ÓRGÃO OFICIAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DE CUBA

JOSÉ Martí, referindo-se aos Estados Unidos, escreveu em 1884: «Na medula, na medula é o vício, em que a vida não vai tendo nesta terra mais objeto que a acumulação da fortuna!». (1)
A democracia que nos apresentam como um modelo a seguir, como paradigma de direitos cidadãos, foi analisada por José Martí durante sua longa permanência no país do Norte, porque viveu no monstro e conheceu suas entranhas; ali, o olhar crítico do Apóstolo desvendou — como ninguém — a alma desapiedada do sistema.
Martí contemplou o germe da decomposição, não se deixou deslumbrar pelas miragens e antecipou aonde levariam o ritmo delirante e arrogante, a concorrência acirrada, onde o lado espiritual ficava relegado aos recantos mais escuros.
Em 10 de abril de 1892, o Partido Revolucionário Cubano (PRC) foi criado, concebido como o instrumento político necessário para organizar e conduzir a guerra pela independência e criar as bases para o estabelecimento de uma república democrática em Cuba. Um instrumento esculpido com a alma, para construir uma República diferente, que deixou para trás os males da colônia, para que esta não perdurasse nela, com seus flagelos, para que os excessos que assolavam às emergentes e balcanizadas nações do continente não se repetissem em Cuba e impedisse a tempo que o império nascente caísse com essa força mais sobre as terras da América.
O PRC foi a garantia desse projeto e da República a ser fundada: «uma nação capaz de garantir a felicidade duradoura de seus filhos», «um povo novo e de sincera democracia».
O CIRCO DA DEMOCRACIA, A POLÍTICA DOS EMPURRÕES E OS TROPEÇOS
O dinheiro flui incessantemente dos cofres dos poderosos do complexo militar, financeiros, da mídia e do partido que governa os EUA ─ que num jogo quase perfeito, é dividido em democratas e republicanos, um partido único ─ compra de tempos em tempos pessoas que os servem.
Os candidatos presidenciais nos EUA devem ter resistência suficiente para suportar uma competição onde vale tudo: o golpe baixo e desonesto, os ataques pessoais, raciais, de gênero, a mentira, a baixeza, o engano, a armadilha. Examina-se sem ética de nenhum tipo a vida privada dos aspirantes, a exploração do escândalo sexual para se livrar de um rival é comum e tem história na política estadunidense.
Garry Hart, em 1987, teve um caso extraconjugal; naquela época, ele era o mais forte candidato democrata a chegar à presidência e o escândalo obrigou-o a renunciar à sua candidatura.
Michael Dukakis, candidato democrata em 1988, foi um dos mais atacados na guerra suja eleitoral, seus rivais espalharam o boato de que sua esposa tinha queimado uma bandeira dos EUA em alguns protestos contra a Guerra do Vietnã, inclusive, disseram que o candidato foi submetido a tratamento psiquiátrico.

A equipe do presidente George Bush asseverou que Bill Clinton teve laços com comunistas soviéticos, durante seus dias de estudante. Disseram que o democrata tinha tido um caso extraconjugal com sua secretária de longa data, Jennifer Fitzgerald.

