● Durante a minha juventude, tinha a convicção de que os melhores músicos eram aqueles que mais discos vendiam. Obviamente, isso representa um índice a ter em conta para a valorização crítica de uma trajetória, mas naturalmente que não é o mais importante.
Com o decurso do tempo, acabei percebendo que a transcendência de uma obra projetada entre a sensibilidade dos membros da sociedade é a resposta coerente à evolução profissional do artista, expressa através do acolhimento empolgante das suas músicas, para chegar assim a se converter na raiz da alma de muitos dos seus seguidores.
Este merecido privilégio somente pode ser conseguido com o próprio talento despregado por cada um. Trata-se de um requintado estado de graça cuja esmerada apresentação exige um alto nível de cuidado por aqueles fundamentos que o sustentam.
Ser reconhecido pelos diferentes estratos que conformam a complexa diversidade da sociedade cubana torna-se um orgulho de tão elevada nobreza, que simplesmente nossos músicos sabem que não têm como pagar o prêmio de ser devedores deste soberano ato de amor.
Por isso, quando a prepotência e a soberba atraiçoam essa herança, resulta inevitável o pesar da tristeza por aquilo extraviado, mas definitivamente somos conscientes das consequências dessa falha perante a história.
O erro assenta no próprio desrespeito à venerada repercussão de sua obra. Acabou esquecendo que a referida grandeza pôde crescer na medida em que foi útil aos demais, arrenega da honra agradecida por ter significado alguém valioso, a partir do apego que propiciam as suas músicas. Diante de semelhante decepção, o dano à sua credibilidade é irreparável. ●




