cuba, outro dos «cruzados» de mais longa data.

O reconhecimento é mútuo. Entre aqueles que moram nos locais de montanha urgidos pelo teatro, a Cruzada também tem rostos e nomes de sempre, como Maribel López Carcassés, Eldys Cuba, Ury Rodríguez, Emilio Vizcaíno, Gertrudis Campo (Tula).

Ury Rodríguez, no evento quase desde seus inícios, Gertrudis Campo (Tula) e Emilio Vizcaíno e atual membro do projeto La Barca igualmente, atribui à responsabilidade com a gente que se vê ano após ano, o ato de loucura suprema de passarem 34 dias, fazendo teatro em condições de campanha.

«Porque o pessoal que mora lá nas montanhas nos exige isso. Não é que seja como um reclame obrigatório, é que com sua própria resposta nas boas-vindas, em cada edição, a gente diz: Tenho que voltar no ano próximo, porque houve coisas que não consegui aprender!».

A troca com as comunidades, a visão da Cuba profunda, é também a chave para as dezenas de projetos de outros países que participaram dela nos últimos anos. «A cruzada é uma maravilha — assegurou à imprensa o ator espanhol Francisco Borja Insua Lema, durante o périplo de 2013 — uma experiência que eu lembrarei por toda a vida (…); esse público virgem, esse sorriso natural das crianças me apaixonou. Na Espanha é difícil de encontrar, a gente recebe tanta informação que as crianças sabem demais, assim que é muito difícil surpreendê-los e esse ooohhh! teatral que é tão raro de conseguir, aqui em Cuba o estou vivendo».

Algo desse charme atraiu a atenção da colombiana Diana Marcela Guatava, jovem atriz convidada ao evento de 2018 a partir de seu interesse de aproximar-se desta edição, a partir dos estudos culturais e a geografia humana, «ao encontro cultural entre o público e os artistas, em nível teatral, mas também fora dos palcos, essa troca entre o camponês e pessoas que vêm de setores tão diferentes, de dentro e fora de Cuba».

PALAVRA DE TEATRISTAS

Todos os anos Aliexa Argotte Laurencio jura que será sua última vez até que passam dois ou três meses, esquece todas as dores e se vê, um bom dia no fim de ano, preparando-se mentalmente para o próximo janeiro.

«A vida em campanha é difícil, mas já nos acostumamos a essa ideia, embora sempre haja surpresas. O local mais estranho onde dormi foi uma construção, em meio do nada, em Quiviján, de apenas quatro metros quadrados para 25 pessoas e que compartilhamos com três galos anões que às 4h da manhã começaram a nos cantar nos ouvidos».

«Cada lugar obriga a reformular-se o movimento cênico, porque não há luzes, não há som, no há palco tradicional…, mas também a gente tem que estar todo o tempo preparada para os imprevistos, porque é um público diferente, que muitas vezes não entende o funcionamento do teatro como se faz nas salas, é mais natural e pode inclusive imiscuir-se na obra e a gente tem que estar preparado. Concentrado em sua personagem, mas ao mesmo tempo atento ao exterior».

E isso, coincide o jovem Yosmel López Ortiz, itinerante junto ao Guiñol desde 2011, é sempre um espaço de melhoramento para o qual, opina, muito contribuem os convidados estrangeiros.

«Em todos estes anos, a presença de grupos de outros países foi vital, é o acesso do evento a um olhar diferente, a outras formas de fazer teatro, a outros códigos. Para eles, não é fácil. È difícil adaptar-se à programação, diária e carregada, e conseguir comunicar-se com um público totalmente novo, que não é parecido com o de seus países, mas também é diferente ao das cidades dentro da própria Cuba».

O crescimento, então, se impõe. «Chegam com um espetáculo e quando vão embora, é outra coisa. Uma apresentação mais sólida, mais universal, mais trabalhada a força de se adaptar, de apropriar-se de códigos, de palavras, de formas», argumenta.

Acredita, por outro lado, na utilidade da Cruzada como entidade se não transformadora, ao menos motivadora de pensamento. «Há um desejo consciente, do interior do evento, de abordar temáticas difíceis, mas na prática não se geram obras que respondam especialmente às problemáticas que têm estas comunidades que nos recebem».

«Contudo, à hora da curadoria, de conformar os elencos e a programação, há cuidado de eleger obras com estas características. Neste ano, por exemplo, a Colômbia trouxe um espetáculo sobre o transformismo – refere-se a Casta de Senhoritas -, e a gente diz: transformismo nas montanhas! Mas então a gente conhece um trasvesti que vive e se expressa em Yumurí, de Baracoa, e percebe que sim, que são realidades que se vivem, e são assumidas inclusive naturalmente».

São, confirma, experiências interessantes e tensas, tanto para o público como para o ator. «Uma vez, por exemplo, tratamos o alcoolismo, primeiro no homem e depois na mulher. As diferenças em como as pessoas viam cada caso, eram muito fortes, mas era necessário».

«Não penso que vamos mudar as coisas diretamente. Sei que falamos de um tema, da intolerância, da violência…, e isso não significa que o resolvemos, mas sim penso que geramos pensamento, questionamentos, propomos saídas, alternativas. E isso, é também transformar».