Em 1984, Ronald Reagan, 73 anos, conseguiu esquivar as flechas que seu rival Walter Mondale lançava contra ele sobre sua velhice. Bob Dole, um candidato republicano em 1996, com os mesmos anos que Bush, estava constantemente atacando-o pela questão da idade. Talvez por isso ele tentasse ganhar terreno a Bill Clinton ─ o favorito ─ com outras táticas, como sugerir que o então presidente, que confessou ter usado maconha em sua juventude (embora «sem engolir a fumaça»), era culpado pelo aumento do uso de drogas entre adolescentes. Em uma publicidade, os republicanos se perguntavam: Engoliu a fumaça ou não?
John McCain aprendeu bem com os tropeços que seu colega de partido, George W. Bush, fez quando apresentou sua candidatura à presidência, em 2000. Os eleitores da Carolina do Sul receberam um telefonema curioso pedindo sua opinião: «O que pensaria se soubesse que o senador McCain tem um filho ilegítimo com uma prostituta negra?».
McCain, cuja filha «ilegítima» era em verdade sua filha adotiva de Bangladesh, ficou fora da disputa pela Casa Branca.
Nas disputadas eleições, como as que enfrentaram George W. Bush e John Kerry, o jogo sujo era uma arma recorrente: atacar nos flancos, na família, na religião ou no patriotismo costuma dar bons resultados. Bush contou em sua equipe com um dos maiores cérebros na maquinaria da sujeira das campanhas eleitorais: Karl Rove.
Os democratas apresentaram seu candidato de 2004, John Kerry, como o herói de guerra que serviu com honras no Vietnã; os republicanos, como o traidor que tinha jogado suas medalhas Coração Púrpura em uma manifestação contra o conflito em 1971.
Uma foto de Obama vestindo o típico traje queniano serviu para alimentar os rumores de que o senador era muçulmano. Obama «alertou» que John McCain prolongaria a guerra no Iraque por mais cem anos, embora o candidato nunca tenha dito isso. Além disso, ainda não se sabe se Sarah Palin é a porca com batom à qual ele se referiu em um discurso.

Quando se trata de sujar um candidato, o importante não é encontrar uma mancha em sua vida que revelar, mas que esta, real ou não, pareça plausível. As eleições vencidas pelo atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e sua posterior execução política, quebraram todas as barragens éticas, atingindo extremos indescritíveis.
DINHEIRO, DINHEIRO
O dinheiro que cada candidato tiver será essencial. Quanto custa ser presidente? Muito dinheiro. Se juntarmos os custos dos democratas e republicanos nos processos eleitorais anteriores, as eleições presidenciais de 2008 custaram cerca de 5 bilhões de dólares, as intermédias de 2006, cerca de 2,85 bilhões de dólares, as de 2002, cerca de 2,18 bilhões de dólares e a de 1998 acrescentou 1,61 bilhão de dólares.
As eleições presidenciais em que Barack Obama conquistou a presidência ultrapassaram os US$ 6 bilhões, asseverou o Centro de Política Responsável (CRP).

No território ianque é comum que os simpatizantes apoiem a carreira de seus líderes políticos com suas contas correntes. As doações privadas são essenciais para levar um candidato ao poder e manter o sistema. Então, pode legislar-se contra grandes indústrias que doaram milhões de dólares para a sua causa?
COMO É ELEITO O PRESIDENTE?
Para ganhar as eleições nos EUA, a maioria dos 538 votos eleitorais em disputa deve ser obtida. O Colégio Eleitoral é composto por 538 eleitores, número que está em vigor desde 1964. A Constituição atribui a cada Estado um número de votos eleitorais e o número destes «eleitores» por cada Estado é determinado pelo censo em cada dez anos. Isso significa que os Estados com maior densidade populacional terão o maior número de votos eleitorais.
Um candidato precisa de um mínimo de 270 votos eleitorais (a maioria) para ser eleito presidente. Embora cada candidato pretenda obter a maioria dos votos populares, o objetivo final é ganhar a maior quantidade de Estados, especialmente aqueles com mais votos eleitorais. Este sistema eleitoral resultou no fato de que, às vezes, o candidato com os votos mais populares não seja eleito presidente.
Estas são as eleições sobre as quais já José Martí dizia em 1881 que «os ‘Politicianos’ corrompem e envenenam todas as bandeiras do espírito, criminosos públicos são estes caluniadores de ofício».

E CUBA NÃO DEIXOU O APÓSTOLIO MORRER
Nós, os cubanos, temos um Partido profundamente enraizado no sonho democrático da nação, herdeiro do Partido da revolução martiana, um Partido obra de Fidel, legitimado por sua história, sua trajetória e o voto cubano. O apoio majoritário à Constituição de 1976 foi um voto de aceitação da cidadania ao papel de liderança do Partido, ratificado em 1992 e em 2002.
Não temos nada a aprender ou copiar do sistema democrático que nega direitos básicos aos seus cidadãos, como a saúde e a educação e que falta à ética e às verdades mais básicas. Em Cuba, não comandam os ‘Politicianos’, comanda o povo soberano.
(1) Carta ao Diretor do La Nación. Nova York, maio de 1884.