América Latina e o Caribe procuram unidade e paz, apesar das nuvens vindas do Norte › Mundo › Granma - Organo ufficiale del PCC
ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA

AS turbulências percebidas no Norte, em 2017, ratificaram que a unidade e integração regionais são imprescindíveis para a América Latina e o Caribe, no intuito de continuar avançando pelo caminho do desenvolvimento em paz.

Sendo candidato às eleições de 2016, o magnata republicano Donald Trump defendeu uma política agressiva contra os imigrantes e propôs, entre as promessas de campanha, a construção de um muro na fronteira do México.

A partir da chegada à Casa Branca rejeitou a renovação das licenças e vistos que permitem a entrada de milhões de latino-americanos e caribenhos aos Estados Unidos e, embora não conseguisse os fundos, mantém seu empenho de fechar totalmente a fronteira do Sul, obrigando os imigrantes a viajar por caminhos ainda mais perigosos.

Trump também deixou entrever suas intenções para a América Latina e o Caribe, anunciando uma mudança de política, no caso de Cuba, que fortalece a aplicação do bloqueio. Essa estratégia de agressão é anualmente rejeitada na arena internacional (incluídos todos os países de nossa região), carece de apoio entre a opinião pública estadunidense e, inclusive, é desprezada pela maioria dos cubanos assentes nesse país.

O nível das agressões da nova administração estadunidense, incluída a ameaça do uso da força contra nações soberanas da região, bem como o avanço transcendental da extrema direita local, deu pé a um contexto político convulso durante 2017.

A RESISTÊNCIA DA VENEZUELA

O ano anterior foi testemunho da resistência heroica do povo e o governo venezuelano, que se enfrentaram à guerra econômica interna, agravada por uma injusta e ilegal rodada de sanções internacionais.

A ativação da Assembleia Nacional Constituinte, no fim de julho de 2017, marcou uma nova etapa para a nação bolivariana. A aposta do presidente Nicolás Maduro de entregar o futuro do país à decisão do povo parou as tentativas violentas e deixou ao país em melhores condições para lidar com os problemas econômicos e estruturais, herdados após décadas de dependência quase única do petróleo.

Do outro lado, as manobras internacionais contra a Venezuela, fundamentalmente no seio da OEA, divergiram no decurso de 2017 com a posição digna de um grupo de nações que não cedeu, apesar das pressões de Washington nem das manipulações do secretário-geral do organismo, o uruguaio Luis Almagro.

Nesse sentido, destaca a inteireza das nações insulares do Caribe, alvo de chantagens e ameaças, por manter suas posições de princípio respeito à Venezuela.

ALBA REJUVENESCIDA

Nos finais de 2017, Havana foi sede da comemoração do 13º aniversário da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América e da 15ª reunião de seu Conselho Político. Ambos os eventos permitiram tecer um balanço dos sucessos do mecanismo de integração, baseado na solidariedade e a complementaridade das economias da região.

Os países membros reconheceram o legado de dois grandes líderes latino-americanos e caribenhos, o Comandante-em-chefe Fidel Castro Ruz e o líder bolivariano Hugo Chávez, de cuja visão unitária surgiu a ALBA.

«Sem a fundação da ALBA, sem a consolidação da ALBA teria sido impossível a fundação da Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac)», reconheceu o presidente Nicolás Maduro no discurso proferido no Palácio de Convenções de Havana, em 14 de dezembro.

Com 13 anos de história, o bloco aposta na unidade, apesar da diversidade e constitui um baluarte para a consolidação da América Latina e o Caribe como zona de paz, tal e qual foi proclamado em Havana, em 2012, durante a 2ª Cúpula da Celac.

UM CARIBE UNIDO

Apesar das tentativas de ingerência de algumas potências, que se mantêm no pleno século 21, as nações do Caribe sofreram em 2017 os embates da natureza, cuja inusitada intensidade se relaciona diretamente aos efeitos das mudanças climáticas.

Os furacões Irma e María, separados por escassos dias, atingiram a máxima intensidade e deixaram após sua passagem, inúmeras e lamentáveis perdas de vidas humanas, destruição de moradias e infraestrutura vital.

A força dos ventos e a magnitude do desastre puseram à prova as instituições caribenhas e também a solidariedade internacional. É certo que a primeira ajuda que chegou às zonas mais afetadas foi dos países vizinhos.

Apesar de sofrer também o impacto de Irma, em uma porção considerável de seu território nacional, Cuba ofereceu ajuda às ilhas mais afetadas, entre elas Dominica e Antígua e Barbuda.

