ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Iván Giroud, além de ser o presidente do Festival de Cinema de Havana, é um dos programadores «por vocação e responsabilidade». Foto: Yander Zamora

«O Festival de Cinema de Havana tem uma grande pressão a cada ano porque é uma referência internacional para o cinema latino-americano e sua primeira obrigação é mostrar a última coisa que estão fazendo as diferentes cinematografias».

É a primeira apreciação feita por Iván Giroud, presidente do evento, quando começou uma entrevista exclusiva com a nossa publicação, em seu escritório na Casa do Festival no Vedado havanês.

É o fundamento como diz, mas a partir do cartaz se aprecia uma mudança...

«Nós mudamos o nome. Não desistimos de sermos chamados de Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano, mas para uma melhor comunicação, para respeitar algo que se transformou em tradição oral e nas redes sociais, chegamos a uma decisão: naturalizar um nome com o qual estão nos chamando, Festival de Cinema de Havana, mesmo sem Internacional, porque 40 anos nos dão essa possibilidade de reconhecimento».

Minha pergunta estava relacionada com a estética e as questões...

«Insisti muito nisso. Lembro que na 35ª edição, na qual tive que ocupar a presidência, realizei um seminário chamado Novo? Cinema? Latino-americano? As três palavras com interrogação. Era uma provocação para refletir. Dizer o quanto há de novo, se é cinema, o que é cinema hoje, ou aquela palavra audiovisual que se ajusta a tudo e não define nada, e o que é a América Latina hoje. É uma identidade em constante mudança, porque há cinema latino-americano na comunidade latina nos Estados Unidos, mas também o que é feito fora, como o filme feito pelo cineasta cubano Carlos Machado no Japão. É latino-americano?»

«Hoje também a universalização, a globalização desafia todos esses conceitos. Tem que ter flexibilidade suficiente para aceitar a realidade atual, reinterpretar os códigos. Mudar o nome, que será uma preocupação para alguns, acho que tem que ver isso como um ato de muita naturalidade. Isso não significa que o Festival renuncie aos preceitos, à identidade que deu origem a ele. O cinema feito hoje não pode esquecer que este Festival existe graças aos fundadores que se reconheceram como um movimento, defenderam o que defenderam e construíram, isso é uma herança, uma continuidade».

Em relação aos problemas...

«O que mais me estimula em meu trabalho, apesar de tantos anos aqui, é descobrir o que está acontecendo de novo, que tendência está sendo imposta, que nova questão está fazendo esta cinematografia. No ano passado foi um festival paradigmático de revelações. Primeiro, o número de mulheres cineastas, vimos-las colecionando os prêmios em uma porcentagem alta, seu olhar, mas também descobrindo outras cinematografias poderosas, como a dominicana e um cinema novo que está emergindo em Porto Rico. Questões que estão aparecendo, que se tornam recorrentes, obsessivas em alguns países, por exemplo, no cinema colombiano a reflexão sobre a guerrilha, os paramilitares, as fraturas dessa complexa situação. Todos os dias há mais filmes preocupados com questões ambientais, pois os povos nativos sempre tão maltratados de cima, as questões de diversidade sexual, memória, identidade. A partir do 35º Festival quisemos marcar aqueles que não estavam em competição, com certas abordagens contextuais, e isso refletia que o cinema latino-americano está tocando várias questões ao mesmo tempo, questões de qualidade.

Durante dezembro, Havana se converte em um palco da grande festa do cinema. Foto: Yander Zamora

Já tem filmes selecionados?

«Neste ano, que além do 40º aniversário, parece, pelo que vimos e resta por ver, vai ser um Festival tenso. Já há mais de mil inscritos com cópias e nós estamos trabalhando desde fevereiro. Para convidar um filme tem que ser visto por todo o Comitê de seleção. E penso que estes meses de forte verão havanês são os mais tensos porque fecha a convocatória, somos «bombardeados» com os filmes, com informação. É uma alegria porque demonstra que o Festival continua sendo um lugar de interesse para todos os cineastas e as pessoas querem que seu filme seja apresentado em Havana.

Pode adiantar alguns filmes e diretores?

