ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
O diretor, Rodney Montes de Oca, mostra os frascos onde se observam as amostras A e B. Photo: Ricardo López Hevia

DEVOÇÃO pela vida, a ética e a transparência, são as razões de existir de uma das obras mais importantes do movimento esportivo cubano, o laboratório antidoping de Havana, que este 13 de fevereiro comemora 15 anos de ter sido fundado.

Teresa Correa Vidal leva esses 15 anos ali e foi pioneira deste combate frontal contra o engano no universo esportivo. Em 1982, durante os Jogos Centro-americanos e do Caribe, em Havana, trabalhava no Centro Nacional de Pesquisas Científicas, e a convocaram para trabalhar na coleta das amostras daquela competição, junto a um grupo de especialistas soviéticos do laboratório de Moscou, onde as análises foram feitas. “Ao acolher Cuba os Jogos Pan-americanos de 1991, chamaram-me de novo e foi criado no país um laboratório provisional junto a um grupo de técnicos e pesquisadores mexicanos, que depois nos ofereceram ajuda para o que hoje temos”.

Não foi por acaso que a procuraram quando surgiu a ideia de ter um laboratório. “Foi tudo muito rápido, com exigência, sem violar um só detalhe, trabalhou-se com muita responsabilidade e alto nível científico. Eram madrugadas inteiras sem sair daqui, não nos detínhamos e alcançamos os padrões de qualidade exigidos para obter a certificação. Depois veio o processo de credenciamento por parte do COI”.

“Escutá-la é renovar cada minuto nosso compromisso em prol da saúde de nossos esportistas”, afirma o diretor do laboratório há três anos, Rodney Montes de Oca. “Realizaram uma proeza os que tiveram a responsabilidade de fazer com que surgisse este centro e de cumprir com o credenciamento, pois conseguiram isso em um tempo recorde, de fevereiro de 2001 a setembro de 2003, em pouco menos de três anos, quando ao resto dos 35 que há no mundo lhes custou entre quatro e cinco calendários”, comentou.

Na instalação trabalham 37 trabalhadores, 15 deles diretamente ligados à pesquisa, e do total, apenas seis são homens. Montes de Oca destaca a qualidade humana e profissional desse grupo, enfrentando um equipamento de tecnologia muito avançada. “Foi meu único lugar de trabalho e posso dizer que é um laboratório do Primeiro Mundo em um país do Terceiro Mundo”, assegura.

A instituição garante o Programa Nacional Antidoping da República de Cuba e da República Bolivariana da Ve­nezuela. E para este ano receberam o pedido de responder também pelo da Costa Rica. Hoje estão imersos na preparação rumo aos Jogos Olímpicos do Rio. “Realizamos um controle sistemático da pré-delegação, da qual sairá nossa representação. Começamos tão cedo como no último dia dos passados Jogos Pan-americanos”.

“A brigada nacional antidoping preparou um esquema que permite que os atletas sejam monitorados quatro ou mais vezes durante seu adestramento rumo ao Rio”, apontou.

Deanelys se formou como pesquisadora nesta instalação. Photo: Ricardo López Hevia

Essa brigada tem um conteúdo educativo por excelência, pois prepara os médicos, psicólogos e fisioterapeutas. Ainda que seja só uma, cada Centro Provincial de Medicina Esportiva conta com a sua a essa instância. Está adstrita ao Órgão Na­cional Antidoping, que se subordina ao Comitê Olímpico Cubano. “Não é uma entidade do laboratório, não poderia ser, pois criaria um conflito de interesses. Ela faz a tomada de amostras e nos chegam com um número ou código externo. Nós lhes damos um novo número, que é um código interno e começamos a realizar nosso trabalho”, explica.

CHEGAR À META E MANTER-SE

O diretor aprofundou em que “o credenciamento deste ou qualquer laboratório é por um ano (1º de janeiro-31 de dezembro), ou seja, anualmente é preciso expor essa condição à opinião dos avaliadores da Agência Mundial Antidoping (AMA)”.

“Submetemo-nos a cinco exames. Três deles são cegos e dois duplo-cegos. O cego: mandam as amostras e têm que dizer a substância que contém e a concentração presente. O duplo cego: nunca sabe que a AMA está mandando a amostra. Pode ser de uma competição da área onde se dá serviço ou de um torneio internacional aqui ou um pedido de algum cliente, mas nunca se sabe que foi a eleita pela AMA. Está o ano inteiro sujeito ao credenciamento”, precisou.

O processo do controle antidoping começa com a tomada da amostra, em dois frascos, um é a A e o outro a B, os quais contêm a mesma urina, produto de uma só micção. Os especialistas do laboratório nunca sabem de que sujeito se trata, para eles essa pessoa é só um número.

“Nas pesquisas da AMA, se a amostra A der positiva e a amostra B for negativa, se perde o credenciamento, o qual aconteceu com Madri. Se acontecer o contrário, não se perde automaticamente, mas a AMA intervém a instalação e faz revisões que quase sempre conduzem à perda. Cuba nunca perdeu sua condição”, expressa Montes de Oca, que acrescenta que, além do madrileno, o mesmo aconteceu ao Brasil, a Rússia acaba de perdê-la, pelos casos do atletismo e a República Tcheca a entregou, pois desistiu de continuar com seu laboratório. Aqui há um compromisso de manter, com altos níveis profissionais e éticos, nosso laboratório.

