Desde Miami até Lima, o caminho torto das Cúpulas das Américas › Mundo › Granma - Organo ufficiale del PCC
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Na Cúpula de Mar del Plata, em 2005, a Cúpula dos Povos foi protagonista do enterramento da ALCA. Foto: Archivo

A 8ª Cúpula das Américas, que se realizou entre 13 e 14 de abril em Lima, Peru, é o último encontro de um polêmico mecanismo que pouco contribui para a integração regional; mas que, contraditoriamente, serve para reafirmar as posições do Sul perante os que procuram impô-las do Norte.

O percurso de mais duas décadas desde Miami, o primeiro encontro em 1994, até Lima, mostra as tensões existentes entre dois projetos sociais e políticos muito diferentes: o pan-americanismo estadunidense e a vontade de integração dos libertadores no Sul do Rio Bravo.

A agenda do evento do Peru, que supostamente estará focada na governabilidade democrática contra a corrupção, caiu no ridículo perante a demissão do ex-presidente, Pedro Pablo Kuczynski, por causa de um escândalo por negócios escusos com a empresa Odebrecht.

Contudo, mantêm-se vigentes os planos de utilizar a Cúpula para singularizar determinados países, uma das práticas comuns desde 1994 até hoje.

Porém, será muito difícil encobrir com um dedo a corrupção e a crise de governabilidade em muitos dos países aliados de Washington, que se juntam para atacar nações soberanas como a Venezuela.

Ao mesmo tempo, crescem os apelos para superar as exclusões que caracterizaram as primeiras seis cúpulas do bloco – das quais Cuba não participou pelas pressões norte-americanas – e permitir a participação da Venezuela, cujo convite foi rejeitado, sem o consenso de todos os países membros.

Peru será também palco para o encontro dos povos, cujas cúpulas paralelas são uma constante, a partir da realizada no Chile, em 1998.

Nelas não se reúne a sociedade civil dos ricos e as ONGs pagas para a subversão, mas sim os povos originários, as maiorias esquecidas, os lutadores pelo meio ambiente, estudantes, camponeses, defensores dos direitos dos imigrantes, os que denunciam a tortura, as execuções extrajudiciais, a brutalidade policial, as práticas racistas, os que reclamam um salário igual para as mulheres por trabalho igual, os que exigem demandas pelas afetações das companhias transnacionais, como muitos outros que têm o apoio dos líderes soberanos e progressistas do continente.

1ª CÚPULA DAS AMÉRICAS

Data: de 9 a 11 de dezembro de 1994

Sede: Miami, Estados Unidos

O sonho de Washington era criar um só mercado, desde o Alasca até a Terra do Fogo, com cerca de 1 bilhão (1.000.000.000) de consumidores à sua disposição, bem como incontáveis recursos naturais para explorar.

A ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) nasceu sob o auspício do governo de Bill Clinton, quem resolveu que na Cúpula se reunissem todos os chefes de Estado da região.

O lugar escolhido para sua realização não foi casual. Além de sua influência hispânica, Miami era vista – e ainda é – a capital da subversão contra os governos da esquerda e progressistas da Nossa América, pois focava uma agenda clara para a região.

Embora a Cúpula surgisse sob a sombra da Organização dos Estados Americanos (OEA), desde o começo o segmento de poder teve alguma independência.

Atualmente, a secretaria e a organização deste evento é tarefa da OEA, mas o país anfitrião e os países membros têm também a capacidade de decisão para manter o convite e determinar os assuntos que serão tratados.

Devido às pressões de Washington e no contexto das agressões acirradas após a queda do bloco socialista, Cuba não foi convidada à Cúpula de Miami.

A partir desse momento, os Estados Unidos lançariam mão de todo o tipo de pressões e manipulações para manter essa exceção.

Não obstante, o reclamo latino-americano e caribenho permitiu que a Ilha maior das Antilhas fizesse parte deste mecanismo durante a 7ª Cúpula, no Panamá, em 2015.

Do lado norte-americano e junto a Clinton, sentaram-se Carlos Menem, Ernesto Zedillo, Eduardo Frei, Alberto Fujimori e outros. Era a época do auge neoliberal, mas os sorrisos e parabéns duraram pouco.

2ª CÚPULA DAS AMÉRICAS

Data: de 18 a 19 de abril de 1998

Sede: Santiago do Chile, Chile

Embora Chile favorecesse a continuidade dos assuntos tratados em Miami, as ideais acerca do livre comércio entre o Norte e o Sul do continente causaram algumas preocupações.

O neoliberalismo, implantado com sangue e fogo na América Latina, ficava longe de espalhar riqueza como foi prometido, e seus efeitos se sentiram com força entre todos os trabalhadores.

Mesmo assim, continuou sendo aplicada a ALCA e começaram as negociações formais para sua conformação. Clinton prometeu, inclusive, que utilizaria uma forma rápida para aprovar qualquer acordo de livre comércio com a América Latina.

Na Cúpula do Chile começaram as perguntas acerca da ausência de Cuba, especificamente por parte dos países caribenhos.

