ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Uma das últimas fotos tomadas ao presidente constitucional do Chile, Salvador Allende (no centro), no Palácio da Moeda, resistindo o sanguinário e fascista golpe de Estado de 11 de setembro de 1973, financiado pela Agência Central de Inteligência dos EUA e o governo norte-americano, exemplo fidedigno de terrorismo de Estado. Foto: www.20minutos.es

José Martí escrevia no jornal argentino La Nación, em 1º de janeiro de 1888, sobre o enforcamento dos anarquistas acusados de atentar com bombas contra a polícia, durante as manifestações dos operários de Chicago: «Nem o medo das justiças sociais, nem a simpatia cega pelos que as tentam, deve guiar os povos em suas crises (…) Só serve dignamente à liberdade quem, sob o risco de ser tomado por inimigo, a preserva sem temer dos que a comprometem com seus erros».

Os quatro anarco-sindicalistas foram executados sem que se soubesse a identidade do verdadeiro perpetrador. Sobre eles pesava, contudo, seu protagonismo na luta contra o poder imperante.

Isto aconteceu em novembro de 1887 e os textos de Martí denunciam, com igual veemência, tanto o crime pela mentira como as estratégias extremas dos caluniados. Em seu desvelo por construir uma nova nação a partir do equilíbrio e a justeza, advogava pelo governo da cordura e o desterro dessa violência desmedida que pode provocar feridas e chagas difíceis de curar, como aquele incipiente atentado em Chicago. Apesar da distância de 131 anos e a diferença de circunstâncias, a sabedoria de nosso Herói Nacional permite pensar em diante e parar para refletir entre a voragem para correger o caminho.

Há algumas horas, na missa que oficiava na cidade colombiana de Medellín, o papa Francisco destacava o peso da iniquidade nos surtos de violência. Com suas palavras, afirmava que se são atendidos os urgentes problemas da pobreza e da fome, se parado o abuso de poder e a repressão, bem como conseguir uma divisão justa dos recursos, irá alcançar-se um equilíbrio social que eliminará a «necessidade» da violência, que nasce do desespero e da impotência.

O Santo Padre também pôs acima da mesa realidades que poderiam ser aplicadas à análise dos alicerces do terrorismo, um fenômeno que poderia ser qualificado como um dos maiores flagelos que impacta a sociedade contemporânea.

Neste 11 de setembro, que como diria Silvio Rodríguez, «uiva ainda seu duplo saldo arrepiante» pode ser o momento adequado para parar e refletir sobre o futuro da civilização se não se consegue parar o terrorismo.

Não só porque «tudo acontece um mesmo dia resultado de um ódio semelhante», o dia 11 de setembro mostra as variadas formas em que se pode manifestar o terrorismo. A saber, canaliza o rancor ou é uma alternativa do fraco? É espada ou escudo? Existe um terrorismo bom e um terrorismo mau? Não será um assunto de mera perspectiva dos que se encontram dentro ou fora de seu vórtice?

Alguns tentam associar o Islã com o terrorismo e a morte e essa é precisamente a ideia contracultural que precisam os imperialistas, obviando sua mensagem de paz e coexistência similar ao de outras religiões.

Só um detalhe ao voo. Graças aos muçulmanos «atrasados» e «demoníacos» chegaram ao Ocidente muitos conhecimentos da Antiguidade que se tinham consumido sob os entulhos da biblioteca de Alexandria ou as imparáveis piras da Inquisição.

Dizia o prócer mexicano Benito Juárez que o direito alheio é a paz e trabalhar em prol de ajudar àquele que não pode lutar por seus direitos não envolve que armemos extremistas perseguindo segundas intenções. Se é respeitado o direito das nações de decidir seus destinos e não se constroem guerras nas quais perdem a vida milhões de inocentes, possivelmente as vítimas não se encham de tanto ódio ou utilizem qualquer método para minimizar suas desvantagens.

Esses que agora se explodem em locais públicos, atropelam, esfaqueiam e são perseguidos como terroristas, um dia foram «combatentes pela liberdade» aos quais os Estados Unidos capacitaram no uso de artefatos explosivos e guerra irregular.

Se não for assim, vejam o filme baseado em fatos reais A guerra de Charlie Wilson (2007), na qual um congressista norte-americano, uma magnata anticomunista e um agente da CIA decidem prover aos mujahidin afegãos de explosivos, armas automáticas e foguetes antiaéreos contra os soviéticos, apoiando-os em sua guerra, porque tinham o direito de fé e de governo.

Por razões que não são tão veladas, esses terroristas aparecem quando mais precisam deles e preparam cenários para as «oportunas» guerras da economia política do capitalismo. Al-Qaeda, o DAESH, Boko Haram só são alcunhas de uma mesma hidra, alimentada por esses que dizem defender-se dela. Existe outro terrorismo, o de Estado, o que praticaram vários governos de todo o mundo, apoiados por potências que agora são objetivos, para calar o movimento progressista de esquerda com ditaduras militares, esquadrões da morte e magnicídios. Um capítulo que tem o chileno Salvador Allende, os desaparecidos latino-americanos na Operação Condor, monsenhor Oscar Arnulfo Romero e muitos outros como suas vítimas. Terroristas são também os que assassinaram a ecologista e ativista pelos direitos indígenas Berta Cáceres, os que encarceraram Milagro Sala, os que desapareceram Santiago Maldonado, os que entristeceram Cuba por várias décadas e hoje se asanham contra a Venezuela; não só os que atuaram em Nice, Oslo, Londres, Barcelona.

O terrorismo, em quais quer de suas facetas, não é escusável. A justiça social é a meta e não construir muros nem expulsar imigrantes. Se eliminados os abusos, poderá conseguir-se uma consciência de paz. Mas o disse Martí em melhores palavras, há mais de 100 anos: «Nem merecem perdão os que, incapazes de domar o ódio e a antipatia que o crime inspira, julguem os delitos sociais sem conhecer e pesar as causas históricas de que nasceram, nem os impulsos de generosidade que os produzem».