ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA

NÃO ousamos falar pelo Partido da Esquerda Europeia (PIE) nem temos que fazê-lo, mas alguns elementos da experiência latino-americana podem ser muito válidos para a Europa, assegurou o vice-chefe do Departamento das Relações Internacionais do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba (PCC), Carlos Marsán Aguilera, em diálogo com o Granma Internacional, a propósito da comemoração do «Terceiro Seminário Europa, América Latina e o Caribe. Visões Compartilhadas da Esquerda», que será realizado em Havana como parte do 34º Encontro Anual do Foro de São Paulo (FSP).

Compartilhamos com nossos leitores detalhes dessa entrevista.

CONSTRUIR OUTRO ESPAÇO DE IDENTIFICAÇÃO

Este terceiro Seminário constitui uma expressão do crescente interesse do PIE pelos processos políticos que se realizam na América Latina e o Caribe, embora este partido seja relativamente jovem.

Em 2004, quando o Parlamento Europeu se conformou a partir de eleições que se realizam nesta região a cada cinco anos, os partidos legais participaram delas para somar votos e aspirar a uma cadeira na Câmara Europeia. Assim, um grupo de partidos de esquerda ganharam assentos no Parlamento Europeu e decidiram unir-se e formar, não apenas o Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica, mas também o PIE.

Nasce então o PIE que hoje tem 22 organizações membros e oito observadoras. As primeiras aceitam plenamente os estatutos e portanto, são as mais ativas à hora de participar das atividades convocadas. As segundas, em troca, não compartilham totalmente as visões políticas do PIE, mas desejam permanecer próximas a seus processos, pois consideram que não existe outra alternativa no Velho Continente capaz de dar-lhes visibilidade.

O Partido está estruturado por seis vice-presidentes e um presidente, Gregor Gysi, que ao mesmo tempo pertence a Die Linke (Partido da Esquerda Alemã). Este homem leva muitos anos vinculado ao nosso continente, foi eurodeputado e no passado ano, durante o segundo Seminário do PIE, assumiu a presidência. Anteriormente, por quase seis anos, seu líder foi Pierre Laurent, atual secretário-geral do Partido Comunista Francês.

Desde seu aparecimento, o PIE teve entre seus objetivos fundamentais reformar a UE com a intenção de conseguir um bloco mais social e menos subordinado aos interesses do capital. Contudo, isto foi transformando-se e, atualmente, a maioria dos integrantes do PIE se questiona isto. De fato, evoluíram a uma visão que tem a ver mais com refundar a UE, isto é, construí-la acima de novas bases.

Para eles, tem que recuperar o que em seu momento foi o estado de bem-estar geral no Velho Continente e criar uma Europa dos cidadãos e não das empresas capitalistas. Também, como parte dessa própria evolução manifestou questões relacionadas com a reivindicação dos direitos trabalhistas, o gênero e a participação popular, entre outras temáticas.

UMA REFERÊNCIA PARA O PIE

Quando surgiu o PIE, a América Latina atravessava um profundo processo de transformações políticas, econômicas e sociais. Por exemplo, Chávez tinha ganho em 1998 e em 1999 tomou o poder da Venezuela para impulsionar assim o avanço da esquerda progressista e revolucionária no continente.

O PIE viu então nos acontecimentos ocorridos em nossa região e no FSP uma referência importante na batalha contra os interesses monopólicos e de dominação. De certa forma também visualizavam por onde avançar na confluência dos partidos políticos com os movimentos sociais da esquerda.

Por isso neste 34º Encontro do Foro de São Paulo, foram realizadas suas ses-sões de trabalho onde se propuseram dois temas essenciais: os terrenos de intervenção comum nas relações políticas e econômicas entre a União e a América Latina e o aumento fiscal, uma batalha compartilhada contra o poder das oligarquias.

O primeiro ponto pretende conseguir uma maior articulação entre as ações da esquerda latino-americana e europeia, sobretudo em termos de acordos de livre comércio, tratados preferenciais, paraísos fiscais e predomínio das multinacionais. Em resumo, a luta global contra o capital financeiro. Enquanto que o segundo tentará construir mais pontes políticas para o desenvolvimento de ações conjuntas entre ambas as partes.

RETOS E DESAFIOS COMUNS

Hoje a articulação da luta tem que se dar em nível planetário. Esta é uma bata-lha comum contra a hegemonia cultural, a guerra não convencional, a dominação imperialista, a perda das soberanias nacionais e as campanhas contra os líderes esquerdistas. Mas isto não acontece exclusivamente deste lado do mundo, faz parte de uma ofensiva global.

E como se identifica essa ofensiva? Pois com o avanço das políticas de austeridade na Europa, as quais limitam cada vez mais à classe dos operários. Também com a precarização dos mercados de trabalho e mediante fortes leis que só geram o menoscabo de conquistas ganhas pelos trabalhadores há mais de um século.

Por exemplo, recentemente o governo austríaco aprovou uma legislação que permite aos empresários impor regimes de trabalho de até 12 horas por dia. Isso sem falar do caso de outros países europeus onde o empregador pode demitir seus subordinados em qualquer momento e estes nem sequer contam com um contrato fixo de trabalho. E que dizer da campanha antiimigrante, destinada a causar medo e insegurança entre as pessoas e que permite a violação de direitos básicos dos cidadãos, tais como o direito à privacidade.

Por isso é tão importante que se conecte a vanguarda de luta em nosso continente com a europeia e a de outros continentes, dar mais um passo na articulação entre a esquerda latino-americana e europeia, na identificação de interesses de luta comuns e na construção de um espaço de unidade e solidariedade.

Vimos como contra a Venezuela, por exemplo, os ataques não provêm unicamente dos Estados Unidos, mas também da Europa, onde se promovem sanções hostis e uma campanha da mídia para distorcer a realidade e julgar o presidente Nicolás Maduro.

A esquerda europeia também deve vigiar porque os fatos que ocorrem atualmente sejam apreciados com objetividade, como mesmo fizeram com Cuba na denúncia do criminal bloqueio estadunidense. Precisamos de um espaço de identificação em torno a esta e outras mazelas porque, além das diferenças, temos desafios comuns.

FORO DE MARSELHA

• O Foro de Marselha foi comemorado em novembro do ano passado na cidade francesa que prestou seu nome ao evento e quis ser um espaço similar ao de São Paulo, isto é, um cenário de unidade, de encontro, que transcenda os partidos políticos para chegar a forças sindicalistas, organizações femininas, indígenas e outros setores sociais. Ali aconteceu uma experiência ainda limitada, mas que marcou a primeira tentativa no caminho da emigração rumo a um primeiro congresso birregional previsto para um futuro não muito distante.