
NÓS invadimos seu apartamento, no coração do bairro Vedado, em Havana em uma manhã em que o calor quase derretia nas ruas. “Podem entrar, são bem-vindos”, diz Jorge Enrique Botero, um dos jornalistas colombianos que melhor conhece o conflito armado em seu país e que aceita ter uma conversa com o jornal Granma.
"Eu estava trabalhado em meu livro", diz ele e indica com o dedo um pequeno computador portátil. É intitulado Diario del fin de una guerra e trata acerca das conversações que se desenvolvem em Havana entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Exército do Povo (FARC-EP) e o governo de Juan Manuel Santos Forças.
Botero quebra o gelo esclarecendo que sua única ‘condição’ é que seja um diálogo porque ele bem sabe quão perturbador pode ser entrevistar um jornalista. Antes de iniciar a conversa troca de camisa, para “ficar bonito para as fotos”. Acomodando-se no sofá diz: “Eu sou essencial e basicamente um repórter”.
Fala com detalhes das vicissitudes do jornalismo em sua terra. “O repórter na Colômbia é exposto a uma quantidade enorme de perigos. Ocupamos a muito desonrosa primeira colocação, como país mais perigoso para a prática desta profissão. Também assistimos a um êxodo em massa para Bogotá dos jornalistas que cobriam as zonas de guerra e outros que foram ameaçados”, diz ele.
No entanto, quando lembramos a ele que um dos seus compatriotas disse que o jornalismo era “o melhor emprego do mundo”, ele diz: “E eu posso reafirmar isso, pois tenho 40 anos nele: Uma vida inteira”.
Este é o pé, a entrada, com a qual Botero começa a história. “Como repórter eu cometi erros, mas não me arrependo do que fiz”.
“Fui alvo de muitas críticas por ter entrado, digamos, do outro lado da guerra; por ter contado o que acontecia na floresta. Fui acusado, entre outras coisas, de invadir a privacidade de indivíduos em cativeiro, de louvar a guerrilha”.
O cheiro de café colombiano faz uma pausa no diálogo. O aroma se espalha por todo o quarto, decorado com pinturas e artesanato típico colombiano, que se mistura com livros e notas espalhadas nos recantos. Entre os títulos destaque para La vida no es fácil, papi, que conta a história de Tanja Nijmeijer, a guerrilheira holandesa das FARC.
“Eu não bebo café”, diz gracejando. "É o maior. Um jornalista que não bebe café. Eu também sou o único Botero magro”, afirma, referindo-se ao famoso pintor colombiano Fernando Botero, cujo trabalho se distingue pela voluptuosidade que espelha em suas obras.
Retoma a conversa que a partir de agora flui melhor graças a essa bebida requintada, que não faz diminuir o calor, mas que vem a calhar. “O que eu fiz foi, acima de tudo, documentar uma realidade que era pouco conhecida e que ninguém tinha mostrado”.
NO MAR VERDE DO ESQUECIMENTO
Botero é dos jornalistas que mais vezes esteve no próprio coração da floresta colombiana, o epicentro do conflito que assola essa nação há mais de cinco décadas.
“Para chegar aos acampamentos da guerrilha é preciso fazer viagens em condições físicas muito extremas”, diz ele, insistindo na palavra ‘esforço’. "Você pode passar dias a pé ou de mula, em terrenos difíceis".
“Antes, você deve ter permissão da fonte, neste caso das FARC", explica. E se prontifica para descrever o começo do que poderia ter sido um tormento para qualquer outro colega que pretendesse mostrar, pela primeira vez na televisão colombiana, imagens reais da guerra.
“Eu tive a permissão porque queria fazer uma reportagem para a cadeia onde trabalhava (Caracol). Minha intenção era informar acerca da vida dos militares e policiais que os guerrilheiros tinham em cativeiro. Eram 500 no total. O trabalho foi intitulado En el mar verde del olvido (No mar verde do esquecimento). Foi censurado e o denunciei. Como resultado, eu fui demitido”.