“O mais importante de nosso trabalho é a proteção da saúde do atleta, inclusive além do engano, que com certeza é daninho porque prejudica o conteúdo ético, a limpeza de uma competição em igualdade de condições e porque tem a ver muito com algo que para nós é sagrado: a verdade. Mas insisto, não há nada mais importante do que a vida e essa é a que temos que preservar deste flagelo que é o doping, que é o câncer do esporte. O doping corrompe, desprestigia o atleta e o movimento esportivo, mas também mata”, asseverou.

SUBSTÂNCIAS E MÉTODOS MAIS UTILIZADOS NO DOPING

“As substâncias mais utilizadas são os esteroides anabolizantes; o mais frequente continua sendo o estanozolol, que destapou em 1988 o caso do corredor canadense Ben Johnson. Incrementa-se o uso da eritropoietina (EPO) e também o do hormônio de crescimento, ambos pela complexidade de sua detecção, pois são produzidas pelo próprio corpo humano”.

“Os métodos, transfusão sanguínea por duas vias: pela compra de sangue heterólogo, ou seja, que não é o mesmo sangue de quem vai recebê-la, ainda que seja do mesmo grupo sanguíneo e a outra pela transfusão do próprio sangue do atleta. Isto é, uma tomada de sangue é feita, congela-se e depois é fornecida novamente”.

Diz Montes de Oca, que “a primeira destas vias tem métodos para detectá-la ao examinar a quantidade de glóbulos vermelhos, mas a segunda é muito difícil, só pode ser feita pelas traças de plástico, pois o sangue é guardado em bolsas desse material. Contudo, como a vida diária está cheia de plástico, a gente pode dizer que essa traça poderia ser de um copo descartável, de um canudo, enfim, de muitas coisas”.

Acrescenta que algumas podem ser irreversíveis para a vida. “Há esteroides anabolizantes que desencadeiam em um câncer hepático. A inoculação de EPO produz um incremento dos glóbulos vermelhos, a hemoglobina vai acima de 20 ou 25. Na competição o músculo cardíaco tem alta capacidade, pois está exigindo isso, mas em repouso é impossível para ele bombear o sangue e se produz a morte”. Acrescentou o uso de esteroides de design. “Era normal a testosterona, a nandrolona, mas agora se encontra a THG (tetrahidrogestrinona), que causou o escândalo dos beisebolistas nas Major Leagues”.

“Quando falamos da saúde dos atletas e sua importância para nosso trabalho é que quem busca ganhar a todo custo ou quem persegue a fama e o dinheiro está cometendo assassinato ou suicídio. Tanto é assim que há substâncias que não chegam a ser consideradas medicamentos e já se encontram em amostras para análise antidoping, por exemplo, o gw1516 ficou em fase experimental porque causava câncer nos animais e já hoje alguns esportistas o consomem, em seu afã por vencer a todo o custo”.

TECNOLOGIA DE PONTA A FAVOR DA VERDADE

Montes de Oca, também licenciado em Ciências Farmacêuticas expressou que o laboratório conta com equipamentos altamente sofisticados.

“Temos o cromatógrafo líquido acoplado a massa-mas­sa, que detecta substâncias a concentrações muito baixas. Por exemplo: uma colher de sobremesa de açúcar diluído em uma piscina olímpica. Ou o clembuterol, presente no gado: se o atleta comer um bife, no dia seguinte está dando positivo dessa substância”.

Acerca do espectrômetro de massa de relações isotópicas, também em uso na instalação cubana, disse: “Comentei que os casos mais frequentes de doping são com substâncias produzidas pelo próprio corpo humano, como o hormônio do crescimento, a EPO, ou a testosterona. Este equipamento é capaz, com análise em nível molecular, de discernir se níveis elevados de testosterona na urina de um atleta são por uma produção endógena ou pela administração de um produto sintético, isto é, de um agente exógeno”.

Em torno ao uso desses elementos, que se eliminam muito rápido do organismo, como a EPO (em apenas 24 horas) ou o hormônio do crescimento, entre quatro e oito, a comunidade científica criou o passaporte biológico do esportista. “No caso da primeira a ser fornecida por via exógena, ou seja, injetável, há 11 parâmetros que se alteram e é visível só se está estabelecido esse documento, o qual contém várias amostras anteriores e cria um perfil basal de seus indicadores hematológicos. Nestes casos, há sanção por uso ou tentativa de uso de substância proibida; ainda que não seja demonstrada a presença, verifica-se que foi usada”.

Estes conhecimentos passam de geração em geração e a jovem Deanelys Hernández Domínguez, é prova disso. “Moro em frente da casa de Teresa, ela me contagiou com seu magistério e amor pela química, trouxe-me aqui, estudei técnico médio, depois me tornei licenciada e já sou mestre em determinação de substâncias em diferentes estados. É um orgulho estar onde a ética e a verdade se colocam ao serviço de uma das grandes conquistas da Revolução, que é o esporte. Sinto-me muito contente como quando uma menina comemora sua festa de debutante”.