ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
De menina, quase sempre jogava contra os meninos e isto me ajudou muito, asseverou Lisandra Ordaz. Foto: jornal guerrillero

PINAR DEL RÍO.— Embora resolvesse não voltar a jogar uma partida de xadrez, Lisandra Ordaz já fez história. Com sua atuação, em finais de 2017, no torneio Don Modesto Castellón, tornou-se a primeira cubana que ultrapassou a casa dos 2.400 pontos no Elo (2414) e obteve o título de Mestra Internacional, sem diferença de sexos.

Com 29 anos, Lisandra aspira ter um bom desempenho no próximo torneio internacional Capablanca in Memoriam e integrar a equipe cubana que participará, em setembro, da 43ª Olimpíada Mundial. Seus sonhos vão mais adiante.

Começou a praticar com oito anos, com mais curiosidade do que vocação, pois como ela assinala: «Eu tinha mais inclinação pelos esportes de contacto».

Foi a paixão de seus treinadores, a que a faria, aos pouco, com que se apaixonasse pelo jogo-ciência, e dedicar-se a ele com responsabilidade. Com 11 anos matriculou na EIDE (Escola de Iniciação Esportiva) de Pinar del Río, e com 15 anos, após finalizar na segunda colocação, na Olimpíada do Esporte Cubano, recebeu o título de Mestra Internacional feminina e integrou a pré-seleção nacional.

Em 2010, foi o primeiro tabuleiro da equipe que conseguiu a histórica quarta colocação, na Olimpíada de Khanty-Mansisk. Anteriormente, participou de um certame olímpico e — com o título de grande mestra feminina — assistiria às de 2012 e 2014.

Depois, surpreendentemente, deixou de concorrer.

«Estive vários anos com problemas de saúde e o mais importante era recuperar-me, para voltar com novas energias. Durante quase dois anos participei de muito poucos eventos, porque mudei meu papel e me tornei treinadora de uma jogadora que, atualmente, é das principais enxadristas do México».

Ao passo que se efetuava o Campeonato Nacional de xadrez, há só uns dias, Lisandra Ordaz concorria em outros torneios paralelos em nosso país.

Não é contraditório ser a cubana que ocupa a primeira colocação no ranking da Federação Internacional (FIDE) e não ser campeã nacional?

«Gostaria de ser campeã nacional, nunca consegui dar essa alegria a minha família, ao povo e a mim, mas ao atingir os 2.400 pontos no Elo, quase 300 pontos acima da média do torneio, isso fazia com que tivesse que vencer praticamente todas as partidas, para não cair na colocação, daí que durante o torneio nacional feminino participasse, em uníssono, de um torneio de homens, chamado Eldis Cobo».

Daqui a pouco vai receber o título de Mestra Internacional sem distinção de sexo, concorrer contra homens não é estranho para você?

«Ainda jovem, quase sempre jogava com os jovens. Isso me ajudou muito e formou as bases para enfrentá-los sem medo. Em 2010, quando obtive minha primeira categoria de Mestre Internacional, sem distinção de sexo, estive só a meio ponto da de Grande Mestre masculino, e a partir daquele momento, a maioria dos torneios nos quais participei, foram mistos».

O que opina do debate que existe acerca da capacidade das mulheres no xadrez respeito aos homens?

«Historicamente, o xadrez foi um esporte de homens, os campeonatos femininos começaram depois; não obstante, avançamos, antes não era habitual que tivéssemos títulos absolutos nem desempenhos importantes em certame masculinos, e isso cada vez é mais frequente».

Como e com quem faz preparação?

«Há anos eu me preparo, através dos livros e do computador, embora mantenha a assessória daquele que foi meu segundo treinador, José Manuel Cruz Lima».

«Os principais jogadores do xadrez mundial têm equipes completas para treinar».

«Ter uma pessoa de guia, que prepare e economize o tempo, é chave. Nisso devemos trabalhar em nível nacional, pois seria ideal que cada atleta de primeira categoria tivesse seu treinador ou sua equipe de preparadores».

Nos esportes mais midiáticos, os atletas dizem que desde pequenos sonham com integrar a equipe nacional. Acontece isso no xadrez?

«Exatamente. Quando se começa a participar de eventos, a mentalidade é conformar a equipe Cuba. Esse é o topo do esforço: integrar o time nacional e representar o país».

O que sente por ser a primeira cubana que ultrapassa a barreira dos 2.400 pontos de Elo?

«Uma satisfação enorme por ter cumprido esta meta. Nesse dia houve muitas emoções encontradas e até lágrimas, porque é o resultado de mais de 20 anos neste mundo do xadrez».

Com que sonha agora?

«Primeiramente devo manter esse Elo, com vista a ultrapassá-lo, e lutar por realizar a primeira norma de Grande Mestre absoluto. Fico contente com o conseguido, mas ainda me faltam muitos sonhos por cumprir.»