ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA

                                                                                                  ¡Oh violão!
                                                                                        Coração malferido
                                                                                        por cinco espadas.
                                                                                —Federico García Lorca

Os maestros Pepe Romero (esquerda) e Jesús Ortega coincidiram na relevância de escutar boa música, e certamente, através do violão. Foto: Miriannys Montes de Oca

O presidente do 15º Festival e Concurso Internacional de Violão de Havana, Jesús Ortega, expressou que «qualquer evento que junte figuras de nível universal como Gismonti, Pepe Romero e Eliot Fisk, tem uma grande importância, porque são modelos a seguir, não para imitar, de como se faz uma interpretação de alto nível, inclusive nas coisas mais simples».

Durante uma conversação com este semanário, o instrumentista e pedagogo, acrescentou que «em segundo lugar permite que essas personalidades que nos visitam, como o compositor David del Puerto e o promotor Diego Martínez, percebam a importância que em Cuba tem a cultura, que não é algo suntuário, mas é algo essencial para o desenvolvimento do país».

Sua análise da repercussão do Festival e Concurso ultrapassou as expectativas. «Incide nos músicos e o público, pois aprender a escutar música de alta qualidade quer dizer que melhoraremos, porque nos provoca uma sede de perfeição».

Se temos um Festival Internacional, quer dizer que o violão em Cuba tem uma boa colocação nacional e internacional?

«É isso, tem uma excelente colocação. Internacionalmente temos o nosso grande maestro, Leo Brouwer, figura icônica da cultura — no que respeita ao violão — de todos os tempos, de sempre. Na minha opinião pessoal é o maior músico surgido em Cuba até hoje», alegou.

Precisamente, a festa do violão foi criada por Brouwer, compositor, regente de orquestra e violonista, nos anos 80 do século passado, e depois de uma extensa pausa voltou a renascer neste ano.

O CONCURSO E SEUS PRÊMIOS

Segundo comentou Ortega ao compositor cubano Juan Piñera, no Concurso «se apresentaram jovens de talento impressionante». O júri foi presidido por Jesús Ortega e integrado pelo próprio Piñera e o violonista Marco Tamayo (Cuba); o compositor David del Puerto, o presidente do Concurso Andrés Segovia, Diego Martínez (ambos da Espanha); e o pedagogo alemão Karl Heinz.

No evento de premiação, o cubano Carlos Manuel Ledea tocou a Sonata no. 5 de David del Puerto. Foto: Miriannys Montes de Oca

Apresentaram-se 16 participantes vindos da Polônia, Espanha, França, Alemanha, Romênia, Costa Rica e Cuba os quais, durante três fases, no hemiciclo do prédio da Arte Universal e no teatro do prédio da Arte Cubana, do Museu Nacional das Belas Artes, interpretaram obras do barroco, de um autor cubano e um latino-americano, um virtuoso estudo e uma sonata.

A cerimônia de premiação, na Sala Covarrubias do Teatro Nacional, permitiu conhecer que o júri outorgou o Segundo Prêmio e o Isaac Nicola, ao cubano Carlos Miguel Ledea, estudante do Instituto Superior da Arte, quem recebeu, entre outros prêmios, um violão construído especialmente pelo luthier David Chávez.

O primeiro prêmio foi partilhado entre o espanhol Javier García Verdugo (graduado do Conservatório Superior de Música de Madri, do Franz Liszt, de Weimar, e atualmente faz estudos de mestrado no Mozarteum, de Salzburgo), e o romeno-alemão Mircea Stefan Gogoncea (com um currículo que inclui 165 prêmios e estudos em Dusseldorf e na Royal Academy de Londres).

GISMONTI: FELIZ DE ASSISTIR AO FESTIVAL

Depois do seu extraordinário concerto na Sala Covarrubias, o compositor, pianista e violonista brasileiro Egberto Gismonti partilhou com o semanário a sua felicidade por ter participado do Festival.

No concerto utilizou seu violão de dez cordas…«É de dez cordas porque originalmente sou pianista. No violão necessitamos das duas mãos para o som, a pressão e pinça. Minha formação foi no piano e ambas as mãos realizam uma atividade, por isso imaginei que outros acordes seriam perfeitos e encontrei um violão de dez cordas. Durante a prática fui mudando o sentido das cordas, agudas com graves. O violão é complexo. Aos poucos, transformei-o e ele também foi modificando minha forma de tocar o piano».

Todas as obras do concerto são músicas dele e acrescentou voz e piano…«Toda minha música se compõe de uma história. Cada CD gravado, que não são poucos, são 70, tem um nome que converge com algo da cultura brasileira. Não faço música porque goste de uma mistura de notas, sou compositor para cinema (38 filmes), balé (35), teatro (30 obras) e nesses 70 CDs sempre tenho músicas, com letras de grandes poetas. Neste momento da minha vida assisto a um festival de violão e incluo voz e piano. Sou assim».

ROMERO: O VIOLÃO É O GUIA PARA ENCONTRAR O ESPÍRITO

Pepe Romero, com sete anos, ofereceu seu primeiro concerto junto a seu pai, Celedonio Romero, um importante violonista e seu único maestro. Hoje, reconhece-se mundialmente como um dos grandes virtuosos do violão clássico.

Misturou seu concerto, na Sala Covarrubias, com muito do melhor do seu amplo repertório. Dessa forma pôde-se desfrutar de peças compostas por Ángel Barrios, Granado, Schubert, Schumann, Brahms, Fernando Sor, Joaquín Rodrigo, Joaquín Turina e do seu pai Celedonio Romero.      

Asseverou ao semanário que este Festival «é uma maravilha e fico muito contente que o maestro Ortega o retomasse, porque Cuba e o violão são muito unidos e aqui há grandíssimos talentos».

Para Romero, «o violão é um instrumento que não somente é escutado, mas também se sente quando se toca, se abraça, vibra nos braços e chega muito fundo, e hoje, graças ao esforço de muitos grandes violonistas tem uma importante colocação no mundo da música».

O que importância dá ao violão neste momento no universo cultural?

«É que o violão além da importância tem uma missão, porque o vilão, como disse García Lorca, é como uma aranha que tece sua teia para apanhar suspiros. O violão neste momento de muita confusão, de muitos problemas, de muita tecnologia, digitalização, e uma vida tão movida, é essa paz e esse som tão belo que cala e encontra o eu com o próprio espírito».

O 15º Festival e Concurso Internacional de Violão de Havana incluiu sete concertos, na Basílica Menor do Convento de São Francisco de Assis e na sala Covarrubias oferecidos pelo norte-americano Eliot Fisk, o brasileiro Egberto Gismonti e o espanhol Pepe Romero, três glórias do violão universal, e pelos cubanos Ariadna Cuellar, Eduardo e Galy Martín, Marco Tamayo, Ali Arango, o dueto Concuerda e a orquestra Nuestro Tiempo.

Os programas permitiram escutar, para só dar alguns exemplos, obras de Fernando Sor, Leo Brouwer, Manuel Ponce, Jesús Ortega, Heitor Villa-Lobos ou Radamés Gnatalli. Um belo evento do qual, afortunadamente, o maestro Jesús Ortega anunciou sua 16ª edição, em 2020.