Além de enviar pela via marítima ajuda humanitária urgente, eletricitários, construtores e trabalhadores florestais se juntaram aos médicos das brigadas permanentes para ajudar nas tarefas de recuperação, onde participam ambas as nações.

Na 5ª Cúpula Cuba-Caricom, efetuada na ilha de Antígua e Barbuda, o general-de-exército Raúl Castro reafirmou que «o Caribe sempre pode contar com Cuba», que está disposta a continuar partilhando com seus irmãos caribenhos os recursos disponíveis.

Porto Rico também foi açoitado pela fúria dos furacões, pondo a nu suas vulnerabilidades e as deficiências do sistema colonial que domina essa ilha.

As afetações neste Estado Livre Associado estadunidense atingiram os US$9 bilhões, que se somaram à dívida pública que tem com Wall Street que é de quase US$7,4 bilhões. Depois de vários meses das afetações, a recuperação da ilha avança devagar. Uma grande porcentagem da população ainda carece de eletricidade e de água potável.

OLHAR PARA O SUL

Uma rápida revisão ao sul de nosso continente — esse que, além da geografia e seguindo a José Martí, vai do rio Bravo à Patagônia — oferece-nos um panorama que está longe de ser homogêneo.

Por um lado, a direita continental conseguiu sucessos notáveis em alguns países, onde já se percebe certo recuo.

Os aumentos das tarifas nos serviços públicos e a redução das pensões, por mencionar um exemplo, mostraram o verdadeiro rosto da administração neoliberal de Maurício Macri, na Argentina.

No Brasil, após o golpe de Estado contra a presidenta eleita Dilma Rousseff, a legislação de trabalho recuou mais de um século e milhões de pessoas sofrem agora os efeitos do abandono do Estado. Apesar das tentativas de bloquear a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o líder do Partido dos Trabalhadores tem uma considerável vantagem em relação aos aspirantes da direita brasileira para as eleições deste ano.

De sua parte, México encaminha-se às eleições presidenciais de julho de 2018, com Andrés Manuel López Obrador no topo das intenções de voto. As propostas de seu partido, Movimento de Regeneração Nacional (Morena), calharam em meio da insegurança, a corrupção institucionalizada e os ventos que sopram vindos dos Estados Unidos. A nação mexicana sofreu também este ano fortes afetações, incluído vários terremotos que deixaram centenas de falecidos e bilhões de dólares em perdas econômicas.

No Chile, Sebastián Piñera recuperou a presidência para a direita, mas a verdadeira notícia na primeira votação das eleições foi o resultado espetacular da Frente Ampla, de Beatriz Sánchez. A terceira colocação obtida, aproximadamente com 20% dos votos, demonstra que um programa de profundas mudanças tem arraigo no país, que é vendido como a vitrine do neoliberalismo na região.

De outro lado, há vários processos que avançam, demonstrando a validez das transformações sociais, para tirar o passado de subdesenvolvimento de nossa região.

Nicarágua, com a Frente Sandinista de Libertação Nacional à frente, mantém uma das taxas de desenvolvimento mais altas de nosso continente, cerca de 5% e continua transformando a realidade de uma das nações mais pobres da América Latina. Igualmente, a Bolívia de Evo Morales é uma evidência do que podem avançar os países que recuperam o domínio de seus recursos naturais, focados no desenvolvimento social.

Em El Salvador, o presidente Sánchez Cerén, quem se defende das armadilhas da direita, conseguiu reduzir os índices de violência e deixar a seu país em melhores condições para atrair investimentos e desenvolver a economia.

Porém, sobretudo, 2017 foi testemunho da força dos povos. Milhares de pessoas encabeçaram protestos na Honduras contra a oficialização da vitória do presidente Juan Orlando Hernández, em umas eleições escurecidas pelas denúncias de fraude. O candidato da oposição, líder de uma aliança política progressista e contra a ditadura, Salvador Nasralla, defende que foi o candidato mais votado pelos hondurenhos e anunciou uma nova etapa de resistência social para 2018.

Também nas ruas foram defendidos os direitos da líder argentina Milagro Sala, que sofreu perseguição política em seu país, e também foi denunciado o desaparecimento forçado do jovem Santiago Maldonado.

O ano 2018 se anuncia, também, como um ano de luta, no qual continuará sendo desenhado o mapa geopolítico da região.

Contudo, longe da realidade estão as previsões de alguns, em 2017, acerca do final do ciclo progressista e o retorno da «longa noite neoliberal» que sumiu na pobreza milhões de latino-americanos e caribenhos e deixou na ruína nações inteiras.