“Passou uma década antes que pudesse trabalhar em qualquer outro órgão da mídia colombiana. Aí começou a parte do jornalismo ‘independente’. Recebi um dinheiro por ter sido demitido e com ele comprei meu próprio equipamento e formei minha pequena empresa chamada Mula TV, televisão do mundo latino. Com ela sobrevivi vários anos”.
Apesar de ter sido censurado, Botero continuou trabalhando “porque nós tínhamos que documentar o que estava acontecendo”. Diz com orgulho que uma das reportagens que fizeram durante esse projeto recebeu o prêmio da Fundação do Novo Jornalismo Iberoamericano. O prêmio foi dado por Gabriel Garcia Marquez no México, por uma reportagem intitulada ‘Como vou te esquecer”’, com a qual voltava ao tema do conflito. Desta vez, contava a história de um coronel da polícia no cativeiro e da sua família. Ele acompanhou essa família por um longo tempo e conseguiu reuni-los através do vídeo, em um momento que ele descreveu de “forte e empolgante para todos”.
Ele sobreviveu graças ao arquivo que juntou e que se converteu em uma fonte para seu sustento. Isso foi até que entrou na Telesur.
TELESUR: SEMPRE O FILHO PRÓDIGO VOLTA PARA CASA
Quando ele começa a falar sobre sua experiência na cadeia multiestatal latino-americana Telesur a refere como “a mais bela experiência jornalística” que teve em sua vida. “Bom, não é assim. A verdade é que a Prensa Latina concorre pelo primeiro lugar”, diz fazendo uma pausa na conversa, para contar acerca dos anos (1986-1991) que trabalhou na agência de notícias, com sede em Havana.
“À Telesur cheguei de forma inesperada", conta, retomando o diálogo inicial. "Eu vim a um congresso de jornalistas latino-americanos aqui em Cuba. No terceiro dia, Fidel apareceu e estivemos até meia-noite praticamente ‘hipnotizados’. "Ele (Fidel) disse algo assim como: 'Rapaz, eu não entendo por que não há uma CNN latino-americana'. E nos deixou a todos pensando nisso. Foi então quando um grupo de jornalistas, encabeçado por Aram Aharonian, um uruguaio de origem armênia que morava na Venezuela e que esteve muito próximo de Hugo Chavez, disse: 'Olhe o que diz seu pai Fidel!' E ali mesmo Chávez disse: ‘Bem, diga-me do que você precisa e vamos conversar’. E assim nasceu a Telesur".
Botero estava na Colômbia quando foi chamado para o projeto. Com cinco pessoas projetou o canal, trabalhando dia e noite. Depois, entrou na fase de produção e para isso viajou por todo o continente, procurando jornalistas ou correspondentes em seus países.
Chávez chegou um dia e nos disse que queria que a primeira edição saísse no dia do aniversário de nascimento de Simón Bolívar, em 24 de julho. “Imagine! Era preciso agir rápido”, diz exaltado.
Esteve durante dois anos nessa experiência que ele qualifica de "formidável" e depois voltou para a Colômbia, para fazer do que mais gosta: reportagens e documentários.
Mais tarde, foi chamado novamente para que fosse chefe de informação do canal. “Fala-se que o assassino sempre volta à cena do crime, ou melhor, que o filho pródigo sempre retorna ao lar", graceja. “Nesta nova etapa eu me senti muito à vontade. Eu tive que cobrir a campanha eleitoral de Chavez”. Interrompe novamente o diálogo e fica sério, pela primeira vez em quase duas horas de entrevista, para falar acerca do líder venezuelano: "Ao vê-lo fazendo esse esforço sobre-humano para manter viva a chama e ver as pessoas expressar seus sentimentos por ele foi algo muito excitante, mas ao mesmo tempo doloroso. A gente percebia que a doença (o câncer) não ia embora e ele continuava firme”.
"Como é que você lembra Chávez?
“Ele tinha um calor que você não pode imaginar. Um abraço dele era receber uma força chocante. É um privilégio que agradeço a vida toda”.
