ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
O economista Márcio Pochmann assinala que a crise se mantém e tudo indica que o ritmo da retração econômica foi apenas atenuado por fatores pontuais e. externos. Foto: CORREIO DO BRASIL

BRASÍLIA.— Muito anunciado como o fim da recessão, por parte do presidente Michel Temer, o modesto crescimento atingido no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, no primeiro trimestre do ano, foi comparado por um economista com o voo de uma galinha.

«O Brasil voltou a crescer. E com as reformas vai crescer ainda mais», advertiu Temer nas redes sociais, depois de ter sido conhecido um relatório do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) que dava parte do incremento, em 1%, do PIB do trimestre janeiro-março de 2017, em relação ao último de 2016.

No mesmo tom eufórico, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles — que apenas dias atrás lamentava a existência no país de um clima exagerado de pessimismo, relativamente à economia — qualificou o anúncio como «histórico», apesar de admitir que «ainda há um caminho por percorrer para atingir a plena recuperação econômica».

Em relação a este primeiro aumento do PIB, depois de dois anos de baixa continuada, especialistas do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) advertiram que, se comparado com igual período do passado ano, o índice baixou 0,4%; entretanto, a queda acumulada em 12 meses é de 2,3%.

Em uma nota divulgada aqui, a entidade explicou que o crescimento registrado no primeiro trimestre do ano guarda maior relação com fatores externos, como a exportação e a alta dos preços de alguns dos produtos colocados no mercado mundial (commodities), do que com ações internas da política econômica.

Pelo contrário, ressaltou, indicadores como a formação bruta do capital fixo, que medem o investimento em maquinarias e novas indústrias, mostraram no período de referência uma queda que testemunhava a fragilidade da economia brasileira.

A crise se mantém e tudo indica que o ritmo da retração econômica foi apenas atenuado, freado, por fatores pontuais e externos, concordou em apreciar o professor da Universidade Estatal de Campinas (Unicamp) e economista, Márcio Pochmann.

Desempregados no Brasil. Photo: Reuters

Sem medidas efetivas para a recuperação, como acontece no ambiente atual, esses números celebrados por Temer poderão ser apenas um ponto fora da curva de uma recessão prolongada, disse ao jornal digital Brasil de Fato o também ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

«Para a classe trabalhadora a recessão continua na medida em que o nível de emprego piora e a renda também não cresce», sustentou. E fez questão de insistir em que o efeito estatístico não é resultado de políticas do governo Temer, mas da expansão do comércio externo, que desde 2015 vem se produzindo pela desvalorização da moeda.

Ainda, o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) João Sicsú coincidiu em que o resultado trimestral foi impulsionado pela demanda externa, «um fator que — disse — nenhum governo é capaz de controlar».

Os setores que registraram altas, como o agropecuário, transporte e armazenamento, estão todos ligados à atividade externa. «Pelo contrário, o mercado interno, o consumo das famílias e os investimentos baixaram», apontou.

Sicsú assinalou que em verdade o que existe é uma longa trajetória de queda e precisou que desde o último trimestre de 2014 o consumo baixou em aproximadamente 10% e os investimentos em 24 pontos percentuais.

«Não existe nenhuma trajetória de recuperação consistente, nem também não de me-lhoria», opinou o especialista, para quem a economia brasileira ‘suspirou’ nos três primeiros meses do ano «apesar do governo e não por causa deste».

«Um trimestre não configura uma tendência», manifestou por seu lado, em declarações à mídia internacional, o professor de Macroeconomia, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), do Rio de Janeiro, Mauro Rochlin, para quem a partir desse lapso é difícil dizer se o quadro se alterou de forma estrutural.

Rochlin, contudo, considera que apesar de tudo, alguns indicadores parecem marcar uma tendência à recuperação, embora ainda esteja assente em bases muito pequenas.

Para o presidente nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT) do Brasil, Vagner Freitas, a reação exagerada de Temer respeito ao crescimento trimestral do PIB não passa de ser uma tentativa melancólica de impor um resultado positivo ao balanço de sua gestão, em momentos quando sua saída do Palácio do Planalto (mansão presidencial, n.r) parece próxima.

«Temer — disse — não conhece a realidade, as necessidades e muito menos o sofrimento dos brasileiros, que durante seu governo perderam seus empregos e viram piorar suas condições de vida».

«Um país com mais de 14,5 milhões de desempregados, 2,6 milhões em um ano de gestão Temer, não tem nada que comemorar. O Brasil está parado, as empresas estão fechando as portas. Não há como transformar as derrotas política, econômica e moral em vitória mediante uma folha de cálculo financeira», asseverou. (PL)