ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Photo: Cubaminrex

Moderador.— Bem-vindos todos a esta entrevista coletiva convocada pelo ministro das Relações Exteriores da República de Cuba, Ex.mo sr. Bruno Rodríguez Parrilla. A seguir, o ministro oferecerá uma declaração em espanhol e inglês; e em seguida, aceitará responder algumas perguntas.

Nós queremos informar que esta entrevista coletiva conta com serviço de interpretação em inglês. Dito isto, ministro, o senhor tem a palavra.

Bruno Rodríguez.— Obrigado.

Desejo expressar condolências ao povo e ao governo de Portugal, por causa do desastre que custou dezenas de vidas humanas; ainda, ao governo e ao povo do Reino Unido, pelos recentes acontecimentos em Londres.

Expresso nossas sinceras condolências ao povo e ao governo da Colômbia pelo ataque terrorista que causou a perda de vidas.

Em 16 de junho passado, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou em Miami a política que seu governo decidiu aplicar em relação a Cuba. O governo cubano emitiu, entretanto, uma declaração oficial. Também as organizações da sociedade civil cubana fizeram pronunciamentos.

O presidente dos Estados Unidos aprovou, entre outras, as seguintes medidas: a proibição de manter relações econômicas, comerciais e financeiras por parte das empresas estadunidenses com empresas cubanas que estejam ligadas ao Ministério das Forças Armadas Revolucionárias e ao Ministério do Interior; a proibição das viagens individuais dos cidadãos norte-americanos, na categoria de intercâmbios «povo a povo» e maior vigilância sobre os outros viajantes.

Também, rever todos os programas subversivos contra a ordem constitucional em Cuba, ostensivamente para garantir a sua eficácia.

Da mesma forma, a revogação da Diretiva Presidencial emitida pelo presidente Barack Obama, em outubro de 2016 que, ainda sendo profundamente intervencionista, com o fim de alterar a ordem constitucional da República de Cuba, no entanto reconhecia a independência, a soberania e a autodeterminação do nosso país; reconhecia o governo revolucionário cubano como um interlocutor legítimo e igual e também propunha uma relação civilizada, concebida para beneficiar ambos os povos.

Aquela Diretiva, agora revogada, também declarava que o bloqueio foi uma política fracassada, que não funcionou, que não tinha cumprido seus objetivos e devia ser eliminada.

Tudo isto foi anunciado em um teatro chamado Manuel Artime, quem foi o chefe civil da brigada mercenária que invadiu nosso país por Playa Giron ou Baía dos Porcos. Foi um espetáculo grotesco, copiado da Guerra Fria, ante um público pequeno, composto por velhos capangas e ladrões da ditadura de Batista, mercenários da brigada de Playa Giron, terroristas, políticos e «aproveitadores».

O presidente Trump cumprimentou pelo nome alguns deles, cercou-se de outros no momento da assinatura ou os teve ao seu lado. Entre eles, um terrorista preso em 1995, na Califórnia, com um arsenal de armas para a realização de atos violentos, que esteve envolvido em um atentado contra o presidente Fidel Castro Ruz, em 1997; outro deles fez parte de uma infiltração armada em Cuba, em 1974; um terceiro foi o autor de ataques terroristas e piratas no mar contra pescadores cubanos, entre 1972 e 1975.

A POLÍTICA DO PRESIDENTE TRUMP MARCA UM RETROCESSO NAS RELAÇÕES BILATERAIS. ISTO É RECONHECIDO POR MUITAS VOZES DENTRO E FORA DOS ESTADOS UNIDOS

Também esteve presente a esposa de um sargento torturador da ditadura de Batista, identificado como um dos que financiou a série de atentados contra alvos turísticos em Cuba, bombas que explodiram em 1997, precisamente pelo jornal The New York Times, pelo terrorista conhecido Posada Carriles, em uma entrevista. Posada Carriles foi o autor, como é sabido, da explosão no ar de um avião civil da Cubana de Aviação, em 1976, o primeiro ato terrorista contra um avião em voo.

Vários desses personagens trabalharam na época para a CIA norte-americana.

