ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Raven Wilkinson nos seus dias com o Ballet Russo de Monte Carlo. Foto: REPRODUZIDA DA INTERNET

O destacado crítico de dança cubano radicado na Espanha, Roger Salas, colocou-nos na pista: em 17 de dezembro passado, morreu aos 83 anos, em Manhattan, Raven Wilkinson, a quem ele legitimamente descreveu como um ícone na história do balé, por ter sido a primeira bailarina negra a assinar um contrato permanente em uma grande companhia, o Ballet Russo de Monte Carlo, ativo nos Estados Unidos entre 1938 e 1962. Depois de ser rejeitada duas vezes, Wilkinson repetiu uma terceira audiência em 1955 e finalmente foi aceita. Então tinha 20 anos.

Embora ela viesse de uma família abastada, morando no bairro do Harlem, o preconceito racial pesava numa sociedade marcada pela discriminação da cor da pele. Era impensável para uma mulher negra obter uma cota em uma companhia de dança clássica. No entanto, a menina ficou tão impressionada quando, aos cinco anos, assistiu a um show de Coppelia, oferecido pelo Ballet de Montecarlo, que resolveu dedicar sua vida a essa arte.

Tomou lições na escola do American Ballet e mais tarde, aos nove anos, através de fundos fornecidos por um tio, conseguiu se matricular na Academia Swoboda, caracterizada pelo rigor docente. Seus professores, Maria e Vecheslav Swoboda, traziam a experiência do balé Bolshói de Moscou.

As maiores dificuldades para Wilkinson vieram durante as turnês da companhia nos estados do sul, onde o racismo era mais severo. Na verdade, ela era mestiça —- mulata seria a palavra — e na cena passava por «branca» por força de maquiagem, guiada pela direção do grupo que não queria inflamar as mentes dos públicos fundamentalistas em sua rejeição aos afro-americanos. Também foi instruída a nunca comentar em público sua identidade étnica.

Em 1957, o proprietário de um hotel em Atlanta, na Geórgia, viu-a e perguntou se a dançarina que iria receber era negra. Ela se recusou a responder e foi ordenada a ficar em outro hotel, isolada do resto da companhia.

Durante essa mesma turnê, em Montgomery, dois membros do Ku Klux Klan invadiram o ensaio da pré-função. De uma maneira quebrada e ameaçadora, perguntaram: «Onde está a mulher negra?» Os membros da companhia protegeram Wilkinson e os racistas tiveram que sair com a cauda entre as pernas.

Diante de tantos problemas, a dançarina optou por deixar o Ballet Russo de Monte Carlo, em 1961. Mesmo temporariamente abandonou a dança clássica, decepcionada com os testes de admissão infrutuosos realizados para entrar em outros grupos, tais como o American Ballet Theatre, o New York City Ballet e o balé da Metropolitan Opera House.
Em 1966, conseguiu um contrato com o Dutch National Ballet, da Holanda, onde permaneceu por sete anos. Só voltou a dançar nos Estados Unidos em 1974, convidada para a ocasião pelo grupo de dança da New York City Opera.

Apesar de tudo, seu exemplo serviu de inspiração para jovens afro-americanos apaixonados pelo balé. De uma delas, Misty Copeland, atualmente no auge de sua carreira, foi uma mentora. Ela veio a Cuba não há muito tempo para se encontrar com nossa Alicia.

Entrevistada pela revista Time, no início deste ano, Copeland, primeira negra a subir para a posição de dançarina principal do American Ballet Theatre, declarou que «muitas coisas ainda são as mesmas que na época de Raven».
A esse respeito, acrescentou: «A única diferença é que o mundo fora do balé mudou. Nós não seremos solicitados a deixar a empresa porque nossa segurança está em risco, mas tive a mesma experiência de ser instruída a fazer o clareamento de pele para me adequar ao resto da empresa. Falei com tantos dançarinos que tiveram dificuldades por causa do tom da pele. Raven e eu, as duas temos uma pele clara, mas os dançarinos mais escuros experimentaram muito pior».