TENSA calma. Assim aparece o panorama político no Brasil neste momento, após o começo do processo de julgamento político (impeachment) contra a presidente Dilma Rousseff. Em diversos atos, a chefa de Estado reiterou que está tranquila e com a consciência limpa, porque não cometeu nenhum dos delitos dos quais é acusada.
Na semana passada um grupo de congressistas da oposição, liderados pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, deu luz verde ao pedido de julgamento político contra a governante, amparado em uma suposta violação da Lei de Responsabilidade Fiscal, ao “maquiar” as contas públicas do ano 2014.
Na terça-feira, dia 8, a própria Rousseff pediu acelerar o procedimento para esclarecer e estabilizar a situação no país; entretanto, Cunha dilatava no Congresso a criação da comissão responsável por estudar o pedido de impeachment.
A notícia provocou diversas reações dentro do espectro político do país, desde o ex-presidente Luiz Inácio Lula até líderes conhecidos da oposição, como a ex-candidata presidencial Marina Silva, que se opõem a essa jogada contra Dilma.
Para Lula, a decisão de Cunha carece de qualquer sustentação legal; é apenas uma demonstração de ódio e a prova de que Cunha colocou os interesses pessoais acima dos do país.
Ao mesmo tempo, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, pôs em dúvida que se possa julgar politicamente Rousseff.
“Nem o Tribunal de Contas da União (TCU) nem o Tribunal Superior Eleitoral possuem mecanismos para desencadear um processo de tamanha envergadura”, declarou Barbosa durante o 7º Congresso Internacional de Mercados Financeiros e de Capitais, que teve sessões em São Paulo.
“O impeachment é uma coisa muito séria que, caso ser realizado, sabe-se como começa, mas não como termina. É um abalo sísmico nas instituições. Tem que ser algo muito bem fundamentado, uma prova fidedigna que envolva diretamente a presidente da República. Sem isso saímos perdendo e com as instituições quebradas”, concluiu o responsável por investigar o processo de corrupção conhecido como “mensalão”.
Por outro lado, tornou-se pública uma carta do vice-presidente do país, Michel Temer a Dilma Rousseff na qual diz que ela nunca confiou nele e se autodefine como um “vice-presidente decorativo”.
A carta de Temer, que lidera o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), o mesmo ao qual pertence Cunha, foi alvo de chacota nas redes sociais e não teve o efeito político que desejava.
Entretanto, analistas políticos como o basco Katu Arkonada, consideram que “a iniciativa do deputado Cunha, que é um cadáver político, carece de qualquer tipo de sustentação jurídica; é uma escusa política a partir de uma falta administrativa (a violação da Lei de Responsabilidade Fiscal); é um movimento desesperado de uma pessoa desesperada, o presidente da Câmara dos Deputados, que não se sentiu respaldado pelo governo, perante os inúmeros julgamentos por corrupção que vai ter que enfrentar”.
O também integrante da Rede em Defesa da Humanidade disse ao Granma que o “golpe parlamentar suave” que se tenta aplicar no Brasil se produz em um momento em que a América Latina vive “um refluxo da mudança de época, uma etapa de lentidão do ciclo progressista e, inclusive, com alguns recuos, como a derrota do kirchnerismo na Argentina e das forças chavistas, nas recentes eleições parlamentares na Venezuela”.
Perante esse ambiente regional, o ativista político expõe que “devemos mais que nunca estar alertas às tentativas de golpes que se deem contra os governos progressistas”; enquanto lembra que a estes “quando não podem retirá-los mediante a via eleitoral, a direita latino-americana conspira para retirar de maneira antidemocrática os governos de esquerda, e isso é o que está acontecendo no Brasil”.
Arkonada propõe, no caso brasileiro, estabelecer como prioridade “defender o governo de Dilma face a esta tentativa de golpe parlamentar, e depois apoiar a recomposição do PT (Partido dos Trabalhadores), para que possa vencer as eleições em 2018, com Lula como candidato”.
O especialista, consultado por este jornal, compreende também que os ataques contra Dilma pretendem atingir Lula, para evitar um possível retorno seu à presidência. Enquanto se espera por uma solução à crise política no gigante sul-americano é importante destacar o papel de um ator muito influente na mesma: a mídia. Um exemplo do alcance destrutivo de corporações da mídia, adversas à administração de Rousseff é O Globo.
Todos os dias esta rede passa ao menos cinco minutos de propaganda contra o governo, onde deputados de oposição explicam, em horário nobre (entre novela e novela, depois da emissão do Jornal Nacional) as causas pelas quais se deve processar a chefa de Estado. Desta maneira se adjudica seu papel dentro da maquinaria desestabilizadora no gigante sul-americano.