Protesto fortemente contra o governo dos EUA por este escárnio e o desafio a confirmar ou negar se esses terroristas que eu mencionei estiveram ao lado ou não do presidente Trump. É uma zombaria ao povo cubano, ao mundo e às vítimas do terrorismo internacional em todas as latitudes.

Quando o presidente dos Estados Unidos, no show, fez alusão ao pai do desafinado violinista que tocou o hino dos Estados Unidos, ele omitiu dizer que o capitão Bonifacio Haza, repetidamente mencionado pelo presidente dos Estados Unidos, assassinou diretamente os jovens Carlos Díaz e Orlando Carvajal, durante o fim da ditadura de Batista e esteve envolvido pessoalmente no assassinato do conhecido combatente revolucionário Frank País, também do companheiro deste, Raúl Pujol, e mais tarde, do irmão mais novo de Frank País, de apenas 19 anos. É uma ofensa que nosso povo nunca vai esquecer.

Completaram o público presente alguns agentes estrangeiros que, dentro de Cuba, são pagos por agências do governo dos EUA. São os novos mercenários.

Foi irritante ver esse público anexionista e plattista responder cada sentença contra Cuba, bradando: «EUA, EUA».

Sem dúvida, a política do presidente Trump marca um retrocesso nas relações bilaterais. Isto é reconhecido por muitas vozes dentro e fora dos Estados Unidos que, majoritariamente, estão expressando uma rejeição retumbante às mudanças anunciadas.

Prevejo que estas medidas irão afetar as relações do governo dos EUA com a América Latina e o Caribe e danificarão seriamente a credibilidade de sua política externa.

Estas medidas antipopulares, francamente antipopulares, ignoram o apoio da maioria ao levantamento do bloqueio e da normalização das relações com Cuba por parte de membros do Congresso dos EUA, muitos deles republicanos; do setor empresarial, das várias organizações da sociedade civil norte-americana, da emigração cubana, a imprensa, as redes sociais, e, em geral, a opinião pública.

O presidente Trump, novamente mal aconselhado, que havia perdido o voto cubano nos municípios com a maior concentração de cubanos residentes, durante a eleição presidencial na Flórida, que perdeu o voto cubano na Flórida, toma decisões que apenas beneficiam interesses mesquinhos de uma minoria envelhecida e extremista de origem cubana e de um punhado de políticos.

Qualquer análise medida permite antecipar que, tal como no passado, as medidas anunciadas não vão cumprir os objetivos que proclamam, mas o oposto: restringirão as liberdades dos cidadãos estadunidenses, vão custarem mais dinheiro aos contribuintes, reduzirão as oportunidades para suas empresas e empresários contra seus concorrentes, perderão rendas e empregos.

Será necessário esperar que o governo dos EUA divulgue as regulamentações que permitam implementar estas medidas, antes de opinar acerca de sua abrangência e profundidade.

Tais medidas também ignoram a opinião esmagadoramente majoritária do povo cubano, que quer ter melhor relacionamento com o povo norte-americano, vai causar danos humanos e privações, afetará as famílias cubanas. Elas não apenas provocarão prejuízos para as empresas estatais cubanas, mas também para as cooperativas e, sobretudo, prejudicarão particularmente os trabalhadores privados. Também vão danificar e farão aumentar a discriminação contra os imigrantes cubanos estabelecidos nos Estados Unidos.

Parece algo infantil a previsão de que com esta política poderão separar o povo do governo ou os cidadãos das nossas gloriosas Forças Armadas Revolucionárias e do Ministério do Interior, que são o povo envergando uniformes. Pelo contrário, essas medidas reforçam nosso patriotismo, nossa dignidade, nossa determinação de defender por todos os meios a independência nacional, no espírito de José Martí, Antonio Maceo e Fidel Castro Ruz.

Cuba rejeita fortemente as novas medidas para reforçar o bloqueio, as que denunciaremos na próxima Assembleia Geral das Nações Unidas, porque é injusto, desumano, genocida e extraterritorial e viola o Direito Internacional e a soberania de todos os Estados.