O primeiro-ministro de Barbados, Owen Arthur, expressou que a de Santiago devia ser a última Cúpula das Américas sem a participação da Ilha maior das Antilhas.

Chile também viu o nascimento das Cúpulas dos Povos, uma alternativa contra o segmento de poder, para tratar dos temas que realmente preocupavam a região.

3ª CÚPULA DAS AMÉRICAS

Data: de 20 a 22 de abril de 2001

Sede: Quebec, Canadá

Em Quebec começou o afundamento por todos os lados da visão neoliberal impulsionada dos Estados Unidos. As contínuas crises econômicas e o consequente descontentamento popular percorreram todo o continente e o ânimo de realização decaiu.

Uma liderança surgida do seio do exército venezuelano, Hugo Chávez, foi eleito presidente da Venezuela e não escondia ao mundo seu plano de transformar o país e recuperar os recursos naturais a favor do povo.

O projeto bolivariano foi o começo de uns dos processos de transformações sociais mais profundas que viveu a América Latina e o Caribe. Começou o fim da longa noite neoliberal, como a chamou depois o equatoriano Rafael Correa.

Na 3ª Cúpula das Américas, contudo, os Estados Unidos mantiveram sua ideia de implementar a ALCA para 2005.

Ao mesmo tempo, o evento deu pé à futura criação de um instrumento que hoje é fonte de manipulações e ataques seletivos: a Carta Democrática Interamericana.

Em Cuba, Fidel advertiu premonitoriamente acerca da Cúpula de Quebec: Os povos da América Latina e o Caribe podem ser devorados, mas não digeridos; fugirão, mais tarde ou mais cedo, do ventre da baleia».

Canadá também passou à história pelo nível de mobilização de todos os setores da sociedade civil e pela brutal repressão policial. Pelo menos 435 pessoas foram presas e mais de uma centena resultou ferida durante os dias de passeatas, manifestações e enfrentamentos, onde se juntaram umas 60 mil pessoas.

4ª CÚPULA DAS AMÉRICAS

Data: 4 e 5 de novembro de 2005

Sede: Mar del Plata, Argentina

Se Miami quis encher de vida a ALCA, a 4ª Cúpula das Américas, em Mar del Plata, Argentina, foi seu enterramento oficial.

O evento foi protagonizado pelo indiscutível Chávez e o presidente anfitrião, Néstor Kirchner, cujo país recentemente saiu da bancarrota, após cair o arrastão neoliberal.

Os triunfos de novas forças políticas de esquerda, em países como o Brasil, Bolívia, Equador, Nicarágua e o Uruguai transformaram radicalmente o balanço de forças na região, que procurava alternativas próprias de integração.

Desse espírito surgiu a Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América-Tratado de Comércio dos Povos (ALBA-TCP), Petrocaribe, Unasul e, finalmente, o más anelado de todos, a Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac).

A maioria dos países participantes não abriu mão perante Washington e chamra a atenção acerca das assimetrias entre ambas as regiões para a assinatura de um acordo de livre comércio.

Pela primeira vez na Cúpula prevalecia a vontade latino-americana e caribenha.

O presidente estadunidense (George W. Bush) foi incapaz de esconder seu pasmo perante a posição dos países presentes.

Embora estivesse presente o tema naquela cúpula em Miami, foi Mar del Plata o momento em que se sentiu com mais força o reclamo da presença de Cuba e se esclareceu que qualquer dos eventos hemisféricos, seria incompleto sem a presença da Ilha maior das Antilhas.

A 3ª Cúpula dos Povos da América, que incluiu a participação de quase 500 organizações civis, entre elas uma representação de Cuba, finalizou, entretanto, com um forte pronunciamento contra a ALCA e propostas alternativas para esta iniciativa, encorajada pelos Estados Unidos.

No ato final da reunião dos povos, Chávez pronunciou suas históricas palavras: ALCA, ALCA, ao caralho!

5ª CÚPULA DAS AMÉRICAS

Data: de 17 a 19 de abril de 2009

Sede: Porto de Espanha, Trinidad e Tobago

Esta foi a estreia do presidente Barack Obama na região latino-americana e caribenha. Sua campanha a favor da mudança gerou expectativas sobre um relacionamento diferente durante sua presidência.

Chavez entregou ao presidente Obama, na Cúpula de Trinidad e Tobago, um duplicado das Veias abertas da América Latina, o livro do uruguaio Eduardo Galeano que descreve a exploração à que foi submetida a região, pela parte europeia e os próprios estadunidenses. Foto: AFP

O tema Cuba foi um dos temas centrais do debate. Exigiu-se com força o cesse do bloqueio e vários presidentes reclamaram, durante seus discursos, a presença cubana.

«Eu me recuso a chamar esta cúpula de Cúpula das Américas. Há duas grandes ausências: Cuba e Porto Rico», disse em seu discurso o presidente Daniel Ortega.

Os presidentes da Argentina, Brasil, Venezuela, Bolívia e a Nicarágua mostraram a absurda política de isolamento praticada pelos diversos governos norte-americanos contra Havana.

