ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Arlenis Sierra en el Tour de California 2017. Photo: Getty Images

LEMBRO perfeitamente minhas primeiras conversas com Arlenis Sierra Cañadilla, há dois anos. Sob um sol intenso, no velódromo Reinaldo Paseiro, ela mal falava e aos poucos se expressava, pois como popularmente dizemos, era preciso tirar as palavras da boca dela.

Depois de um tempo, e após adquirir experiência em eventos de máxima exigência onde assistiram muitas das melhores ciclistas do mundo, a atleta de Manzanillo, Granma, tirou qualquer sinal de medo ao falar. Não para de falar acerca das experiências vividas, nos últimos meses, no Astana Women's Team, time cazaque assente na Itália, que participa do Tour Mundial de Rota, da União Ciclista Internacional (UCI).

«O nível é diferente relativamente ao da América. Aqui as etapas têm um máximo de 100 quilômetros, mas no Tour quase nunca são inferiores a 120. Também, concorre-se nas estradas mais variáveis e imaginadas, tanto uma lajeada quanto um caminho de terra e os horários são complicados, porque se começa após do meio-dia», comenta Arlenis ao Granma Internacional no velódromo localizado ao leste de Havana, lugar onde descansa depois da alta competição.

«No inverno não importa a hora porque o frio resulta mais adequado que o verão, onde o esgotamento é maior, por causa de pedalar nos momentos de maior temperatura no dia. Por outro lado, as ciclistas também são diferentes, aceleram o ritmo de competência, não têm limites nem param diante do perigo», acrescenta a bela ciclista.

Certamente o Tour Mundial é desenhado para as pernas mais fortes sobre bielas, essas que sejam capazes de vencer obstáculos de grande envergadura. «Eu não mento a ninguém, isso é difícil, a gente sofre, mas vale a pena. Tomara que mais cubanos tivessem a chance de pedalar contratados, o nível cresceria enormemente».

A ROTA DIÁRIA

A partir dos 11 anos de idade, Arlenis Sierra ficou longe de seu lar e sua família. No começo, treinava na base da pirâmide esportiva cubana: na Escola de Iniciação Esportiva (EIDE, por sua sigla em espanhol) e aos 16 anos fez parte da pré-seleção nacional na capital. Talvez por isso agora não sente a distância que a separa de seu entorno habitual por quase o ano todo.

«Com o Astana estou bem. É o típico clube europeu, muito dedicados e atentos aos deta-lhes. Outras equipes dos Estados Unidos também me ofereceram contratos e por causa dos escolhos do bloqueio não foi possível assinar um acordo com eles. Porém, agora, depois de vários meses na Itália, caso me chegasse outra oferta, não a vou aceitar porque nesse clube fico muito bem», assevera a campeã dos Jogos Pan-americanos de Toronto 2015.

«Isto não significa que a vida se torne simples. Eu lavo, passo o ferro, mas tudo se torna complicado porque não gosto de cozinhar, por exemplo», assevera e sorri, embora reconheça que tenha avançado.

A vida de uma esportista profissional é de muita dedicação e responsabilidade, detalhes que Arlenis sabe interiorizar. «Saio pouco, realmente tenho uma rotina bastante monótona. Treino nas manhãs e depois me deito para descansar por muito tempo. Gostaria socializar mais, mas tampouco conheço muitas pessoas. Nesses momentos de solidão é quando a gente sente mais saudade de Cuba, do seu ambiente».

Outro escolho importante para Arlenis foi o idioma, pois entende o Italiano, mas não consegue se expressar bem. «Felizmente, na equipe o treinador e o mecânico falam espanhol perfeitamente. Algumas vezes, durante as competições, surge este complicado tema, sobretudo nos países onde se fala inglês e a comunicação é nessa língua, pois entendo pouco».

UM LONGO PERCURSO ATÉ O ASTANA

Antes dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, onde Arlenis conseguiu o melhor desempenho de Cuba na história da rota (28ª colocação), já o Astana Women's Team queria atrair esta ciclista a seu clube.