Rejeito firmemente a manipulação política e os padrões duplos no tratamento dos direitos humanos por parte do presidente Trump. O governo dos EUA não tem autoridade moral, não pode dar lições sobre direitos humanos e democracia. Cuba tem muito a mostrar e dizer sobre esse assunto.

As novas medidas não são nada democráticas. De acordo com recentes pesquisas nos EUA, 73% dos norte-americanos apoia o levantamento do bloqueio, 63% dos cubanos residentes e 62% dos republicanos — é curioso — 62% dos próprios republicanos. Promove a normalização das relações bilaterais 75%, quer dizer, três quartos dos americanos; 69% dos cubanos residentes ali e 62% de republicanos.

Entre os cubanos nos Estados Unidos, enquanto mais jovens forem, mais apoio expressam ao levantamento do bloqueio e à normalização.

No entanto, as novas medidas reforçam a proibição de viajar a Cuba como turistas aos norte-americanos e restringem suas liberdades civis, cerceando a liberdade de viajar dos norte-americanos.

No item dos direitos humanos nos Estados Unidos são inúmeros e sistemáticos os assassinatos, a brutalidade e o abuso pela polícia, principalmente contra os descendentes de africanos. São conhecidas as restrições sobre o direito à saúde, a desigualdade salarial nas mulheres, a falta de cobertura da educação, a quase ausência de sindicalização, a repressão contra os imigrantes e os refugiados, a marginalização das minorias e a discriminação crescente da cultura e da religião islâmicas.

São frequentes os crimes de guerra e o assassinato de civis nos ataques e nas intervenções militares norte-americanas. São brutais, a permanência nas prisões, sem a sentença dos tribunais e os atos em massa e sistemáticos de torturas, cometidos na Base Naval de Guantánamo.

Reitero a disposição de Cuba para continuar o diálogo respeitoso e a cooperação em questões de interesse mútuo e de negociar as questões bilaterais pendentes com os Estados Unidos, com base na igualdade e no respeito absoluto pela nossa independência e soberania.

Como ficou demonstrado nos progressos feitos nos últimos dois anos, Cuba e os Estados Unidos podem cooperar e conviver civilizadamente, respeitando as diferenças profundas entre os governos e promovendo tudo aquilo que beneficie ambos os países e povos.

Vamos continuar nossos esforços com as pessoas de boa vontade nos Estados Unidos, que são a grande maioria. Mas eu avisar: Cuba não fará concessões inerente à sua soberania e independência, nem irá negociar seus princípios ou aceitar condicionamentos, como não fez nunca, jamais, ao longo da história da Revolução. Conforme o estabelecido pela Constituição da República de Cuba, nunca vamos negociar sob pressão ou ameaça.

Agiremos invocando a Proclamação da América Latina e do Caribe como Zona de Paz, assinada pelos chefes de Estado e de Governo da região, em janeiro de 2014, em Havana, que reconhece o direito inalienável dos chefes de Estado para determinar seu sistema político, econômico, social e cultural; rejeita a intervenção e a interferência estrangeira nos assuntos internos e se opõe e condena a ameaça e o uso da força.

Não será uma Diretiva Presidencial dos EUA a que possa torcer o rumo soberano de Cuba, tal como não conseguiram fazer mais de 50 anos de agressões, terrorismo de Estado, bloqueio, guerra da mídia e subversão. Nós já passamos por tudo isso, nosso povo já passou por tudo e correu todos os riscos. Com que eles poderiam nos ameaçar hoje que já não tenham feito antes e fracassaram?

Em Cuba, a propósito, ninguém estava em suspense à espera do anúncio imperial. Nosso povo trabalha normalmente, a política externa está funcionando, mostramos respeito pela Europa nesta visita. Na verdade, o povo cubano, intimamente ligado ao seu Partido Comunista, debatia e emendava, nestes dias, os projetos da Conceituação do Modelo Econômico e Social Cubano de Desenvolvimento Socialista e o Plano de Desenvolvimento até o ano 2030 e foram convocadas, para daqui a pouco, as próximas eleições gerais do Poder Popular.