Em Trinidad e Tobago também coincidiram Chávez e Obama, oportunidade que deu pé a que o presidente bolivariano lhe expressasse em inglês: «Eu quero ser amigo de você». Depois, antes de começar a reunião entre os Estados Unidos e a Unasul, o líder venezuelano se levantou para entregar nas mãos do presidente estadunidense um duplicado das Veias abertas da América Latina, o livro do uruguaio Eduardo Galeano que descreve a exploração à que foi submetida a região pela parte europeia e os próprios estadunidenses.

«Durante meu governo os EUA vão se relacionar com a América Latina mediante a cooperação e o respeito, mas para isso é preciso esquecer as páginas da história, em prol de avançar rumo a um futuro de prosperidade», disse Obama em seu discurso, retórica que manteve no decurso de sua presidência, ao mesmo tempo em que seu governo trabalhava para destruir todos os movimentos progressistas ou de esquerda que achasse em seu caminho.

6ª CÚPULA DAS AMÉRICAS

Data: de 14 a 15 de abril de 2012

Sede: Cartagena das Índias, Colômbia

A posição dos Estados Unidos de manter a exclusão de Cuba da Cúpula ameaçou com dinamitar o mecanismo criado por Washington. A não participação dos presidentes do Equador, Venezuela e a Nicarágua caracterizou o evento, que deixou entrever seu futuro incerto, caso não fosse permitido convidar Havana.

Em Cartagena das índias foi percebido o isolamento dos Estados Unidos, no que respeita à sua política hostil e foi reiterado que rejeitar a presença da Ilha maior das Antilhas foi um erro histórico que se devia corrigir, tão logo fosse possível.

Venezuela, Nicarágua e a Bolívia manifestaram que não assistiriam a outra Cúpula hemisférica sem Cuba e receberam o apoio do Brasil, Argentina e o Uruguai. Uma posição semelhante assumiu a Comunidade do Caribe.

7ª CÚPULA DAS AMÉRICAS

Data: de 10 a 11 de abril de 2015

Sede: Cidade do Panamá, Panamá

No Panamá foi cumprido, finalmente, o reclamo unânime da região de incorporar Cuba nas cúpulas hemisféricas.

Embora se tentasse vender a ideia de que Washington fazia uma concessão com Havana, certamente a presença de Cuba foi um direito conquistado pelos países da região, que não deixaram de reivindicar sua inclusão e que, inclusive, ameaçaram de não participar das Cúpulas, caso for mantida a exclusão.

Na 7ª Cúpula das Américas foi escutada a voz da liderança histórica da Revolução, a mesma que resiste as agressões norte-americanas desde 1º de janeiro de 1959. O general-de-exército Raúl Castro foi recebido com fortes aplausos, após entrar no local da Cúpula.

Seu posterior encontro pessoal com o presidente Barack Obama deu pé para começar os passos de avanço entre os dois países, após os anúncios de 17 de dezembro de 2014, acerca da vontade de Washington e Havana de avançar no processo de normalização das suas relações.

8ª CÚPULA DAS AMÉRICAS

Data: 13 e 14 de abril de 2018

Sede: Lima, Perú

A próxima edição das Cúpulas das Américas será caracterizada pela presença do novo presidente norte-americano, Donald Trump, e os conflitos vigentes que mantém sua administração com vários países latino-americanos.

Sua campanha eleitoral, em 2016, esteve regida por um discurso contra a América Latina e emigrantes.

Qualificou os mexicanos de assassinos e estupradores e prometeu que esse país pagaria a construção de um gigantesco muro na fronteira.

A partir de sua chegada à Casa Branca as coisas foram para pior. Uma de suas primeiras ações foi ordenar a revisão da política respeito a Cuba, a qual anunciou em junho de 2017 na cidade de Miami, cercado pela extrema direita anticubana.

Outros aspectos referem que Trump ordenou reforçar o bloqueio e tomou medidas para tornar mais difíceis as viagens entre os dois países.

Na mira de Washington também está a República Bolivariana da Venezuela. Se bem que o presidente atual herdou da anterior administração uma política hostil contra Caracas, que foi qualificada por Obama como uma ameaça para a segurança dos Estados Unidos, Trump incrementa as tensões, sem descartar o uso da força contra a nação bolivariana. Washington aplica, também, várias sanções que se somam ao boicote econômico da direita e impactam negativamente na população do país sul-americano.

Outro de seus escândalos recentes foi chamar ‘países de merda’ um grupo de nações africanas e latino-americanas, causando indignação mundial. Medidas protecionistas anunciadas neste ano pelo presidente, também podem supor contradições com países tradicionalmente aliados, os que seriam seriamente afetados, caso Washington mudar as regras do jogo no comércio bilateral.

O balanço das forças na América Latina e o Caribe, contudo, não é o mesmo que nas Cúpulas anteriores.

A direita regional, tradicionalmente adstrita aos interesses norte-americanos, conseguiu um grupo de vitórias em países chaves e sua voz não deve ser escutada com a mesma força em Lima.

A pergunta feita perante a cúpula do Peru é: será que a região conseguirá mostrar um front unido perante as agressões estadunidense, as mesmas que afetam milhões de latino-americanos e caribenhos, ou serão cometidos os mesmos erros do passado.