
PUNTA del Este, Uruguai, janeiro de 1962. As ameaças do embaixador dos Estados Unidos perante a Organização dos Estados Americanos (OEA), cumprem-se. O diplomata norte-americano disse dias antes que desde esse mecanismo interamericano «se tomaram medidas contra o Governo Revolucionário Cubano». Reúne-se o Conselho Interamericano Econômico e Social da OEA. Ali, o representante cubano, Comandante Ernesto Che Guevara denúncia a hostil política do presidente John Kennedy contra a nascente Revolução na Ilha caribenha, detalha a realidade histórica do continente e o caráter agressivo dos planos de Washington para a região, simbolizados na fracassada Aliança para o Progresso.
As pressões contra a Revolução encontram na Organização o cenário idôneo. O próprio Fidel lhe lembra ao vizinho do norte que o processo de 1959 nasceu sem a licença de Washington, e que «sim os ianques tentam destruir a Revolução Cubana pela força, não encontrarão aqui sua Guatemala, mas sim encontrarão seu Waterloo!».
Dois anos antes, realizou-se a 6ª Reunião de Consulta dos Chanceleres da América. Fundamentalmente o apoio popular reafirma que Com OEA ou sem OEA venceremos a batalha! O chanceler cubano Raúl Roa manifesta na reunião plenária.
«Digamos-lo já sem rodeios. O governo revolucionário de Cuba não viajou a San José da Costa Rica como réu, mas sim como procurador. Está aqui para dizer fortemente, sem vergonha nem medo, sua acusação implacável contra a mais rica e poderosa e agressiva potência capitalista do mundo».
Cuba se retira da reunião: «Vou embora com meu povo, e com meu povo vão embora daqui os povos de nossa América», expressa Roa.
Em Havana, clamor do povo reunido na Praça da Revolução, Fidel rompe a Declaração de San José por atentar contra a soberania e independência não só da Ilha, mas também de todos os povos da América.
No Uruguai, em 31 de janeiro de 1962, Cuba foi expulsa desse «ministério de colônias ianque» como o próprio Roa a qualifica. Embora seja revertida a decisão, em 2009, durante a Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago, a história do mecanismo interamericano faz com que Cuba se mantenha firme nos seus princípios e não aceita voltar.
AS ORIGENS

A OEA surge como parte da Conferência Internacional Americana de Bogotá, em 1848. A Colômbia desses dias estava tremendo pelo Bogotazo, provocado pelo assassinato do líder liberal Jorge Eliécer Gaitán.
O rosto da OEA é de mecanismo aglutinador das nações da América.
Sua verdadeira ação é de marionete ao serviço de Washington. «América para os americanos» é a única doutrina à qual responde.
Prova disso é a complacência mostrada ao avaliar, em 1954, a intervenção na Guatemala de Jacobo Arbenz. O silêncio perante a invasão à Baia dos Porcos, em abril de 1961, e perante as ações terroristas em Cuba evidencia seus tantos planos. Sem falar das pressões no setor diplomático que fazem com que, excetuando contadas exceções, a região corte as relações com Havana. O desembarque de marines estadunidenses no Santo Domingo, em 1965, com a licença da OEA, é o primeiro exemplo de uma intervenção coletiva em um país da zona, a mesma que tem como princípio «a não intervenção de nenhum Estado nos assuntos internos de outros».
Em 1982, um país da região começa uma guerra com uma potência estrangeira. Trata-se da Guerra das Malvinas, na qual se enfrentam Argentina e o Reino Unido. Resposta da OEA: uma simples resolução com uma fraca condena de um mês depois de iniciados os ataques.
1983. Granada. O primeiro-ministro Maurice Bishop é derrocado e assassinado durante um golpe militar. Infantes da Marinha dos Estados Unidos atacam a pequena ilha caribenha como «medida preventiva». Também não há uma reposta unânime de condenação desde a OEA. Alguns países aprovam a ação militar. É rejeitada finalmente porque viola a Carta de Bogotá.
A OEA cala durante a Operação Condor, os Golpes de Estados, os milhares de de-saparecidos. Cala durantes os conflitos civis que ensanguentaram a América Central.
Desprestigia-se.
ZERO EM ISOLAMENTO
Mar del Plata, ano 2004. 4ª Cúpula das Américas. Uma desacreditada OEA se enfrenta a uma região um pouco mais consciente da necessidade de integrar-se sob princípios puramente latino-americanos. A proposta da ALCA, como sua antecessora Aliança para o Progresso, é enterrada. Outros mecanismos sub-regionais são mais eficientes à hora de solucionar os problemas. Consequência: a OEA fica relegada para segundo plano.
Cuba é aclamada por sua resistência em outros espaços de integração regional.
Faz-se justiça. Jamais voltará a nenhum mecanismo que seja instrumento de dominação. Não está em seus princípios.