As mudanças que sejam necessárias em Cuba serão determinadas soberanamente pelo povo cubano: apenas o povo cubano, como sempre fez. Nós não vamos pedir qualquer opinião ou permissão a ninguém.

Muito obrigado.

Moderador.— Em seguida, o ministro aceitará responder algumas perguntas. Por favor, lembrem que é necessário se identificarem, que utilizem os microfones que foram dispostos em ambos os lados da sala. Abrimos a sessão.

George Jahn (AP).— Eu tenho uma pergunta relacionada com a proibição dos cidadãos norte-americanos de se envolverem em relações com o Exército. Será que Cuba está disposta a impor novos impostos às pessoas que estejam dispostas a fazer negócios em Cuba, e se vai aceitar retornar Assata Shakur, como reclamam os Estados Unidos?

Bruno Rodríguez.— As medidas anunciadas, como eu já disse, basicamente vão prejudicar os cidadãos norte-americanos e as empresas norte-americanas. O governo cubano irá considerar as medidas a tomar no momento apropriado. Teremos que esperar que o governo dos Estados Unidos emita as regulamentações correspondentes para analisar o alcance de tais medidas.

Ao contrário dos objetivos que são invocados, as medidas não constituem apenas um recuo nas relações bilaterais, mas também prejudicarão aqueles setores com os que os empresários americanos preferem lidar em nosso país.

Quanto à questão dos chamados «foragidos norte-americanos em Cuba», eu posso reafirmar que, no uso da Lei Nacional o do Direito e Internacional e da tradição latino-americana, Cuba concedeu asilo político ou refúgio a lutadores pelos direitos civis nos Estados Unidos. É claro que essas pessoas não serão devolvidas aos Estados Unidos, que não têm base jurídica, política e moral para reclamá-las.

Em segundo lugar, aqueles cidadãos norte-americanos em Cuba que cometeram crimes, como o sequestro de aviões, foram sancionados pelos tribunais cubanos e cumpriram longas sentenças de prisão em Cuba. Por decisão unilateral e em um ato de boa vontade, o governo cubano, nos últimos anos, devolveu para os Estados Unidos 12 cidadãos norte-americanos foragidos da justiça norte-americana.

Vincent Montagud (Telesur).— Eu queria dizer, chanceler, que tem sido um longo tempo, são dois momentos históricos diferentes. Então, por que o senhor acha que o presidente Trump agora retorna a esta retórica claramente da Guerra Fria? Em segundo lugar, se me permite, embora possa parecer um paradoxo, o próprio presidente Trump disse que poderia considerar melhorias nas relações caso se registrarem progressos concretos — disse assim, textualmente — em certas questões domésticas. A pergunta é: Será que o governo de Cuba estaria disposto a negociar um novo tratado com a administração Trump?

Muito obrigado.

Bruno Rodríguez.— Será necessário perguntar ao presidente Trump quais são seus motivos reais para ter realizado estes atos recentes. Eu não sei se ele poderia dizer isso em público. Eu não sei se o presidente dos EUA tem sido mal aconselhado e se alguém lhe ‘vendeu’ a ideia de que ele venceu a votação na Flórida com o voto dos cubanos ou em virtude do voto cubano. Se acaso lhe disseram isso, eles o enganaram. Eis os dados relacionados com o resultado das eleições nos cinco distritos eleitores de maior densidade de cubanos na Flórida e em todos eles o presidente Trump perdeu o voto majoritário, ou seja, perdeu as eleições nos distritos de origem cubana. Há dados oferecidos pelas sondagens e os próprios dados dos resultados das eleições. Pode-se afirmar categoricamente que o presidente Trump não ganhou o voto cubano, e não venceu na Flórida em virtude do voto cubano, mas sim a outros setores eleitorais.

CUBA REJEITA FORTEMENTE AS NOVAS MEDIDAS PARA REFORÇAR O BLOQUEIO, AS QUE DENUNCIAREMOS NA PRÓXIMA ASSEMBLEIA GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS

Tal como eu disse, Cuba está disposta ao diálogo, à cooperação e à negociação de questões pendentes de natureza bilateral, da mesma forma que se recusa a negociar qualquer assunto inerente à soberania, independência, autodeterminação do povo cubano.