CHAVES DO CONFLITO
A experiência profissional de Botero é dada, acima de tudo, por seu conhecimento do conflito colombiano. Quando eles anunciaram que teria lugar um novo processo, diz que viajou a Havana porque viu que “a paz estava muito perto”.
“Primeiramente, eu enviei informações a um site chamado 2 Orillas e agora para um noticiário de televisão chamado Red+News", garante.
Antes de responder por que esta guerra tem se expandido tanto no tempo, assume uma posição de professor que está prestes a explicar algo que tem sido parte de sua vida. “O conflito colombiano poderia ter terminado muito mais cedo, mas nós temos uma classe dominante excludente, que apela com grande facilidade à violência”.
Demora um minuto para classificar as ideias e cuidar que não escape nenhum detalhe. “Toda vez que se tentou encontrar uma solução para o conflito surgiram forças muito escuras que impediam que as coisas se dessem. Por exemplo, entre os anos1982 e 1986 as FARC tentaram fundar um partido político a partir de um diálogo com o governo” (processo de paz iniciado sob o governo do presidente Belisario Betancur).
“Esse partido chamado União Patriótica foi exterminado, varrido da face da terra. Como pode ser desmontado um partido completo?”, pergunta, enquanto observa que isso aconteceu devido à onda de violência e agressividade sem limites palpáveis em seu país.
Botero compara a guerra e seus efeitos com uma grande bola de neve que vai crescendo na medida em que vai encosta abaixo. “Com o tempo, as FARC, eventualmente, tornaram-se praticamente um exército, com um enorme poder militar e uma grande capacidade de bater o adversário. Obviamente, para freá-la, o exército colombiano começou a adquirir as melhores técnicas militares”. É quando você percebe que há um confronto militar que não tem nenhuma maneira de desacelerar, diz. A tudo isto foi adicionada a questão do tráfico de drogas, em sua opinião, usado pelos Estados Unidos para justificar sua presença militar na Colômbia. No entanto, ele é otimista e fala de guerra no passado: "este é o único confronto em que ninguém perdeu e o grande vencedor é a Colômbia".
A PAZ DESEJADA
Aos 60 anos este colombiano ainda vive sonhando, praticamente todos os dias, em ver sua terra respirando paz. A paz é assinada em Havana, diz com uma certeza que remove qualquer dúvida acerca do seu argumento.
“Eu tenho dois netos, Martina de dois anos, que já não verá a guerra e Enmanuel, 12 anos, que lhe coube sentir algo dela. Passaremos duas gerações fechando as feridas e construindo um novo espírito de convivência”, indica, insistindo em que vai ser processo difícil.
“Na Colômbia predomina uma cultura de violência e isso não pode ser removido da noite para a manhã, só assinando um papel. Mediante um decreto uma sociedade não pode ser organizada”, comenta Botero. No entanto, afirma que a assinatura da paz “trará grandes benefícios a uma sociedade tão machucada pela guerra; especialmente para os agricultores, o setor mais marginalizado. Também haverá mais forças políticas, uma solução para o problema do tráfico de drogas, um novo cenário da mídia, entre outras questões”, afirma.
Contudo, seu otimismo agora se torna uma preocupação. Botero admite ter “muito medo de que estas forças escuras contrárias ao processo se esfreguem as mãos e apliquem retaliações, sabendo que haverá guerrilheiros circulando nas ruas”.
No entanto, retorna ao seu estado natural de fé na paz e anuncia, um pouco mais sério, “quando a paz for assinada, a Colômbia deveria fazer um monumento a Cuba, em eterna gratidão ao papel que ela cumpriu como anfitriã e fiadora do processo paz”.
“Eu testemunhei a dedicação do governo cubano a este processo. A logística para que tudo funcione bem, o esforço dos países acompanhantes para resolver os problemas que existiram na mesa de negociações, incluindo o carinho e a generosidade que recebem as delegações de paz”.
“Não poderia haver melhor lugar do mundo para estes diálogos do que Havana. Este é o ano da paz na Colômbia”, afirma taxativamente e assim acaba um diálogo de quase duas horas que nem o calor sufocante conseguiu travar. •





