ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Cuba inspirou o projeto comunitário Arte 92. Foto: cortesia dos entrevistados.
«Do ver e imitar, do sentir e falar», afirmou José Martí, «nasce a arte». Com essas palavras, Martí deixou claro o valor das repercussões no cultivo e no desenvolvimento subsequente dessa semente que humaniza e distingue; e apontou para a espontaneidade da expressão e do sentimento, uma vez que esta cria raízes.
 
Levar a arte ao povo era um dos imperativos da nascente Revolução Cubana. Há inúmeros exemplos desse nobre propósito, que transformaria a Ilha em um palco cultural sem precedentes, mesmo antes de Fidel Castro fundar a Escola Nacional de Instrutores de Arte (ENIA), em 14 de abril de 1961. Devido a dificuldades econômicas, entre outros motivos, a ENIA foi desativada alguns anos depois. Retomando o projeto no âmbito da Batalha das Ideias, o Comandante-em-chefe propôs a criação das novas Escolas de Instrutores de Arte (EIA), cuja primeira turma se formou em 2004.
 
Esses maravilhosos centros trouxeram benefícios inestimáveis ​​para o país. Olga Alonso González, ex-aluna da ENIA, nascida em 18 de fevereiro de 1945, foi uma de suas alunas mais queridas. Em 4 de março de 1964, enquanto tentava chegar a um grupo de agricultores que aguardavam suas aulas, o carro em que viajava quebrou e capotou. A jovem faleceu no acidente. Em sua homenagem, o dia 18 de fevereiro foi instituído no país como o Dia do Instrutor de Arte.
 
O ABRAÇO DAS ARTES
 
Aramís Guillama Quiala é professor de Artes Visuais na escola primária Frank Hidalgo Gato, localizada na Rua 19, entre as ruas 6 e 8, no município de Plaza de la Revolución. Formado na primeira turma da EIA (Escuela de Artes Iberos y Artes) em 2004, ele nos conta: «Não vou mentir, no começo me senti cheio de incertezas e medos, porque, pela primeira vez, eu ia encarar uma sala de aula e transformá-la em uma oficina de artes visuais…»
 
Mas, ao vivenciar essa nova aventura, Aramís ficou sem palavras para descrevê-la. «Alcancei o ápice da satisfação ao ver como esses jovens discípulos aprenderam e compartilharam comigo um universo inimaginável de boas ideias, baseadas nas artes plásticas e visuais; e fizeram isso sem restrições, com inocência, com uma técnica primorosa aprendida e dominada em minhas oficinas».
 
«O professor ou instrutor de arte, tal como o próprio título sugere, deve ensinar o que sabe, mas para saber, primeiro precisamos ser artistas, sentir e compreender nossa especialidade para poder transmiti-la, e é isso que nos diferencia de outras formas de ensino», explica. «Estudamos, nos preparamos e, então, oferecemos nosso conhecimento para deixar uma bela marca no espírito da sociedade. As artes tocam o coração e a alma, e é por isso que podem mudar, para melhor, alguns aspectos da vida cotidiana», afirma.
 
CARREGAR DENTRO DE SI O «PEQUENO INSETO» DO ENSINO
 
«Quando eu estava na nona série, estava me preparando para a Escola Nacional de Arte, com especialização em Teatro», conta Adriana Toirac, da quinta turma de formandos da EIA. «No fim, não me inscrevi, mas sabia que o teatro era a minha vocação. Quando surgiu a oportunidade na EIA, vi como uma porta aberta, porque eu — assim como minha mãe, que é psicóloga educacional — sempre amei ensinar, e compartilho dessa paixão; e como eu gostava de ensinar e de arte, era exatamente o que eu estava esperando. Fiz os testes para o teatro e fui aprovada», diz.
 
Adriana trabalha atualmente no projeto Arte 92, que já tem dez anos e pertence à Casa de Cultura de Diez de Octubre. «Hoje dou aulas de artes visuais para crianças de seis a dez anos. Para ensinar arte a crianças, é preciso motivá-las, mas no caso da pintura e do desenho, é mais simples porque praticamente nascemos com um lápis de cor na mão. Precisamos expressar o que está dentro de nós e, desde muito cedo, as crianças pintam tudo o que veem; elas têm essa necessidade de se expressar», explica. 
 
A especialista também menciona os benefícios para as crianças, mesmo que não se tornem artistas, de terem contato com a arte, porque «esse conhecimento, essas habilidades que elas desenvolvem, essa maneira de ver a vida, sempre lhes trarão algum benefício. Isso as ajuda a criar novas realidades, e isso é bom para que não se acomodem e escolham fazer algo melhor», diz.
 
Como se soubesse que iríamos abordar as qualidades que os professores ou instrutores de arte devem ter, Adriana antecipa nossa pergunta: «Eles precisam ser muito sensíveis, antes de tudo, porque são muitas coisas; são artistas, mas também educadores, assistentes sociais e até um pouco amigos. Portanto, sensibilidade e empatia são fundamentais para eles».
 
E é assim que ela resume suas impressões: «Você precisa sentir amor e ter vocação para o que faz, o que ensina e o que mostra. Para poder ensinar arte, você precisa se sentir um artista. Você precisa ser isso, um artista, e precisa querer deixar um legado para as novas gerações».
 
APRIMORAR A CULTURA COM SEU CONHECIMENTO
 
Quase fundador da EIA Eduardo García Delgado, com dez anos de trabalho no centro como professor de Literatura Espanhola, Yoylán Cabrales Gómez defende questões muito importantes relacionadas aos instrutores de arte.
 
Em nossa conversa, ele compartilhou suas ideias sobre esses profissionais. «Aprendi como é gratificante para as crianças e os estudantes em geral ter um professor de arte em sua escola; porque a arte, como dizem, salva».
 
«A arte ajuda você a sonhar, oferece um ponto de referência, enriquece sua cultura, contribui para o seu aprimoramento em diversos aspectos da vida cotidiana, permite que você veja a vida de uma maneira diferente e alivia muitas preocupações», afirma.
 
«Já ouvi alunos dizerem que sentar para pintar com seu professor de arte, ou fazer teatro com seu instrutor, os libertou de problemas familiares. Eles são realmente importantes; e se essa presença se mantém e cresce nas escolas depende muito da pessoa que a exerce, e também do apoio das instituições para que possam desenvolver seu trabalho, em meio à escassez de profissionais».
 
«Se um professor de espanhol precisar ilustrar suas aulas com um filme ou uma música, é o professor de arte quem deve ser o responsável por viabilizar isso», argumenta.
 
Em suas considerações finais, o instrutor defende um ponto de vista que seus interlocutores também compartilham: «O professor ou Instrutor de arte é a pessoa que ficará encarregada de elevar essa cultura que, às vezes, está em frangalhos, e para alcançar isso, ele oferece o melhor que tem, que são seu conhecimento e seu desejo de contribuir».
Para ensinar arte, você precisa se sentir como um artista.Foto: José Llamos Camejo.
Uma aluna expõe seu trabalho na aula de artes do professor Aramís. Foto de : José Llamos Camejo.