Será da mesma forma que o governo cubano não vai reivindicar o governo dos Estados Unidos como condição para negociar, que venha a alterar elementos impopulares, dos quais nós não gostamos, de sua política doméstica, ou que pare as guerras internacionais nas quais estão envolvidos, ou que tenha um melhor padrão de garantias para o exercício dos direitos humanos em seu próprio país ou que deixe de violar os direitos humanos em diferentes latitudes.

Esperamos que o governo dos EUA não cometa o erro de pretender que Cuba tenha que fazer mudanças internas para favorecer acordos ou negociações.

O presidente Trump disse consistentemente, ao longo da campanha eleitoral, que apoiava a mudança na política em relação a Cuba; mas que iria procurar «um arranjo melhor», um melhor acordo com o nosso país. Um melhor acordo seria levantar o bloqueio, devolver o território da Base Naval de Guantánamo, aceitar o conceito de compensações mútuas que beneficiaria enormemente os proprietários norte-americanos, contemplados nas nacionalizações dos anos 60.

Por outro lado, é errado dizer que o presidente Barack Obama fez concessões a Cuba. Ele, basicamente, manteve o bloqueio contra Cuba e tentou promover os interesses americanos, mesmo subvertendo a ordem constitucional em nosso país. O presidente Trump devia reconhecer ou devia saber que uma mudança favorável, que a continuidade do processo de normalização, que o levantamento do bloqueio favorece os interesses nacionais dos Estados Unidos, os interesses dos eleitores norte-americanos, os interesses daqueles que pagam impostos nos Estados Unidos, que sustentam o governo, e que, portanto, não faria nenhum favor a Cuba, mas favoreceria os próprios interesses norte-americanos e o Direito Internacional.

Então, sim, há de fato uma vontade de negociar com o governo dos Estados Unidos para tentar resolver as questões bilaterais que afetam ambos os países, mas em base absoluta da igualdade soberana e o pleno respeito à nossa soberania e independência.

Luisa Maria González García (Prensa Latina).— Boa tarde, Ministro, se me permitem, eu tenho duas perguntas.

A primeira, como o senhor apontou em seu discurso, muitas pesquisas mostram uma vontade crescente na sociedade norte-americana para o avanço na aproximação a Cuba. O senhor acha que tendo em conta este contexto particular as medidas anunciadas pelo Trump são sustentáveis no futuro?

A segunda é relativamente à posição de Cuba. Cuba reiterou, e o senhor o acaba de reafirmar, o desejo de diálogo sempre com base no respeito mútuo e a igualdade de condições. Por que manter esta posição quando não tem um parceiro disposto a falar nestes mesmos termos?

Muito obrigada.

Bruno Rodríguez.— As medidas que anunciou o presidente Trump há pouco e cujo âmbito será preciso ver nas regulamentações, são absolutamente insustentáveis. Em primeiro lugar, porque há uma tendência histórica que estabelece o tempo em que estamos vivendo. O bloqueio faz parte da época da Guerra Fria; é criminoso, é genocida, de acordo com a Convenção de Genebra contra o genocídio. Em segundo lugar, é absolutamente injusto e arbitrário. É uma violação forte, sistemática e flagrante dos direitos humanos de todos os cubanos, afeta as famílias cubanas, provoca danos humanos e privações.

Por outro lado, o bloqueio prejudica os interesses dos cidadãos norte-americanos, de suas empresas, de seus empregadores e, também, constitui uma violação das liberdades civis e dos direitos políticos dos cidadãos norte-americanos, que são proibidos de viajar a Cuba e, tão só, a Cuba.

