
CADA vez que escuto ou leio acerca do Brasil lembro-me compulsivamente de uma visita que fiz no ano 1997. Por esses estranhos destinos da vida percorri em São Paulo o estudo de gravação de uma das três versões brasileiras da telenovela “O Direito de Nascer”. Seu diretor, Roberto Talma (lamentavelmente falecido no passado 2015), era um bonacheirão e valente brasileiro que conversou longamente comigo, conterrâneo de Felix B. Caignet, ao qual toda a indústria da telenovela em nossa a América reconhece como o autor das mais influentes obras desse gênero, descendente direto da radionovela.
Talma assumia os riscos do remake e o pagou. A cadeia SBT a manteve arquivada até o ano 2011 em que finalmente foi transmitida. Quando conversamos no ano 1997 seu diretor expressava sua alegria com o encargo de ter dirigido a telenovela, e uma e outra vez indagava em relação ao destino de seu autor, que faleceu em Cuba, em 1976. Os atores e atrizes reuniam-se em torno do cubano que os visitava para bater as fotos de rigor. Eu guardo algumas dessas fotos com as celebridades da televisão brasileiras que interpretavam os diversos personagens de O Direito de Nascer.
Dessa novela, que já teve muitas versões, um dos caráteres mais polêmicos sempre foi o de D. Rafael del Junco, o pai da protagonista. D. Rafael apegado aos preconceitos morais da época, não pôde suportar que a gestação de sua filha tenha sido fruto do amor enganoso de um vilão e a desterra para uma fazenda no lugar mais distante possível de seu lar.
Mas a história real por trás da personagem é mais interessante. O ator espanhol que interpretava a voz de D. Rafael, ao ver que sua caracterização impactava a audiência, solicitou um aumento de salário ao czar dos meios de comunicação naquela época em Cuba: Goar Mestre. A resposta do magnata não se fez esperar. Falou com Caignet e lhe pediu que calasse o ator. Dessa forma e a partir de um acidente, o autor fez emudecer Del Junco. As manchetes da imprensa amanheciam lançando a pergunta: “Falará hoje D. Rafael?”. Seu silêncio foi, realmente, uma catapulta para disparar os níveis da audiência até que se determinou que falasse novamente.
Esta forma de silenciar é típica dos grandes monopólios da informação.
Quando se reúnem com um objetivo silenciam os sucessos daqueles que para eles são os maus. Ou os demonizam até que a audiência o permite. Contra aqueles que tentam quebrar as ataduras do passado em nossa América Latina os donos das grandes redes de televisão e a imprensa escrita unem-se com a outra parte da oligarquia financeira para fazer calar o que para eles atenta contra seus interesses de classe.
O que está acontecendo no Brasil, neste momento, é precisamente isso.
Quem é o mauzão, o vilão para a oligarquia? O PT, Lula e Dilma Roussef representam os que durantes quatro mandatos golpearam os interesses da grande burguesia, para bem dos mais despossuídos. Não perdoam que se tenham preocupado por oferecer aos pobres mais médicos e educação. Que os ingressos do país sejam distribuídos de uma forma mais justa. E que o papel de Brasil no contexto internacional seja o que merece esse gigante do nosso continente.
Silenciar e demonizar podem confundir muitos. Porém, são mais os que conhecem de perto o significado da mudança na maneira em que são tratados os desfavorecidos que os que se deixam confundir. A força que tem a mídia realmente faz muito dano. Converte em um espetáculo de massa a agressão à figura emblemática de Lula, para depois continuar golpeando com calúnias, falsidades e desprezo.
A América Latina esta sob o ataque dessa mídia. E só a força dos povos pode fazer recuar aos que tentam voltar ao passado. Porque nós todos temos não só o direito de nascer; também temos os direitos sagrados de viver com dignidade, educados e saudáveis. As regressões cíclicas nunca duraram eternamente, mas fazem muito dano. E se não acreditam, podem perguntar aos povos daqueles países onde o número de desaparecidos, assassinados e torturados transcendeu, apesar de que a grande mídia tentou silenciá-lo durante todo o tempo possível, como fez em sua época D. Goar Mestre com D. Rafael del Junco. Já veremos.