«Ainda não, inclusive alguns não os vimos ainda, mas posso falar do último filme de Carlos Reygada (Nuestro tiempo), que está na competição em Veneza; também está em concorrência mas programado, o de Pablo Trapero (La quietud) e que estejam em um evento desta categoria envolve algo. Há um documentário excepcional, feito pelo grande diretor sérvio Emir Kusturika sobre o ex-presidente José Mujica (El último héroe). Já o convidamos».

Um especial para Cuba?

«Cuba faz parte disso. Não é um Festival cubano e Latino-americano, é um Festival onde Cuba é uma de suas partes. Essa é a vocação do Festival, assim foi fundado e assim o defendemos; mas o que acontece, sou cubano e a equipe que faz o Festival é cubana e não podemos afastar-nos desse sentido de cumplicidade com os cineastas cubanos».

Há muitos filmes cubanos neste ano?

«Potencialmente teremos muitos filmes com possibilidades, que possam entrar ao Festival. Estou pensando entre seis e oito. Agora, o que nenhum deles tem sido estrado e isto cria uma grande tensão, as fileiras, porque nós temos essa sorte que o público cubano espera o cinema cubano e a exigência, porque se converte em uma estreia, quando tem que ir no mesmo regime que os outros».

«Posso falar de alguns títulos, por exemplo, tem filmes em coprodução com o Icaic (Instituto Cubano da Arte e Indústria Cinematográficas) como um feito por dois jovens cubanos que moram no Canadá (El traductor, dos irmãos Rodrigo e Sebastián Barriuso); está também o filme de Arturo Infante (El viaje extraordinario de Celeste García), que está terminado e é sua obra prima; o Icaic terminou o filme de Arturo Sotto (Nido de Mantis), o de Fernando Pérez (InsumisaS) e o de Esteban Insausti (Club de Jazz). Há outros com possibilidades que se terminem, como o de Alejandro Gil (Inocencia)».

Que organizaram pelo 40º aniversário?

«Além do concurso, o setor indústria, as mostras e todas as conferências e workshops, vamos fazer dois eventos teóricos: um deles dedicado a este 40º aniversário, onde vamos convidar cineastas de várias gerações, dos que fizeram parte de sua história e cineastas jovens para fazer uma avaliação do que foi, como evoluiu e o que se espera. O segundo é dedicado ao 90º aniversário de Titón (Tomás Gutiérrez Alea) sobre aspectos de sua obra, com especialistas da Europa, Estados Unidos e América Latina, para aprofundar nas diferentes visões que podem ter os estudiosos».

«Não é apenas por comemorar, é ressaltar certos elementos de compromisso em sua obra, de riscos estéticos, de valor ético, de grande altura artística que devem constituir um exemplo, um ponto de aspiração em todo cineasta cubano. Isto envolve um ponto de vista muito elevado perante a cinematografia, porque Titón não é apenas um grande cineasta cubano e latino-americano, alguns de seus filmes estão considerados entre os grandes da história do cinema mundial. É uma figura universal. Isto é muito importante, como um país tão pequeno em sua primeira geração do Icaic (da década de 1960 do passado século) dá um cineasta dessa altura»;

Agora existem muitos festivais na América Latina. Que características tem o de Havana para que os cineastas continuem vindo?

«O Festival de Havana continua sendo uma referência. Tem um prestígio ganho com os anos. Sempre esteve aberto às gerações novas, não apenas ficou com os patriarcas do cinema latino-americano. Pelo contrário, fez um grande esforço por ir descobrindo, somando, incluindo os novos realizadores. De maneira que não é um Festival que fica na saudade, é um Festival que está vivo, que está o tempo todo buscando, interrogando, interrelacionando. É interessante porque lembro, no ano passado, no encerramento, quando Anahí Berneri, a diretora que ganhou (Alanis), disse que agradecia muito estar no Festival e ver seu filme com o público cubano e sentir também a reação dos outros cineastas, porque aqui ela descobria e recuperava, um sentido que não via em nenhum outro lugar, em Cuba ela se sentia parte da América Latina e é uma coisa especial. Isso diferencia Havana».

O Festival de Cinema de Havana avança a passos acelerados rumo à sua 40º edição. As palavras chaves? Prestígio, referência, renovação. Além da saudade, um concurso vivo.