Portanto, há uma tendência histórica: Será que vai ser durante o governo do presidente Trump ou será durante o próximo governo? Mas não há dúvida de que a história, o tempo, vai forçar algum governo dos EUA a levantar o bloqueio e normalizar as relações com Cuba. E nós temos toda a paciência, a resistência e a determinação para esperar até chegar esse tempo e, acima de tudo, para trabalhar ativamente para que isso aconteça, com a companhia da grande maioria do povo norte-americano, da emigração cubana e da comunidade internacional; por decisão soberana e um sentimento amplamente majoritário, por consenso do nosso povo.

As medidas que anunciou o presidente Trump há pouco e cujo âmbito será preciso ver nas regulamentações, são absolutamente insustentáveis

Não se sabe se este governo será um interlocutor válido ou não, essa será uma decisão que terá de tomar o governo dos Estados Unidos. Isso deve agir em seu benefício ou em seu detrimento, segundo venha a determinar, mas Cuba está disposta ao diálogo, à cooperação e à negociação com base na igualdade absoluta e o respeito.

Brinley Bruton (NBC).— Obrigado, sr. ministro, o senhor faria o favor de responder em inglês, se não se importar, por favor? Eu vou fazer a pergunta em inglês também. Obrigado.

Na semana passada, a NBC informou, de maneira exclusiva, acerca da extensa cooperação entre Cuba e os Estados Unidos, a que permitiu que o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos pudesse lutar contra pessoas que estavam usando cartões de crédito para fins ilegais. Isso poderia mudar, como resultado das decisões tomadas pelo presidente Trump?

Bruno Rodríguez.— Eu não ouvi dizer que as decisões do governo dos Estados Unidos incluem o abandono do cumprimento de dezenas de acordos assinados, nos últimos anos, entre os dois governos. Também não sei que haja qualquer medida destinada a impedir a cooperação bilateral, particularmente na área de segurança nacional e da aplicação da lei. Isso faria muito mal, iria prejudicar gravemente os interesses dos Estados Unidos e dos seus próprios cidadãos, se o governo dos EUA impedisse ou desse as costas à cooperação com Cuba, que é um país vizinho e que contribui para a estabilidade regional, para a solução dos problemas regionais e hemisféricos, que tem sido uma vítima e luta ativamente contra o terrorismo internacional; contra o tráfico de drogas; contra o tráfico de pessoas; contra os crimes cometidos no ciberespaço; contra o uso de meios digitais a partir de um país para atacar, de forma disfarçada, um terceiro; contra crimes como a fraude, lavagem de ativos financeiros, nos quais, necessariamente, existe uma coincidência de interesses dos países do continente.

Então, posso reafirmar que Cuba vai cumprir, vai honrar os acordos que foram assinados e reitera a sua vontade de negociar e assinar acordos de cooperação em outras áreas. Porque a nossa lógica é respeitar de forma civilizada as grandes diferenças que existem entre nossos governos, mas avançar em tudo aquilo que possa beneficiar ambos os povos no interesse nacional e do povo cubano.

Moderador.— Ministro, recebemos uma pergunta de Havana, é do jornal Juventud Rebelde, enviada por e-mail. Com a sua permissão vou lê-la. Diz:

«Ministro, o presidente dos Estados Unidos está sendo apresentado como um defensor do povo cubano e afirma que as medidas adotadas recentemente, como parte de sua política contra Cuba, não afetarão a população cubana, mas apenas as empresas estatais ligadas as Forças Armadas revolucionárias e ao Ministério do Interior. Contudo — e o jornal Juventud Rebelde pergunta — será que o recrudescimento do bloqueio não afeta a vida econômica e social do país em geral; e, por exemplo, a limitação ainda maior das viagens a Cuba a partir dos Estados Unidos não vai afetar todas as modalidades de gestão econômica em Cuba, incluindo o setor de trabalhadores privados ou independentes?»

Bruno Rodríguez.— Bem, isso tem um grande senso de humor. É claro que as medidas que estão sendo implementadas pelo governo dos EUA vão prejudicar o povo cubano, r vão afetar, especialmente, aqueles setores acerca dos quais o governo dos EUA declara que está mais interessado em relacionamentos.

