ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA
Trump é o presidente de menos respaldo popular em 70 anos. Photo: RT

AO resumir seu primeiro ano no cargo, o presidente norte-americano Donald Trump disse, em 30 de janeiro de 2018, que se estava vivendo «um novo momento americano», que havia um «progresso incrível» e um «sucesso extraordinário» em seu desempenho. No entanto, no amanhecer do dia seguinte, o The New York Times, um dos jornais mais importantes dos EUA, publicou um editorial para tentar demonstrar que o presidente «não entende o verdadeiro estado da União americana», enquanto muitos outros jornais e espaços de notícias no mundo concorreram tentando decifrar o número de mentiras do presidente durante o discurso e também proferidas, muitos dias antes, em organismos internacionais e muitos analistas tinham preenchido páginas sobre o período louco do começo do magnata à frente do governo. O jornal matutino de Nova York associou o «novo momento» à peculiaridade de um presidente que «ataca permanentemente os tribunais norte-americanos e suas agências de segurança e inteligência»; «que defendeu os neonazistas»; «proferiu insultos racistas»; «implementou a política doméstica mais implacável e convencionalmente conservadora na história recente dos EUA» e que, entrincheirando-se em suas demandas maximalistas para limitar a migração legal e dividir as famílias de migrantes, Trump disse que traria o sistema migratório para o século 21, mas na realidade o está levando de volta, um passado doloroso por causa da intolerância que mostrava.

Nesse sentido, o Relatório Mundial de 2018 da Human Rights Watch, publicado em janeiro passado, afirma que «as políticas de Trump tornaram todos os imigrantes possíveis de deportar em alvo de deportação». A administração expandiu os procedimentos abusivos de remoção acelerada e os processos penais por crimes de imigração e tomou medidas para aumentar a detenção prolongada de imigrantes.

Trump também revogou o programa de Extensão de Procedimentos Migratórios para Crianças Chegadas na Infância (Ação Diferida para Chegadas Infantis, DACA), colocando milhares de imigrantes que chegaram nos Estados Unidos ainda sendo crianças sob o risco de deportação. Em outubro, a Casa Branca publicou políticas e princípios de imigração que enfraqueceriam a proteção para crianças migrantes e refugiadas.

Em muitos casos, essas pessoas são desarraigadas das comunidades onde eles têm suas famílias e laços fortes. Este aumento deveu-se, em parte, a um aumento drástico da detenção de imigrantes sem convicção criminal.

O aumento das deportações durante a administração do Trump está afetando as pessoas que viveram há décadas nos Estados Unidos, muitas vezes sem sanções criminais, ou que não têm histórico de infrações migratórias, trânsito ou drogas, incluindo sua posse. Alguns cresceram nesse país. Têm filhos, cônjuges, pais e avós que são cidadãos dos EUA.

O governo também emitiu novas e severas medidas de seleção para o programa de refugiados e estabeleceu o limite anual para admissões de refugiados para 2018 em 45.000, o menor desde que o Congresso aprovou a Lei de Refugiados, em 1980.

O próprio relatório da Human Rights Watch revela que o primeiro ano da administração do Trump foi marcado por um acentuado corte das funções do governo para proteger e promover uma ampla gama de direitos humanos. Ela observa que foram feitas mudanças políticas que prejudicaram refugiados e imigrantes, diminuiu a responsabilidade da polícia pelo abuso e restringiu os direitos das mulheres, incluindo o acesso a importantes serviços de saúde.

O documento descreve que as políticas e declarações governamentais também ameaçaram ou prejudicaram os direitos humanos de outras maneiras. Por exemplo, a relutância de Trump em repudiar grupos de ódio pode incentivar comportamentos discriminatórios e racistas e evitar sua responsabilidade como presidente para defender os princípios fundamentais de igualdade e não discriminação. Acrescenta que as repetidas acusações do presidente de que os jornalistas são desonestos e que têm uma agenda contra ele, além dos comentários e vídeos que os ofendem, suscitam preocupações acerca de um efeito relaxante da liberdade de expressão nos Estados Unidos.

Por outro lado, a súbita demissão, por parte de Trump, do diretor do Bureau Federal de Investigação (FBI), James Comey, e suas críticas aos juízes que bloquearam algumas das ações de seu governo estão em risco de minar o domínio da lei e o controlo sobre o poder presidencial, de acordo com o referido relatório. O capítulo dedicado aos EUA acrescenta que a pretensa revisão pelo governo da política de ataques com drones, fora das zonas de guerra convencionais, permite agir contra os suspeitos de terrorismo de nível mais baixo em mais países, com menos supervisão e maior sigilo.

O «novo momento americano» é para os 41 milhões de pobres (13,3 milhões de crianças incluídas), 553.000 pessoas sem teto; 16 milhões que não sabem ler; dos 23 milhões de potenciais afetadas com a reforma sanitária de Trump; os milhares que fogem de Porto Rico para a Flórida, Nova York ou Pensilvânia como consequência do desamparo do qual são vitimas, após a passagem dos recentes furacões, enquanto para ter garantida a «América Primeiro» são pedidos US$ 700 bilhões em despesas militares para o ano fiscal.

É também a hora dos botões nucleares e as ameaças de extermínio, dos magnatas do negócio da guerra, da negação da mudança climática e do condicionamento econômico da causa palestina e a complacência ao aliado israelense, das investigações secretas e demissões na própria Casa Branca; da chantagem e as sanções em grande proporção; dos 623 grupos de ódio, paramilitares e extremistas criados com sucessivas políticas nacionalistas e hegemônicas, que aplaudem as mais de 167.000 pessoas deportadas nos primeiros meses da nova administração, enquanto trocas de tiros e incidentes terroristas internos fazem parte do cotidiano.

É, ainda, a vergonha do maior número de pessoas no mundo que estão nas prisões (2,3 milhões), marcada também pelo racismo; onde em 31 estados ainda é permitida a pena de morte e 2,9 mil pessoas vivem o pesadelo da espera de sua execução.

Nesse cenário misterioso, turbulento e imprevisível, o presidente de menos respaldo popular dos últimos 70 anos na história dos EUA, quem conseguiu reduzir a escombros a diplomacia estadunidense em 12 meses, olimpicamente é proposto, por não se sabe quem, como candidato ao Prêmio Nobel da Paz. Sem dúvida é um «novo momento americano».