Ela teve uma temporada bem-sucedida, com 23 anos, com a terceira colocação por pontos e a segunda, na rota de montanha, no Tour de San Luis; a liderança em todas as provas da Volta à Costa Rica; a medalha de prata no Campeonato Pan-americanos e o domínio absoluto no Tour de Bretagne, já neste último como convidada especial do Centro Mundial da UCI.

«Acompanharam-me durante o ano todo, ti-nham muito interesse em incorporar outra ciclista latina para que se juntasse à mexicana Carolina Rodríguez». Eu tinha muita ilusão, pois falamos de uma equipe importante, de tradição. Eu acho que já depois dos Jogos Olímpicos se definiram mais as coisas, porque, se bem não tive um bom resultado para muitas pessoas, outros valorizaram meu esforço realizado em umas condições muito complexas», descreve Arlenis.

Depois de envergada a camiseta azul-mari-nho do time cazaque, a cubana se consolidou como uma das primeiras figuras, embora tenha terminado distante do acostumado (35ª colocação), durante o começo do Tour Mundial, no Strade Bianche da Toscana, Itália. Não obstante, entre mais de 100 ciclistas que concorreram em um percurso de 127 quilômetros, Arlenis evitou colocar-se em um grupo de mais de 60 participantes que não concluíram a prova.

Depois deste certame, em nenhum dos eventos concorridos desceu da 25ª colocação. Conseguiu a segunda colocação na Semana Ciclística Valenciana e no Troféu Alfredo Binda-Comune di Cittiglio, realizado na comunidade italiana de Gavitare, e depois liderou a equipe em Gent–Wevelgem, Bélgica e no Tour de Flanders, dois dos certames do circuito mundial.

Contudo, seu melhor desempenho nestes certames se tornou realidade no Tour da Califórnia e no Giro Rosa, da Itália. No evento nos Estados Unidos terminou na terceira colocação por pontos, liderou a etapa de classificação, inclusive entre as atletas jovens e terminou na nona colocação na prova de montanha. Por seu lado, no Tour, considerado como o evento mais prestigiosos do circuito feminino, ficou décima na lista final entre 300 ciclistas, colocando-se na décima colocação em seis das dez etapas.

«Neste Tour outorgaram-me a distinção de capitã da equipe, uma alegria, mas continuo sendo humilde, estou pronta para fazer qualquer coisa, se é preciso apoiar outras pessoas o faço. Eu acho que o resultado foi graças à contribuição do time, integrado por atletas que não têm a mesma experiência de outros clubes, mas fazem um grande esforço», explicou Arlenis, quem ficou atrás de verdadeiras estrelas da estrada, no certame dos Alpes.

Por exemplo, a prova foi liderada pela holandesa Anna van der Breggen, campeã olímpica de rota, e entre as dez primeiras colocações apareceram a dupla campeã mundial de sprint, Karol-Ann Canuel (Canadá); e Elisa Longo Borghini (da Itália), medalha de bronze olímpica e do mundo. Também, Arlenis ultrapassou por pontos outras ciclistas destacadas como Shara Gillow, australiana, vice-campeã do mundo no sprint, em Valkenburg, Holanda (2012).

Esta enriquecida experiência fortalece sua confiança, e não nega que agora existem mais possibilidades de obter um resultado relevante para Cuba. «Temos mais conhecimento e referências, porque Marlies Mejías e Iraida García também concorreram continuamente em muitas provas. Já conhecemos as vulnerabilidades das rivais e na competição por países teremos mais elementos para traçar uma estratégia».    

Como toda atleta, Arlenis tem sonhos e não quer postergá-los. «Existem coisas que a gente quer e são difíceis, mas não impossíveis. Minha meta é ser campeã mundial e ter uma medalha olímpica, bem seja na pista ou na rota, porque não penso deixar a pista. Eu gosto, sobretudo, dos eventos em grupo, e acho que aí tenho mais opções, pois em uma prova concorrem 20 atletas, entretanto na rota há mais de 100. É certo que sou jovem e ainda falta caminho por percor-rer, mas o tempo passa e não existe melhor momento que o presente para tentar as coisas».