Em Cuba, será impossível danificar o setor estatal da economia sem prejudicar seriamente o setor cooperativo, privado, independente, ou as pequenas empresas privadas, particularmente naquelas áreas que tocam algumas dessas medidas, como a proibição das viagens individuais, sob a licença «povo a povo», para os norte-americanos.

Seria preciso pensar que o governo dos EUA iria lidar mais com os interesses dos seus cidadãos do que os dos cubanos, como sempre aconteceu no passado; mas essas medidas, sem dúvida, prejudicam os interesses dos americanos.

É um curioso paradoxo, porque o presidente dos EUA disse que sua prioridade são os cidadãos norte-americanos, a criação de empregos; é favorecer, contra a concorrência, as oportunidades para as empresas e empresários estadunidenses.

Com estas medidas, ele está fazendo exatamente o oposto. Quais são as suas motivações, talvez pensando nos votos de um setor cubano nos Estados Unidos, em uma minoria envelhecida e ilegítima? Talvez quer conseguir alguns votos que são indispensáveis para ele ​​no Senado? Seria uma boa pergunta para fazer ao presidente dos Estados Unidos.

Mas não há dúvida de que estas medidas vão na contramão da própria plataforma que o presidente dos Estados Unidos propôs aos seus eleitores e, supostamente, das razões pelas quais ele ganhou o voto do colégio de representantes, porque deve recordar-se que o presidente Trump não ganhou o voto eleitoral, ganhou a presidência com menos votos do que o seu adversário. Esta é a democracia nos Estados Unidos da América.

Boris Kuznetsov (Russia Today).— Boa tarde, Sr. chanceler.

A questão é: recuando na normalização das relações com Cuba, Donald Trump está realmente ressuscitando a velha retórica política da Guerra Fria. A este respeito, outros países deviam reagir de alguma forma para contestar esta política agressiva de Donald Trump.

Porque, por exemplo, na Rússia, declararam que tudo isso leva a uma nova Guerra Fria, essa política contraproducente contra Cuba.

Bruno Rodríguez.— O presidente Trump vem sendo apresentado como um renovador, venceu as eleições no Estados Unidos, oferecendo uma mudança aos americanos. O que ele fez com Cuba não é inovar, não é nada criativo; o que ele fez foi voltar à política dos dez governos anteriores dos Estados Unidos, que é, ainda, não apenas uma política que falhou com o tempo, em aproximar os EUA dos objetivos propostos. Um conhecido senador republicano disse: Bem, 50 anos de uma política que não funcionou é razão suficiente para alterá-la. E isso foi o que fez o presidente Obama.

É famoso o ditado que afirma que ‘tentar, tentar e tentar novamente e novamente e fazer o mesmo, na esperança de conseguir um resultado diferente não faz qualquer sentido’, segundo disse Einstein.

De maneira que não temos dúvidas de que essas políticas só fazem vir à tona blocos de gelo da Guerra Fria. Devemos nos perguntar se apenas na política em relação a Cuba. Vejo circunstâncias alarmantes na situação internacional, crescentes ameaças à paz e à segurança internacionais, o aumento da instabilidade, a proliferação dos conflitos, arsenais nucleares aumentando e as despesas em armas. Também vejo uma profunda ignorância da maneira em que será preciso lidar com as causas destes problemas, incluindo o do terrorismo internacional, cuja única solução só pode ser vista através da cooperação internacional, em vez da guerra. Da mesma forma que as políticas relativas à restrição egoísta e brutal do comércio ou a renúncia do Acordo de Paris sobre a mudança climática, que é uma ameaça existencial para a espécie humana, estão indicando que, de fato, o planeta está se aproximando de uma situação problemática.

Sua Santidade, o papa Francisco, disse com razão que o mundo já está em uma Terceira Guerra Mundial por etapas. Há razões, não há dúvida, para se preocupar e, acima de tudo, para agir, para aumentar a cooperação internacional, para mobilizar a consciência global quanto à sobrevivência da espécie humana e para alterar esta ordem internacional que é inconsistente com ela própria, que é totalmente irracional, insustentável e que ameaça seriamente a paz mundial.

Muito obrigado.

Moderador.— Obrigado por ter participado da entrevista coletiva.